Nem carne nem peixe

O PSD, partido cuja criação foi anunciada oficialmente ontem pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, é uma síntese do quadro partidário brasileiro.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

22 Março 2011 | 00h00

Não tem ideário específico nem posição nítida, se propõe a transitar do governo à oposição, não faz exigências de natureza doutrinária a quem se dispuser a aderir, não apresenta um plano de voo além da oportunidade de disputa de eleições e exibe um programa adaptável a gregos e troianos.

A declaração do deputado Protógenes Queiróz, presente ao ato de lançamento, é emblemática: não está pensando em se filiar ao partido, mas disse que se Kassab convidá-lo para ser candidato à Prefeitura de São Paulo, em 2012, aceita de bom grado trocar o PC do B pelo PSD.

Não vai acontecer, mas bem que poderia se Protógenes tivesse credenciais melhores que ter sido eleito na esteira dos votos de outrem graças às artes do coeficiente eleitoral, a julgar pelos primeiros movimentos PSD e manifestações de seu fundador.

O partido é dito liberal, mas até outro dia havia a firme intenção de se fundir à legenda socialista presidida pelo governador Eduardo Campos. Mudou de nome antes do batismo, para não dar margem a piadas como PDB (Partido da Boquinha) e alterou também seus planos de fusão.

Kassab, que há menos de um mês dizia que numa escala de 0 a 10 não passava de 1 a chance de seu partido seguir viagem sozinho sem se juntar a uma outra agremiação, ontem descartou completamente a hipótese. Para fugir da acusação de que criou um partido "trampolim" apenas para livrar a si e seus novos correligionários dos rigores da fidelidade partidária.

Segundo o prefeito de São Paulo, o PSD é independente, fará "uma espécie" de oposição responsável ao governo Dilma Rousseff mas, ao mesmo tempo, se propõe a ajudá-la a ser "uma grande presidente".

Ao mesmo tempo que adula Dilma, faz da fidelidade ao tucano José Serra profissão de fé, já anunciando que não se oporá a Geraldo Alckmin em São Paulo.

Ante tanto ecletismo, é de se perguntar: afinal de contas, que apito tocará o PSD?

Mesura. O casal Obama deu um show de charme, compostura e simpatia e o presidente americano foi muito gentil, bem como sua assessoria muito competente nas referências históricas e contemporâneas ao Brasil, no discurso do Teatro Municipal do Rio.

Elogiou, celebrou, mas de importante não disse coisa alguma. Fez uma fala "social", guardando o discurso político para a visita ao Chile, este sim um aliado incondicional dos Estados Unidos.

Desmesura. A explicação de que Lula recusou o convite para o almoço com Obama para não "ofuscar" Dilma além de presunçosa é falaciosa. Pela própria composição do cerimonial não há "ofuscação" possível: quem aparece ao lado do convidado o tempo todo é a atual e não o ex-presidente.

Faz mais sentido a impressão geral de que Lula não foi para não ser "mais um" entre outros ex-presidentes. E para não passar pelo constrangimento de ouvir sem compreender a conversa na mesa, da qual fazia parte Fernando Henrique Cardoso.

Se o ex-presidente queria se fazer notar pela ausência, tornou-se percebido pela descortesia. Não surpreendeu.

Para contrariar. Os mais fanáticos fazem de tudo motivo para conflito: de "presidente" versus "presidenta" a blog de Bethânia, qualquer assunto vira uma disputa entre governistas e oposicionistas, cujos embates não costumam privilegiar bom senso, lógica nem discernimento.

Do lado do PT, esse pessoal agora busca razões ocultas para explicar a boa receptividade de Dilma Rousseff em seus primeiros dias entre os não adeptos de sua candidatura a presidente.

É como se vivessem numa dinâmica movida pelo confronto por mero prazer de confrontar.

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