TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Nascentes do Cantareira ressurgem em Minas, mas água não chega às represas

Vazão do principal sistema que abastece a Grande SP e a região de Campinas está 60% inferior à registrada antes da crise hídrica

Fabio Leite, Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2015 | 15h50

 CAMANDUCAIA (MG) - A 1,6 mil metros de altitude, quase no topo da Serra da Mantiqueira, parte das nascentes que formam o Rio Jaguari em Camanducaia, no sul de Minas, renasceu com as chuvas dos últimos 30 dias. A água que voltou a brotar na montanha anima os moradores da região, mas ainda não tem volume nem força para percorrer 100 quilômetros e encher os reservatórios do Sistema Cantareira em Bragança Paulista e Joanópolis, em São Paulo. As represas que representam 82% do manancial recebem 60% menos água do que antes da crise e agonizam no volume morto.

Principal afluente do Cantareira, que abastece hoje cerca de 12 milhões de pessoas na Grande São Paulo e na região de Campinas, o Rio Jaguari virou um pequeno córrego com menos de 50 centímetros de profundidade durante a estiagem do ano passado. Muitas nascentes que formam o rio nos municípios mineiros de Extrema, Camanducaia e São Bento do Sapucaí desapareceram no início de 2014, quando o Estado esteve na região. Aos poucos, esses cursos d’água estão renascendo, o que já elevou para 1,5 metro o Jaguari na semana passada, o que não acontecia desde dezembro de 2013.

Em Extrema, na divisa entre Minas e São Paulo, cachoeiras que tinham virado pedra voltaram a ter quedas e piscinas naturais. “O rio sobe bem quando chove aqui no alto da serra, mas logo baixa. A terra está muito seca, ela chupa toda a água”, relata Clemilson Aparecido Fernandes, de 32 anos, que trabalha na Fazenda Campo Verde, onde estão algumas nascentes do Jaguari, no limite do município com São Bento do Sapucaí.

O secretário de Meio Ambiente de Extrema, Paulo Henrique Pereira, conta que esse efeito esponja do solo, agravado pela longa seca na região, ainda impede que as chuvas se revertam em vazões significativas de água para São Paulo. “Normalmente, as chuvas de dezembro e janeiro encharcam o solo, e as de fevereiro e março escorrem e enchem os reservatórios. Elas voltaram, mas ainda muito abaixo do esperado, apenas recuperando as nascentes. Esse processo todo é lento”, afirma.

Ânimo. Aricultores, meteorologistas, pescadores e donos de pousada na região do sul de Minas estão animados com a volta dos riachos e das nascentes do Jaguari. Mas todos são unânimes ao dizer que a chuva deste ano ainda não será suficiente. “Está melhor, já dá para pegar uns bagrinhos de novo. Até o Natal, o rio era só pedra. Dava para atravessar de bota sem se molhar”, conta o pescador Leonor Moreira Alves, 59 anos vividos às margens do rio.

Hilton Silveira, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, explica que as águas das nascentes que estão ressurgindo apenas recompõem o solo neste momento. “Ela não serve para encher o rio de novo. Se chover dentro da média, vai demorar 5 anos para o Jaguari voltar ao normal”, diz o meteorologista.

Neste mês, a vazão média do rio na chegada ao Cantareira é de apenas 6 mil litros por segundo, ante 16 mil litros nesta mesma época em 2013, antes da crise, declarada oficialmente pelo governo em janeiro do ano passado. Enquanto isso, 17 mil litros por segundo saem do sistema. Em janeiro de 2010, por exemplo, quando os reservatórios transbordaram, o Jaguari chegou a registrar 140 mil litros por segundo.

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Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2015 | 03h00

CAMANDUCAIA (MG) - Cerca de 1 milhão de mudas de espécies nativas destinadas ao reflorestamento das bacias que compõem o Sistema Cantareira estão há três meses aguardando a volta das chuvas na região para serem plantadas. Segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, responsável pelo projeto, as condições climáticas ainda não estão favoráveis, apesar do ressurgimento de algumas nascentes no sul de Minas.

“Desde novembro, estamos com as mudas de 86 tipos de árvores nativas esperando o tempo melhorar para fazermos o replantio, priorizando a região de cabeceira do manancial e seguindo até Bragança Paulista. Mesmo com essa chuva que está caindo lá na serra, o solo ainda não está adequado para plantar”, disse Malu. As mudas ajudariam a recuperar cerca de 400 hectares, área equivalente a 400 campos de futebol.

Ela conta que as chuvas comemoradas em dezembro por moradores da Serra da Mantiqueira normalmente começam em setembro na região. “Eu entendo o otimismo deles, porque a seca já dura muito tempo, mas essas chuvas na região serrana já deveriam ter começado há quatro meses. Agora, precisa chover todos os dias em fevereiro e março para que o Rio Jaguari volte ao normal.”

Nenhum órgão gestor de recursos hídricos federal ou estadual tem um ponto de medição de pluviometria na região serrana do Jaguari, o que impossibilita qualquer comparação. O primeiro registro é feito já na entrada da represa, na região de Bragança Paulista, onde a vazão está 80% abaixo da média. 

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Fabio Leite e Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2015 | 03h00

CAMANDUCAIA - A destruição da mata ciliar do Rio Jaguari ao longo de seu trajeto sinuoso por dentro da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas, é hoje a maior vilã da recuperação das represas do Sistema Cantareira.

Sem a vegetação nas suas margens, que deram lugar a imensas plantações de arroz, eucaliptos e a pastagens de gado, o Jaguari sofre um grave processo de erosão que causa o assoreamento do leito do rio e impede que as chuvas na região serrana cheguem aos reservatórios.

O resultado da destruição da mata ciliar do rio ao longo do tempo, segundo especialistas, é justamente a diminuição do volume de água que chega ao Cantareira. Segundo monitoramento da Fundação SOS Mata Atlântica, a região tem apenas 21,5% da cobertura vegetal nativa.

“Sem matas ciliares nas encostas dos rios, a própria chuva acaba sendo prejudicial para o manancial. Em vez de infiltrar no solo, a água corre pela área desmatada, levando sedimentos e assoreando o leito do rio”, explica Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica.

A vegetação das margens funciona como um filtro, retendo a chuva para os lençóis freáticos, que estocam água e aos poucos alimentam o rio. Mas, até próximo de suas nascentes, o Rio Jaguari já perdeu sua mata nativa para plantações de pínus e eucaliptos, culturas consideradas nocivas em áreas de proteção ambiental, justamente por consumirem muita água do solo.

“Os eucaliptos são chamados de secadores de lagos, eles competem com a gente porque consomem muita água e por isso crescem rápido. Pior do que eles, só as áreas de pasto, que impermeabilizam completamente o solo”, afirma Paulo Henrique Pereira, secretário de Meio Ambiente de Extrema.

Desde 2005, o município mantém o projeto Conservador das Águas, que já cercou mais de 6 mil hectares de áreas de preservação permanente que margeiam córregos pagando donos de terra pelo serviço ambiental prestado. Ainda assim, Extrema tem apenas 15% de mata nativa preservada.

Destruição. E a destruição da mata ciliar do Rio Jaguari chega até a Serra da Mantiqueira, em Camanducaia. Fazendas de eucaliptos e pínus tomaram toda a região no alto da serra, onde estão as nascentes do manancial.

“O pínus não é ruim, não. Ele ajuda a manter o solo úmido”, diz Joel Caetano, de 26 anos, administrador de uma fazenda com mais de 120 mil metros quadrados de plantação.

A destruição das matas ciliares é crime ambiental que pode dar 3 anos de cadeia. O Código Florestal estabelece como área de preservação permanente a faixa que, a partir da máxima margem de cada rio, riacho, córrego ou represa, vai de 30 a 100 metros. Nas áreas rurais de Camanducaia as pastagens e fazendas de gado ocupam a margem do Jaguari. “Os bois ficam nessa margem só até o final da tarde, porque o capim está bem verdinho”, diz Ronaldo Baptista, de 39 anos, que cuida de 150 gados em um sítio em Camanducaia.

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Fabio Leite e Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2015 | 03h00

CAMANDUCAIA - A Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas informou ter lançado, em maio do ano passado, um Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento da Mata Atlântica, que prevê investimentos de R$ 50 milhões, com o objetivo de acabar com o desmatamento ilegal no bioma.

Segundo a pasta, o plano contém investimento de R$ 13 milhões apenas em ações de fiscalização que “vão contribuir para a conservação e a recuperação dos remanescentes de Mata Atlântica de Minas”. “Serão fiscalizadas 100% das áreas identificadas com a retirada da cobertura vegetal nativa e em estágio sucessional médio ou avançado, independentemente se são autorizadas ou não pelo órgão ambiental competente.”

De acordo com a secretaria, foram feitas 647 operações de fiscalização em todo o Estado contra desmatamento de floresta nativa e poluição de rios em 2014. Segundo a pasta, cinco ações foram realizadas nas cidades de Extrema e Camanducaia, por onde passa o Rio Jaguari, principal afluente do Sistema Cantareira. O governo destacou que a região faz parte da Área de Proteção Ambiental da Rodovia Fernão Dias, criada em 1997.

Ainda segundo o governo mineiro, desde 2003, “houve aumento de cerca de 35% nas áreas verdes” do Estado. “Minas soma 186 unidades de conservação somente no bioma Mata Atlântica”, totalizando dois 2 milhões de hectares preservados. Apesar disso, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, o Estado foi recordista em desmatamento em cinco dos últimos dez anos.

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