O que sobrou do Boeing foi explodido

Pelos acordos internacionais, que o Brasil assinou, peças de aviões acidentados não podem ser reutilizadas

Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 1969 | 21h00

Dois meses depois do acidente e de a Aeronáutica ter concluído com sucesso o resgate dos corpos das 154 vítimas, os soldados voltaram ao local da tragédia para outra missão. Um trabalho especial para cumprir acordos internacionais que o Brasil assinou. Em dezembro, todos os destroços do Boeing da Gol, que o Centro de Investigação de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) considerou desnecessários para as perícias, foram inutilizados. "A maioria das pessoas não imagina que nós fomos lá para fazer isso", disse o brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Cenipa. Segundo ele, existe uma verdadeira rede internacional de caçadores de peças de aviões acidentados. "Vão atrás do material para revendê-lo", contou. Pelas normas internacionais, nenhuma peça de aeronave que sofreu acidente pode ser reutilizada. As peças do Boeing da Gol foram destruídas ateando fogo, como foi feito com os pneus, ou inutilizadas com marretadas. Mas as partes mais resistentes foram literalmente explodidas. O trem de pouso foi uma das peças maiores e mais resistentes destruídas por explosões. COR LARANJA Uma outra preocupação que os profissionais do Cenipa têm, de acordo com o chefe do órgão, é identificar as peças encontradas do avião da Gol acidentado para que elas não sejam confundidas com qualquer outra peça que tenha sido transportada para o local pelos soldados do Para-SAR. Todas as partes do destroços do Boeing deixadas na selva de Mato Grosso, incluindo as que foram inutilizadas, foram pintadas com a cor laranja. Segundo o brigadeiro Jorge Kersul, muitas partes da aeronave, assim como muitos pertences das vítimas, permanecerão na área do acidente, sem que tenham sido localizadas. "Quantas vezes formos lá, alguém sempre achará alguma coisa", disse Kersul, ao lembrar que o avião da Gol carregava 4.700 quilos de carga e bagagens - apenas 1.650 quilos foram retirados. "Tem muita coisa ainda lá. Restam mais de 3 mil quilos de cargas e bagagens." Na sua avaliação, porém, "não vale a pena arriscar mais vidas e gastar mais dinheiro para retirar essas coisas de lá. Não se justifica". Em conversa com o Estado, Kersul reforçou, mais de uma vez, que a responsabilidade pela retirada dessa carga não é da Força Aérea Brasileira (FAB), apesar de, no início, os soldados terem resgatado parte das bagagens por entenderem que isso seria importante para atender aos pedidos dos familiares das vítimas. "Do mesmo jeito que tem uma asa perdida na mata (leia reportagem nesta página), a área toda do acidente deve estar cheia de correntinhas, brincos, carteiras, documentos, celulares e laptops", disse Kersul. Segundo ele, familiares chegaram a perguntar se os soldados não iam colocar alarmes em volta do local. "Impossível! O que estão querendo dizer com isso?", questionou-se o brigadeiro.

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