Gilmar Jesus/Estadão
Gilmar Jesus/Estadão

O drama das mulheres de Nova Mutum Paraná

Ameaçadas em Rondônia defendem a entrega de casas construídas para trabalhadores pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil

Leonencio Nossa e Fabio Serapião, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2017 | 03h00

Um relatório do Conselho Nacional de Direitos Humanos, escrito em julho de 2016, pediu ao governo federal a inclusão “imediata” da ativista Iza Cristina Bello, a Índia, de 28 anos, liderança comunitária de Nova Mutum Paraná, um distrito formado por peões e ribeirinhos no rastro das obras das usinas hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau, em Porto Velho. O documento obtido pelo Estado destaca que Índia era alvo de agentes policiais e grupos de milícias. “A Secretaria de Direitos Humanos, em Brasília, nunca me telefonou para perguntar se estava tudo bem”, afirma a ativista.

Hoje, ela vive escondida em uma casa alugada na periferia de Porto Velho, a 106 quilômetros de distância da área de conflito, com três filhos menores, uma irmã com esquizofrenia e o marido, que teve de abandonar o emprego. Índia ainda recebe telefonemas de ameaças. Outra liderança da comunidade citada no relatório do conselho, Lurdilane Gomes da Silva, a Ludma, de 39 anos, também teve de abandonar sua casa e fugir com a família. Ela passou recentemente por uma cirurgia de retirada de um tumor no cérebro.

O ativista João Marcos Dutra, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), em Rondônia, relata que a entidade apresentou, no começo de 2016, os pedidos de inclusão de Índia e Ludma no programa dos defensores, anexando relatórios com gravações de vídeos e áudios. “A gente estranha a demora na análise, pois os pedidos estão bem fundamentados”, afirma.

As mulheres ameaçadas em Rondônia defendem a entrega a famílias de desempregados nas obras das usinas e ribeirinhas de casas construídas para trabalhadores pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), que toca os empreendimentos. Também pedem investimentos das autoridades para geração de renda de famílias de pescadores atingidos pelas represas, que ficaram sem trabalho. Em janeiro de 2016, a líder comunitária Nilce de Souza Guimarães, a Nicinha, colega de Índia e Ludma, teve as mãos e os pés amarrados a uma pedra e o corpo lançado no lago de Jirau.

A lista de ameaçados em Rondônia é formada ainda por testemunhas de crimes agrários e lideranças rurais. No ano passado, 21 pessoas foram assassinadas em disputas por terra no Estado. Atualmente, Rondônia tem 156 conflitos no campo em plena erupção. Milícias, agentes das Polícias Civil e Militar e jagunços estão em terras devolutas disputadas por camponeses e fazendeiros e nos povoados que brotaram do dia para a noite com as obras das hidrelétricas.

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