O PSD, de JK a GG

Na política brasileira, quase tudo que se recicla se degrada. De Kubitschek a Kassab, o PSD é mais um na longa lista de siglas repaginadas para confundir o eleitor e vender raposa por cordeiro.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

28 Março 2011 | 00h00

O prefeito da cidade de São Paulo foi pego numa mentirinha para alavancar seu novo partido. Disse que conversara com a filha do presidente Juscelino Kubitschek sobre batizar a fundação partidária com o nome do pai dela. Maria Estela Kubitschek desdisse Gilberto Kassab e ameaçou processá-lo.

É bom desencorajar o prefeito antes que ele mude a letra do primeiro nome para tomar emprestada também a sigla presidencial. Assim como Muamar Kadafi tem mil grafias, haverá sempre um especialista disposto a provar que, em árabe, Gilberto se escreve com "J".

O único problema é que haverá outros dizendo que Kassab é, na verdade, Gassab (afinal, Kadafi pode ser Gaddafi). E aí, em vez de JK, o prefeito viraria GG.

Ele não é o único às voltas com palavras cruzadas. A senadora Marina Silva trocou o PT pelo PV para disputar a Presidência da República . Agora, descobriu que o verde do partido vem da cor que ficam os filiados ao tentarem desalojar alguns aprendizes de Mubarak da cúpula do PV. Abriu uma dissidência.

O grupo marinista tem até nome: Transição Democrática. Transição para quê? Para um novo partido, pelo jeito. Não seria surpresa. É da tradição brasileira.

Aqui, partido tem dono. Eles se eternizam no poder asfixiando a concorrência interna. Fecham as brechas que poderiam arejar as estruturas partidárias. Vedam o acesso a cargos, a vagas nas chapas eleitorais e aos cofres da agremiação.

Quando um político de expressão se vê sem espaço na legenda que o abriga, ele joga as letras da sigla partidária no liquidificador e sai com uma nova combinação. Vide o PSDB que brotou do PMDB.

Franco Montoro, Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso estavam emparedados por Orestes Quércia em São Paulo. Da crise local surgiu um novo partido nacional. Foram-se os caciques, mas ficaram os índios, hoje confederados.

Num país em que a maioria da população prefere nenhum partido (57%, no mais recente Datafolha), os políticos brasileiros têm uma estranha fixação pelos nomes das legendas passadas. Como se letras se transubstanciassem em votos.

Ao fim da ditadura, Leonel Brizola brigou pelo legado político-eleitoral de Getúlio Vargas encarnado na sigla PTB. Derrotado, fundou uma variação sobre o tema, o PDT. O novo PTB ficou com Ivete Vargas e, após sua morte, deu no que deu.

Finados. Kassab e o vice-governador paulista Afif Domingos estão interessados em outra herança do período Vargas, o conceito de linha auxiliar.

Os dois compartilham mais do que o comando do novo PSD e a carteirinha da Associação Comercial de São Paulo. São experientes em dissidência partidária. Participaram do finado PL, que se ramificou de outro defunto, o PFL.

Desencantada com os dividendos eleitorais do "liberalismo" de fachada partidária, a dupla voltou-se para o apelo do mito "democrata" no DEM e, agora, no PSD - um partido ideológico, nascido para agradar dilmistas e tucanos.

Com a popularidade do prefeito em queda (saldo negativo de 14 pontos no Datafolha) e a previsão de chuvas abundantes em São Paulo (leiam-se inundações), é desafiador imaginar qual "sex appeal" tem atraído políticos para a nova legenda.

A Prefeitura de São Paulo tem o terceiro maior orçamento público do País, mas será só isso? "Tudo isso", responderão os cínicos. "Nada disso", dirão os crédulos, "É o carisma de GG (ou GK)".

Status. Virar sigla ou ser conhecido pelo primeiro nome na política brasileira é uma ambição perseguida por candidatos e seus marqueteiros em toda eleição. Desde 2000 Alckmin luta para virar Geraldo. Serra tentou ser Zé em 2010, sem sucesso.

Uns mimetizam Getúlio, Jango, Lula (apelidos que viraram marca). Outros aspiram a JK, ACM, FHC. Mas esse status não se fabrica, se conquista.

Enquanto homens suam para ter intimidade com o eleitor e serem conhecidos pelo primeiro nome, as mulheres ganham o prenome de guerra sem esforço. São chamadas apenas assim na machista política brasileira. Dilma é "presidente Rousseff" só na boca do líder americano Barack Obama.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.