O dono da festa

Após agitar o eixo Rio-SP, Carlos Pazetto mira o mercado americano

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

24 Agosto 2008 | 00h00

Quando ouviu falar sobre Gisele Bündchen pela primeira vez, Carlos Pazetto nem quis saber: estava com o casting completo e sem paciência para treinar outra novata aspirante a top model, então uma de suas habilidades. "Mas o Eli (Eli Hadid, diretor da agência Mega) insistiu para que eu visse a menina que acabara de chegar do Sul. Quando coloquei os olhos nela, a reação foi instantânea: você abre meu desfile a-ma-nhã!" Transformar meninas comuns em novas Giseles é o que ele faz agora como diretor de cena do Brazil?s Next Top Model, versão nacional do reality show da Sony que elege a "nova top model brasileira". Em sua segunda temporada, teve mais de 2.500 inscritas - que Pazetto ajudará a resumir, sem piedade, a apenas 13 finalistas. A vencedora assinará contrato com a Ford Models. Pazetto as ensina a andar nas ruas e passarelas, falar, comer, apresentar-se a um cliente. "Gisele não precisou de nada. Chegou pronta!" Naquele primeiro desfile para a grife Viva Vida, no então MorumbiFashion (hoje São Paulo Fashion Week), começou a amizade de quase 15 anos com a modelo - fotos deles abraçadinhos hoje estampam dois porta-retratos de seu amplo e envidraçado escritório, assinado pelo designer de interiores Gustavo Jansen, na Avenida 9 de Julho, onde emprega 11 funcionários, além do batalhão que contrata a cada evento. Pazetto, de 47 anos, é hoje o mais disputado idealizador-produtor-diretor-organizador-cenógrafo dos desfiles e festas badaladas do eixo Rio-São Paulo - a um custo por cabeça que pode chegar a R$ 2.500. "Mas, aí, meu bem, não tem acrílico. É só vidro bisotê", esbanja, do alto de seu 1,80 metro de silhueta finíssima, dentro de um terno preto Ricardo Almeida. Desenhado para ele, diga-se. Ele acabara de sair de uma reunião da Daslu: dirigirá o novo desfile da grife. E foi contratado por Nizan Guanaes para fazer acontecer o Rio Summer, evento de moda praia criado pelo publicitário para desbancar o Miami Swim Fashion Week, que ocorrerá de 5 a 9 de novembro no Forte de Copacabana. O estilista Valentino e a editora da Vogue americana, Anna Wintour, estão confirmados. "Está acontecendo tudo ao mesmo tempo agora na minha vida", diz o faz-tudo, que agora levará seu know-how para fora. Marcos Augustinas, o sócio e ex-companheiro de dez anos, com quem mantém a amizade e os negócios, segue na sexta-feira para Los Angeles para negociar com as três empresas de produção de eventos de luxo que fizeram propostas para levar ao mercado americano de show business a Pazetto Events Consulting. No Brasil, sua assinatura é capaz de atrair celebridades dispostas a dançar até o sol nascer. Foi assim no evento que marcou um século da marca Cartier, no Rio, com 6.500 metros quadrados para 2 mil convidados, que consumiram quase o mesmo tanto - 1.900 garrafas - de champanhe Veuve Clicquot. A empresária Natalie Klein, da NK Store, e outros VIPs chegavam de jato particular e tinham entrada privê na pista do Aeroporto Santos Dumont. Em agradecimento, o presidente mundial da Cartier fez uma surpresa a Pazetto e equipe: um coquetel em uma suíte do Copacabana Palace. "Havia uma coisa errada naquela festa", disse, em alto e bom tom, diante de todos, para arrepio de Pazetto, virginiano com ascendente em escorpião, o que resulta, segundo o próprio, num perfeccionista que também não aceita erros da equipe. "Você não usava um Cartier", completou, para alívio de todos, entregando-lhe o modelo feito por Louis Cartier para Santos Dumont há um século e relançado em edição limitadíssima. Pazetto vai a todos os eventos e coordena tudo pessoalmente, por um sistema de rádio em que ouve toda a equipe - que pode chegar a 80 pessoas, entre produtores, garçons, camareiras, bombeiros, paramédicos. O cliente tem um ponto no ouvido, mas só escuta e fala com Pazetto, que, por sua vez, decide quem pode ouvi-lo, geralmente para receber comandos como: "Solta o prato quente. Agora!" ou "Entra, Gisele. Vai!", determinando o ingresso da übermodel na passarela. Ele acaba de contratar duas diretoras que serão sua sombra por pelo menos dois anos ou até que estejam preparadas para assumir uma festa. Além de Cartier, ele tem em seu portfólio marcas como Calvin Klein, Carolina Herrera, Chanel, Lacoste, Louis Vuitton, Osklen, Salvatore Ferragamo. Quando a festa acaba, Pazetto só pensa em uma sessão de shiatsu na Luisa Sato. Longe do burburinho, quer sossego. Toma café da manhã, almoça e janta em casa a comida de Ana, a sua faz-tudo. Vai e volta do escritório, a um quarteirão, a pé. Quando não está gravando, corre no Parque do Ibirapuera nos fins de tarde e aproveita para dar uma passadinha no Museu de Arte Moderna (MAM), fonte de inspiração, assim como o teatro, que ele freqüenta pelo menos uma vez por semana. "A cidade me alimenta", diz. Quando sai à noite, prefere locais pequenos e discretos, como o La Tartine, bistrô francês na Consolação, ou grandes shows, como o de Coldplay, onde passa anônimo no meio da multidão. Quem pensa que ele passa férias nas praias de Saint-Tropez está enganado. Sua praia é São Vicente, ao lado do pai, farmacêutico, e a mãe, dona de casa. Foi onde nasceu, cursou a Escola Municipal Martin de Souza e começou a carreira trabalhando em uma agência do Bradesco para pagar o cursinho pré-vestibular. Entrou em Publicidade na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo, que pagou fazendo vitrines para lojas como Mappin. Um dia, se cansou do perrengue e foi pedir emprego a José Zaragoza, fundador da DPZ. Começou como assistente de fotógrafo. Assim, descobriu o mundinho da moda, no qual aplicou o que havia aprendido sobre publicidade, vitrinismo e artes cênicas na Escola de Arte Dramática da Universidade São Paulo, onde foi parar após os muitos cursos gratuitos de teatro na adolescência. Aos 15 anos, dirigiu atores da Favela México 70, na Baixada Santista, em uma montagem do clássico musical Hair, sobre os hippies dos anos 1960. "É. Eu sempre fui ousado", conclui.

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