O sorriso de Obama

Barack Obama é um craque da comunicação e da sedução política. Seu sorriso fácil torna a empatia automática e a identificação imediata. Por toda carga simbólica que carrega, sua imagem quebra paradigmas tradicionais do caubói americano, wasp (branco, anglo-saxão e protestante) e beligerante; omite interesses econômicos mais diretos, reforçando laços sentimentais e emocionais. Sua presença aproxima e degela relações com a distante e fria potencia do norte que anda em baixa. Obama é soft power, a conversa, o café, o abraço, em oposição ao hard power da "Era Bush", a distância, a truculência, a intolerância.

Carlos Alberto de Melo, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

Mas, se esta é inegavelmente sua natureza, é também sua estratégia. E foi assim que o principal ator da política mundial subiu ao palco do Theatro Municipal: seu papel era o de um sedutor: o amigo poderoso, mas agradável, simples e popular quanto qualquer carioca pode ser. Um ser tão hipnotizado com "o País tropical abençoado por Deus e bonito por natureza" quanto nós. Sim, adoramos ouvir que "o Rio de Janeiro continua lindo" porque, de algum modo, o Rio é nosso espelho de Narciso - nos encantamos por nós mesmos. Obama sabe disto e manda "aquele abraço!".

Quem esperava um pronunciamento político e incisivo como ocorreu na Universidade do Cairo, em junho de 2009, sentiu-se frustrado. Mas, nem há motivos para isto. Enquanto para o mundo muçulmano Obama buscou o convencimento racional - falando para árabes, falava de tolerância também para os americanos -, para o Brasil seu instrumento foi simpatia capaz de reduzir resistências e estabelecer um ambiente propenso às adesões e alinhamentos políticos e econômicos.

Contrapôs-se à radicalidade e ao endurecimento da política de relações exteriores de Celso Amorim, sob Lula, ainda presentes em setores do Itamaraty e do governo. A natural amabilidade de Barack, que tão bem se adéqua à bonomia brasileira, é também política: busca conquistar aliados que constranjam contendores nos fóruns mundiais. Daí o elogio ao povo, ao futebol, à natureza, à democracia, aos presidentes Cardoso e Lula, à história da presidente Dilma. Enfim, Obama diz a verdade, mas "a verdade é seu dom de iludir".

CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DO INSPER E AUTOR DE COLLOR, O ATOR E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

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