Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

O choro do médico que perdeu um amigo

Raul Cutait, cirurgião de José Alencar, revela a dor e a relação fraterna que construiu com o paciente

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

31 Março 2011 | 00h00

Raul Cutait é um homem entristecido, aos 61 anos. Mais que o paciente, perdeu o amigo. "Nenhum médico gosta de perder um paciente, menos ainda de perder um amigo", ele diz.

A primeira vez que Cutait recebeu José Alencar foi em dezembro de 1997. O médico já era uma referência. Com graduação e mestrado, formado em medicina pela USP, cirurgião e gastroenterologista, hoje acumula dez mil cirurgias em 37 anos de uma carreira reconhecida. Alencar também já era um empresário bem sucedido, no comando da Coteminas, o império que criou na sua Minas Gerais, mas nem imaginava chegar ao Palácio do Planalto.

"Ele (Alencar) veio para operar de um tumor no rim", relata Cutait, que estava em seu eterno posto, o Hospital Sírio-Libanês. "Queria fazer uma endoscopia de qualquer jeito. Foi feita durante a cirurgia e diagnosticado o tumor de estômago. Fui chamado para operá-lo. Conversei com a família e pedi autorização."

Tornaram-se amigos. Alencar, mineiro bom de prosa, contador de histórias e causos, cativou o doutor, que aprendeu a admirar o jeitão do paciente. Raul e José, assim eles se chamavam, sem as deferências dos cargos.

Pacientes ilustres são quase uma regra na vida de Cutait. José Alencar tinha poder, era distinto, mas muito além disso sujeito carismático, querido. "Foram muitas coisas que marcaram nossa relação", conta o médico. "O mais importante foi a maneira objetiva dele de enfrentar os problemas com fé e esperança de que as coisas teriam um caminho. Sempre acreditou."

Anos a fio de duro embate contra um câncer indomável. "Apareceram lesões, surgiram outros tumores, mas esse que o levou à morte era extremamente hostil. Foi há quase 5 anos. Sarcoma bastante agressivo. O José teve uma sobrevida bastante longa pelo tipo de tumor que teve porque enfrentou com toda a determinação cada fase do tratamento."

O paciente era um tipo agradável, recorda-se Cutait. "Ele era uma pessoa doente, mas um grande contador de histórias."

Um detalhe no estilo de Alencar não escapou à astúcia do doutor. "Ele gostava de conversar com um pouquinho de provocação intelectual. Como bom mineiro, jogava uma perguntinha para sentir a sua reação, para ver o que você fala. Eu também gosto de conversar assim."

Tantas lembranças vêm à memória do grande doutor. "É o conjunto da obra. Desde quando era muito novo, quando mudou-se de sua cidade para ganhar mais dinheiro em outro lugar, até os tempos em que dormia no corredor da pensão para não pagar pelo quarto. São histórias de um empreendedor que soube ser muito observador, determinado. Que fazia as coisas da forma mais correta e disso se orgulhava. Essa compreensão plena das coisas é um traço da personalidade dele que o ajudou demais para seu crescimento."

Sempre que Alencar se internava a conversa era colocada em dia - exceto nessa segunda-feira, quando o paciente entrou no hospital pela última vez. "Chegou com muita dor, praticamente sem falar. Estava se preparando para descansar", diz Cutait.

Essa determinação incomum comovia o cirurgião. "Sempre pedia que eu fosse muito claro, que nunca escondesse nada. Um dia ele saiu de uma cirurgia muito grave, depois daquela que durou mais de 17 horas. Ele havia sofrido uma obstrução. Fiquei com receio, talvez não conseguisse resolver o problema. Expliquei a gravidade do procedimento. A família sentiu o peso. Eu estava sendo leal ao pedido dele. José viu que todo mundo ficou meio incomodado. Com naturalidade, ele disse a todos: "Eu não quero clima de velório." Era como se ele soubesse que iria renascer com a cirurgia."

Alencar centralizava as decisões, mesmo enfraquecido. "Você cuida disso, você cuida daquilo, ele dizia. Coisas de alguém que aprendeu a comandar na vida. Com clareza e honestidade ele nunca ofendeu ninguém. Não era autoritário. Uma equipe médica são várias cabeças. Às vezes nem sempre todo mundo pensa igual a você. Ele administrava isso muito bem."

Deixa a lição. "Uma lição de fé e esperança. Isso ajuda a pessoa no mínimo a entender melhor o processo pelo qual está passando. A esperança é a mãe de todos os sonhos."

Raul Cutait chorou. "É um choro por dentro." Quando Alencar partiu, o médico de tantos títulos e triunfos se pôs a pensar. "Toda vez que um médico perde um paciente ele sempre para e reflete sobre o que fez, as atitudes que podia ter adotado para melhorar o quadro. É um autoquestionamento. E é muito bom acabar esse autoquestionamento achando que fez tudo o que cabia fazer. Para José fomos além do limite. Demos a ele não só tempo de vida como qualidade de vida e condições para se despedir."

A única frustração de Alencar, diz Cutait, foi a de não ter ido à posse da Dilma. "Não havia condições. Um risco desnecessário." O paciente queixou-se. "Não gostou, mas quando a Mariza (mulher de Alencar) falou que não deixava em hipótese alguma, ele aceitou. Ela disse: "Você escolhe, a posse ou eu. Aí acabou a discussão". Ontem, logo cedo, o cirurgião retomou a rotina das consultas.

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