Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

O todo poderoso na Cidade de Deus

Favela carioca acompanhou com euforia a visita de Barack Obama, recebido aos gritos de ''lindo''

Alfredo Junqueira, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

Barack Obama era tema de conversa em tudo que era mesa de bar, salão de beleza, churrasco de boteco, grupo de vizinhas e até nas rodinhas com crianças que se espalhavam na noite de sábado pelas ruas da Cidade de Deus. Ninguém estava muito interessado nas perspectivas comerciais ou na reaproximação política e diplomática que a viagem do presidente americano poderia proporcionar ao Brasil. Cadeira permanente no Conselho de Segurança na Organização das Nações Unidas era tema totalmente esnobado. O importante era que o homem mais poderoso do planeta - chamado sempre carinhosamente de "o negão" ou "o crioulo" - tinha escolhido a Cidade de Deus para visitar em sua rápida passagem pelo Rio de Janeiro.

Os moradores estavam felizes com a perspectiva de melhoria na imagem da comunidade. A violência na Cidade de Deus ganhou notoriedade mundial depois do sucesso do filme homônimo do cineasta Fernando Meirelles, em 2002.

Para muitos moradores, nem mesmo a inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no local, em fevereiro de 2009, teve tanto efeito na mudança da imagem da favela como a visita de Obama e sua família. O nome da Cidade de Deus está de volta ao noticiário - mas, dessa vez, num aspecto positivo.

Fila no salão. "Moro aqui há 35 anos e acho que a comunidade está melhorando. A visita dele é importante para isso. O povo vai ficar mais orgulhoso. Ainda mais sendo ele um presidente da cor", argumentou a diarista Valkiria dos Santos Pereira, de 65 anos, enquanto aguardava para ser atendida num dos salões de beleza da comunidade. "Preciso estar bonita para se eu tiver a chance de encontrar o Obama, né?".

As expectativas para visita de Obama eram as mais variadas. Algumas faixas penduradas em postes e portões saudavam o presidente americano. Um supermercado local tropeçou no inglês ao dar as boas-vindas à "God of City". O menino Lucas Lopes Guimarães, de 9 anos, ficou até as 22h de sábado no campinho em que Obama era esperado para bater uma bola. Queria estar preparado para a eventualidade de jogar futebol com o presidente americano. A cozinheira Regina Helenas Gomes do Rosário, de 66 anos, pretendia oferecer um pouco de sua comida, "tipicamente brasileira", para o visitante.

Animado no comando de um churrasco que avançou pela madrugada numa das vielas da comunidade, o barman Roberto dos Reis Santos, de 52 anos, adaptava funks para homenagear o presidente americano e resumiu a sensação dos moradores que estavam felizes com a visita. "A nossa expectativa para a chegada do presidente é imensa. Qualquer morador do bairro gostaria de recebê-lo em casa. O mais poderoso do mundo. E o cara ainda é crioulo", comemorou Santos. Uma placa convocava para a "Feijoada do Obama", que estava programada para acontecer ontem à tarde, depois da partida da comitiva americana.

A madrugada terminava quando os primeiros fiéis partiam para as igrejas evangélicas da região e os últimos boêmios fechavam as contas nos botecos. Todos comentavam sobre a visita do presidente americano. Mas ninguém nesses dois grupos parecia muito interessado.

A chegada de Obama aconteceria dali a algumas horas. Algumas viaturas da Polícia Militar espalhadas pelas ruas e travessas do bairro eram a única indicação do impressionante aparato militar que começaria a ser montado.

Histeria na laje. A operação de guerra começou pouco depois das 4hs, quando os primeiros homens da Brigada de Operações Especiais do Exército chegaram e tomaram posições em cima de lajes e telhados nos arredores dos locais onde Obama passaria. Por volta das 6h, mais homens da Brigada de Infantaria Paraquedista tomaram ruas e esquinas. Um blindado Urutu entrou pela comunidade e se colocou bem em frente à entrada da Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) - local visitado por Obama. A segurança no local foi completada por homens do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) e agentes das polícias Civil e Federal - tudo acompanhado de perto por integrantes do Serviço Secreto americano.

Todo o cuidado das forças de segurança brasileiras e americanas não impediu, no entanto, um grupo de mulheres de subir nas lajes que ficavam exatamente em frente à FIA. Lideradas pela costureira Anderlúcia Nogueira, de 39 anos, elas não pararam de gritar o nome do presidente americano durante os 33 minutos em que ele permaneceu no local.

"Obama metido". Como Obama e sua família entraram em um local sem acesso ao público e com a parte externa fechada por enormes cortinas brancas, o bom humor das mulheres foi mudando e os gritos e aplausos foram sendo substituídos por vaias e xingamentos. O "Obama, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver" parou de ser gritado. Anderlúcia pediu ajuda para uma correspondente americana para gritar "Obama metido" e "Obama esnobe" em inglês.

De repente, o presidente americano ultrapassa as cortinas e desponta na frente do portão. Anderlúcia e suas amigas voltaram a gritar.

"Lindo", berraram algumas. "Maravilhoso", arriscaram outras. Como um pop star, o presidente americano acenou, mandou beijos, provocou histeria em cima da laje. A aparição do homem mais poderoso do planeta não demorou mais que 30 segundos. Mas era o suficiente. Anderlúcia e as amigas estavam satisfeitas.

"Conquistei o Obama. Ele é maravilhoso", comemorou a costureira.

"Estou aqui desde as 6h. A expectativa valeu a pena", disse a manicure Valéria Caetano, de 31 anos. "Nosso bairro agora é famoso por algo bom", completou Anita de Paula, 62.

De dentro do carro, a primeira-dama Michelle Obama acenou para o grupo eufórico, provocando mais gritos.

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