'Ninguém quer recuperar a gente', diz adolescente ex-interno

Em seis anos, quadruplicou a quantidade de crianças e adolescentes apreendidos no Estado do Rio de Janeiro

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

30 Maio 2014 | 18h18

RIO - O número de crianças e adolescentes apreendidos no Estado do Rio quadruplicou em 6 anos. Em 2008, 1.802 menores de 18 anos foram detidos. Em 2013, esse número havia saltado para 7.222. Só nos três primeiros meses de 2014, as apreensões registradas ultrapassam todo o ano de 2008 - 1.890. A escalada nas estatísticas coincide com a instalação de Unidades de Polícias Pacificadoras em favelas cariocas; 36 na capital, uma na Baixada Fluminense.

Leia depoimentos de adolescente apreendido por tráfico, mãe de interna e agente:

Jorge, 16 anos, ex-interno

"Tenho duas passagens por tráfico. Na primeira fiquei um mês, na segunda 24 dias. Nunca dormi numa cama sozinho. Na primeira vez, a gente dormia de valete (alusão à carta do baralho; cada adolescente deita com a cabeça virada para um lado da cama). Na segunda vez, tinha gente dormindo no chão. Mas não faz muita diferença. O colchão é tão fino que a gente quase dorme na pedra. Eles têm colchão novo, mas não distribuem.

Ninguém quer recuperar a gente. Tudo é tapa na cara e soco no peito. Você pede pra acender um cigarro e é tapa na cara. Os agentes só querem te humilhar. E você não tem nada para fazer ali dentro. Só sai da cela para comer. Também pode sair para assistir às aulas na escola. É chato. Mas eu ia para matar o tempo.

Eu saí na semana passada. Mas eu vim ver a minha irmã, que rodou hoje. Ela tem 14 anos. Já teve três passagens em São Paulo, também por tráfico, mas como não tinha documento dela lá, não ficou agarrada. Meus irmãos mais velhos e minha mãe ficam desesperados. A gente fez isso aí para fazer um dinheiro.

Eu ficava na boca. Cheguei a pegar em arma, mas não atirei em ninguém. Não deu tempo, eu rodei antes. Agora eu parei. Estou trabalhando de garçom na praia. Falei para minha irmã largar esse negócio, mas ela é doida."

Maria de Fátima Florêncio e Silva, 46 anos, camareira e mãe de interna. 

"Foi no dia 9 de abril que me avisaram que a menina estava presa. Eu quase morro. Estou de licença médica por causa da pneumonia, mas saí à noite procurando por ela. Minha filha foi presa lá em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense). Eu não conhecia nada, mas fui subindo e descendo de ônibus até chegar à delegacia. Chorei foi muito.

Ela nunca se meteu nessas coisas. Estuda, tem 17 anos. Aí conheceu esse rapaz, que chamou ela para dar um passeio. Ele estava com um pedaço assim de droga. Maconha, cocaína, nem sei. Ela disse que agora acabou tudo, nunca mais vai querer saber desse menino.

Eu não acho certo botar uma menina de família, misturada com um monte de bandida. Tem uma loura, bonita, que matou a mãe por causa de R$ 5 mil. Outra deu facada na amante do marido. Tem umas que tocam fogo no colchão. Eu encomendo muito minha filha: fica com bom comportamento, não se mistura, não confia em ninguém.

O pai dela morreu quando ela tinha 6 meses. Criei ela e os irmãos sozinha. Faz cinco anos que morreu minha irmã e peguei meus quatro sobrinhos para criar. A mais novinha tinha 18 dias. Eu sempre falei para eles: 'vocês sabem o que é certo e o que é errado. Vocês não passam fome, não dormem no chão, não têm precisão de nada.

Já vim aqui três vezes. Pode trazer biscoito e guaraná, mas ela tem que comer na minha frente. Se sobrar, eu tenho que trazer de volta. Desodorante em spray não deixaram entrar, tem que ser aquele que é um 'cremezinho'. Também quebraram o cabo do pente. Mas acho que não volto mais aqui, não. E não é por motivo de morte. É porque eu creio que ela vai sair. A audiência dela é no fim da semana".

João, 42 anos, agente.

"A gente tem que impor respeito. Cobrar disciplina. Eles são cobra criada, chegam aqui botando banca. A gente tem que mostrar autoridade. Quanto mais passagens eles têm pelo sistema, mas credibilidade eles ganham. 

A secretaria diz que eles estão separados por periculosidade. A gente separa na hora de dormir. Mas durante o dia é tudo misturado. E bem misturado. Aquela que tacou pedra no ônibus, a que roubou bala nas Lojas Americanas tá com a que fez picadinho da mãe, com a mulher do traficante.

Na minha época, quem jogava pedra em ônibus levava surra do pai. Agora querem que o sistema resolva tudo. Está errado. Não tem que chegar aqui. Isso aqui não recupera ninguém. Quem matou aquele professor na Tijuca foi egresso daqui (referência ao professor de educação física Silvio Jose Correa Travancas, de 51 anos, morto no mês passado, num assalto). Toda semana tem dois, três casos na imprensa que a gente reconhece ex-interno. Não adianta prender todo o mundo e mandar para cá. Tem que fazer alguma coisa antes."

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