O acaso e o mérito

Ignoramos o papel do acaso, inclusive no sucesso, levando à supervalorização do esforço.

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 05h00

Qualquer pessoa que pense honestamente sobre o assunto há de concluir que o sucesso depende de esforço e de uma boa dose de acaso. Se a sorte sozinha não leva ninguém muito longe quando não se é capaz de aproveitar a chance, o esforço isolado também não resolve, pois há muita gente que se esforça ao máximo, mas não tem oportunidade. 

Parece óbvio, mas isso só fica claro quando estamos pensando racionalmente sobre o assunto. Intuitivamente não sentimos assim. O cérebro está o tempo todo procurando padrões e relações de causalidade. Tudo o que vemos é imediatamente colocado por nossa mente em uma cadeia de causas e efeitos, dando a sensação de previsibilidade. 

O acaso é um estrangeiro que nunca encontra de fato seu lugar no mundo mental – resistimos à ideia de que algo possa ocorrer sem porquês. O resultado é que no dia a dia nós ignoramos o papel do acaso, inclusive no sucesso, levando à supervalorização do esforço. Se um resultado depende de duas variáveis e nós somos cegos para uma delas, fatalmente atribuiremos todo o peso à outra. É por isso que – erroneamente – associamos mérito a um traço de caráter superior.

Não deveríamos. Mérito é apenas uma medida de aptidão. O halterofilista que levanta mais peso que os outros merece a medalha de ouro. O atleta mais rápido, o candidato que acerta mais questões, todos têm mérito: foram os melhores no que estava sendo medido – força, velocidade, memória. Isso está longe de dizer que são pessoas superiores, que tenham mais valor como seres humanos. Essa é outra coisa que parece evidente quando paramos para pensar, mas que desafia nossas impressões cotidianas. Quando alguém supera os concorrentes cremos automaticamente que ele deve ser mais esforçado. Que ela é mais estudiosa. Deve ter se empenhado mais. Jamais lembramos (a não ser os derrotados) que quem ganhou foi também mais afortunado.

Não que possamos contar apenas com a sorte. Assim como ela, também a capacidade de perseverar em seus propósitos, estabelecer metas de longo prazo e se manter atinado a elas em detrimento das recompensas imediatas faz diferença no sucesso. Determinação conta tanto ou mais que sorte. Mas isso tampouco significa ser superior. Estudos com gêmeos mostram que o traço de temperamento chamado conscienciosidade, característica das pessoas disciplinadas, organizadas, perseverantes, é em grande medida herdado. E boa parte do que não foi herdado vem do ambiente. Acompanhando britânicos da infância até a aposentadoria cientistas mostraram que esse traço é o mais associado ao sucesso – seja na subjetiva satisfação com o trabalho, seja nos objetivos ganhos anuais.

Isso tudo não invalida necessariamente a meritocracia. Como premiar comportamentos os torna mais prováveis, dar medalhas para os mais rápidos ou promoções para os mais competentes os estimula a se tornarem ainda mais rápidos e competentes. A sorte ser fundamental não quer dizer que devemos abandonar provas, testes, competições – são elas que definem o mérito. Mas se o peso do acaso não a anula, ao menos tira o caráter moral da meritocracia: quem é premiado não pode se jactar de sua superioridade; mas os derrotados não têm direito de alegar estarem sendo inferiorizados. Por si só a meritocracia não é boa nem ruim. Depende do que queremos. 

Pense no boxe. Se quisermos encontrar os lutadores mais fortes, não tem sentido a divisão em categorias. Não seria injusto deixar os pesos pesados nocautearem os pesos moscas, se o objetivo fosse saber quem bate mais. Mas seja para trazer diversidade ao espetáculo, seja para evitar mortes, discriminamos os atletas, dando chance aos naturalmente fracos. É a mesma coisa na sociedade. 

Se decidirmos escolher os melhores dentre os melhores para qualquer função, a meritocracia é o caminho a seguir. Mas se acharmos que outros valores podem ser socialmente tão ou mais importantes do que a performance, há que se criar mecanismos de compensação. Dar as mesmas chances para todos implica reduzir as vantagens naturais de alguns. Selecionar apenas os mais aptos, em aumentar as desvantagens naturais de outros. 

É uma questão de escolha.

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