No Rio, livro do high society terá Hebe e outros paulistas

Após morte da irmã, Lourdes Catão também quer incluir casal de lésbicas

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

24 Agosto 2008 | 00h00

Os tempos mudaram e o livro Sociedade Brasileira, uma espécie de catálogo de telefones do high society carioca, vai sofrer uma reviravolta. Helena Gondim, organizadora da lista dos mais bem-nascidos e ricos da cidade desde 1970, morreu em junho. Deixou preparada a edição 2008, que será lançada no dia 15 de setembro no Copacabana Palace. São 2.500 exemplares, à venda por R$ 150. Quem vai assumir seu lugar é a irmã Lourdes Catão, de 80 anos, símbolo de uma época de ouro da grã-finagem brasileira. Suas festas no casarão neoclássico na Urca, aos pés do Pão de Açúcar, no Rio, onde morava com o marido, Álvaro, reuniam do presidente Juscelino Kubitschek a artistas, passando pela juventude rica e bronzeada da época. Lourdes era chamada nas colunas sociais de "the top of the top". "O mundo mudou muito. Não é possível ignorar isso", diz Lourdes, impecavelmente maquiada e penteada, sentada com as costas absolutamente retas no seu dúplex na Praia do Flamengo, no Rio. As famílias tradicionais, como os Monteiro de Carvalho, os Nabuco, os Orleans e Bragança, não vão perder a majestade nem o lugar no livro. Mas Lourdes quer dar uma modernizada na lista. Sua idéia é incluir artistas. "Não qualquer um que aparece numa novela e vira celebridade. Só atores consagrados. Uma Fernanda Montenegro, uma Marília Pêra", explica. Sua lista chega também a São Paulo. Vai convidar Hebe Camargo, Jô Soares e Marília Gabriela para se juntarem aos atuais 2.093 nomes. "A Hebe, por exemplo, é convidada para tudo quanto é festa. Por que deixá-la de fora?" Sua inspiração para modernizar o livro, feito exclusivamente no Rio, vem das festas badaladas que dava na Urca. "Sempre gostei de chamar as pessoas mais bonitas e representativas da suas classes. É esse o espírito do Sociedade Brasileira nos novos tempos. Lá em casa, iam JK, Carmen Mayrink Veiga, Tarcísio Meira, Glória Menezes. Era muito divertido." Em 2002, Helena Gondim já tinha promovido uma reviravolta no livro. Incluiu 500 nomes, entre eles dois casais assumidamente gays: o novelista Gilberto Braga e o decorador Edgar Moura Brasil; o estilista Carlos Tufvesson e o arquiteto André Piva. Lourdes quer mais ousadia. Vai incluir também um casal gay feminino. Ainda não sabe qual. "As mulheres são mais discretas. Não me ocorreu ninguém." Mas, é claro, os convidados que não quiserem fazer parte do livro serão deixados de fora. Lourdes pretende convidar também artistas plásticos, estilistas e quem mais for importante. O critério continua sendo absolutamente subjetivo, o que só faz aumentar o número de pretendentes. "Já recebia telefonema de gente pedindo para entrar quando Helena era viva. Agora deve aumentar", ri. Alguns paradigmas fixados pela irmã serão mantidos. Os emergentes, ricos sem berço que vivem em mansões na Barra da Tijuca, continuam vetados. "Helena sofreu muita pressão de gente influente para incluí-los. Mas ela não admitia de jeito nenhum." Não aceitava também jogadores de futebol. "Minha mãe tinha algumas resistências em renovar o livro", admite João Gondim, que com o pai e o irmão herdou os direitos sobre o Sociedade. "Ela não gostava de colocar gente solteira, por exemplo." Solteiros e solteiras, outra revolução de Lourdes, serão bem-vindos, desde que trabalhem, sejam bem-sucedidos e circulem nos lugares certos. Daisy Munhoz da Rocha, que ajudou Helena nas três últimas edições, já incluiu na próxima uma turma mais jovem, a pedido de João Gondim. Entraram, por exemplo, o designer Guto Índio da Costa e o arquiteto Sérgio Conde Caldas. "Incluímos cerca de 50 pessoas e saíram outras 96, porque morreram." É verdade que Lourdes sempre foi mais ousada que Helena. Aos 50 anos, já morando em Nova York, decidiu ser decoradora. Brilhou na profissão, ganhou prestígio e dinheiro. Passava os fins de semana na sua casa do século 19 em Connecticut, refúgio de milionários americanos. Só voltou ao Brasil em 2004, devastada pela notícia de que o filho caçula, Antônio, estava muito doente. "Voltei achando que ia cuidar dele, ficar ao lado dele, mas ele morreu", conta, com lágrimas nos olhos. Lourdes tem outros dois filhos, Álvaro e Isabel. Em 2001, um escândalo parecia que iria abalar a boa reputação da socialite, mas ela passou com dignidade diante da revelação de que seu primogênito não era filho do marido, mas do cunhado, Francisco Catão. Um segredo guardado por meio século. Álvaro, o marido, havia morrido um mês antes. Francisco, o cunhado, contou a verdade a Álvaro, o filho, no seu leito de morte. Lourdes apenas confirmou e um exame de DNA sacramentou a paternidade. "Eu fiz o que eu tinha de fazer. Não podia negar isso ao meu filho. Nunca deixei transparecer nada enquanto Álvaro estava vivo. Graças a Deus os meus filhos aceitaram e continuam me respeitando." Falar sobre o assunto ainda a deixa abalada. "Ainda não superei, mas acho que tive uma postura digna. Passei incólume." É verdade. Seu prestígio no high society continua em alta. Já nem precisa mais dar as festas glamourosas do tempo em que figurava no topo das listas das mais elegantes. Agora tem o poder de decidir quem merece entrar no Sociedade Brasileira. "Tive uma vida without regrets. Não me arrependo de nada."

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