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'Nunca sei se eu realmente estou bem'

Diego Zanchetta - O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2014 | 02h 02

Dentista que estava na boate ainda sofre com falta de ar e continua expelindo catarro preto

Dos 42 sobreviventes da tragédia na boate Kiss que vão ficar em tratamento médico até o final de 2017, o maior índice de contaminação por fuligem no pulmão foi detectado pelos médicos da Universidade Federal de Santa Maria na dentista Daniele Drogemoller, de 25 anos. Ela perde o fôlego ao falar por mais de um minuto e não consegue andar nem um quarteirão inteiro sem parar para descansar. Toda vez que expele um catarro, tira foto para mostrar aos médicos.

"Continua preto, muito preto, olha a foto", pede a estudante ao mostrar à reportagem fotos em seu celular. "O pessoal da argentina (sobreviventes da tragédia na Boate Republica Cromañón, em 2004, em Buenos Aires, que deixou 194 mortos e 200 feridos) ficou só nove meses com a fuligem e passou. Estou conversando com eles. Mas a minha não passa. Por isso estou preocupada. Eu nunca sei se eu realmente estou bem."

Daniele também não faz mais cirurgias na clínica onde trabalha. "Tenho medo de perder o fôlego no meio, de não conseguir terminar. Nunca mais tive segurança para operar", relata a dentista, que chegou a ter alta na madrugada da tragédia. Na tarde do dia 28 de janeiro, menos de 8 horas após deixar o hospital, começou a ter delírios e foi levada para uma UTI já em estado grave. Intoxicada pela fumaça do incêndio, a jovem estava com a glote quase fechada.

"Só lembro de ter escutado os médicos dizendo: 'nós vamos perder ela'." Daniele ficou 9 dias na UTI e sobreviveu. Ela se considera "abençoada" por não ter ficado com cicatrizes de queimaduras, como outras colegas. Seu namorado, dentista em Sorocaba, no interior de São Paulo, escapou da tragédia sem ferimentos.

Como a maior parte dos sobreviventes, ela também não pensa em pedir indenizações. "Quero retomar minha vida sem depender dos desdobramentos daquele dia."