Obama e a dor do Chile

Não consta no programa que o americano terá contato com a experiência fundamental da história recente do país, o trauma que o povo sofreu nos 17 anos de ditadura Pinochet

Ariel Dorfman, O Estado de S.Paulo

19 Março 2011 | 00h00

Quando Barack Obama desembarcar no Chile na segunda-feira, para uma visita de 24 horas, algo crucial faltará na sua agenda. Haverá mariscos suculentos e discursos elogiando a prosperidade do Chile, acordos bilaterais e encontros com os poderosos e presunçosos, mas, sem dúvida, no programa não consta que o presidente dos Estados Unidos entrará em contato com aquela que foi a experiência fundamental da história recente do Chile, o trauma que o povo do meu país sofreu durante os quase 17 anos de ditadura do general Augusto Pinochet.

E, no entanto, não seria impossível para Obama conhecer um pouco do que foi o sofrimento do Chile. A poucos quarteirões do palácio presidencial de La Moneda, onde ele será acolhido por Sebastián Piñera, 120 investigadores procuram estabelecer uma lista definitiva das vítimas de Pinochet para que elas possam, de alguma maneira, ter uma reparação. Esta é a terceira tentativa, desde que a ditadura chegou ao fim em 1990, para se enfrentar as enormes perdas que ele ocasionou.

Duas comissões criadas oficialmente já haviam averiguado uma imensa quantidade de casos de tortura, execuções e prisões políticas, mas foi ficando cada vez mais claro, à medida que passaram os anos, que inúmeros abusos de direitos humanos ocorreram, mas não foram identificados. E, de fato, nas investigações atuais, 33 mil novas solicitações foram feitas, horrores que ainda não tinham sido registrados.

Embora Obama não tenha o direito de ler nenhum dos informes confidenciais sobre esses casos, alguns minutos roubados da sua agenda restrita para conversar com alguns dos homens e mulheres encarregados dessas pesquisas poderiam lhe fornecer muito mais informações sobre a agonia vivida pelo Chile do que mil livros e reportagens.

Ele poderia, por exemplo, conversar com uma investigadora chamada Tamara. Em 11 de setembro de 1973, dia em que Salvador Allende foi destituído, o pai de Tamara, um dos guarda-costas de Allende, foi detido e nunca mais se soube do seu paradeiro. Eu trabalhava em La Moneda na época do golpe militar e salvei minha vida por um encadeamento de coincidências milagrosas, mas o pai de Tamara não foi tão afortunado, como também não foram vários amigos meus, cujos corpos ainda estão sem sepultura.

Obama poderia também escutar um advogado que conheço, que foi sequestrado uma tarde e torturado durante semanas antes de ser deixado, à noite, numa rua desconhecida tão longe de sua casa que ele foi imediatamente detido de novo por violar o toque de recolher. Ou o presidente americano poderia conversar com uma antropóloga que teve que se exilar durante 14 anos, perdendo seu país, sua profissão e seu idioma, e cujo retorno ao Chile foi tão angustiante quanto o desterro inicial, uma vez que seus filhos, a causa da sua prolongada ausência do país em que nasceram, decidiram permanecer no exterior, o que significa que essa família estará para sempre separada.

Ou, se o presidente Obama se sentir mais confortável conhecendo lugares em vez de seres humanos de carne e osso, poderia conhecer a Villa Grimaldi, uma casa de tormentos onde hoje se ergue um centro para a paz, ou então ceder dez minutos do seu tempo para visitar o Museu da Memória, onde há exposições que denunciam o terrível passado do Chile.

Responsabilidade. Uma razão pela qual tem sentido que Obama faça todo o possível para ter um vislumbre, mesmo que através de um vidro escuro, da nossa grande e devastadora agonia, é que os americanos foram, em grande parte, responsáveis por aquela tragédia. Washington ajudou, estimulou e financiou a queda do governo democraticamente eleito de Salvador Allende e a trajetória ditatorial de Pinochet. Num momento em que a revolta no Egito, como em tantos outros países, contra o jugo autoritário, lembra o mundo das consequências de apoiar regimes brutais, seria edificante para um presidente tão inteligente e compassivo como é Barack Obama ver, de perto e pessoalmente, alguns dos homens e mulheres que foram destruídos por essa política.

E o Chile também oferece um exemplo de quão difícil é confrontar os crimes contra a humanidade, quão difícil e quão necessário. Em meu país, aprendemos que, se a nossa comunidade, nosso povo, não olhar de frente o passado aterrador e trazer para a luz o seu pesadelo, se os responsáveis não receberem o castigo, corremos o risco de ter a nossa própria alma corrompida.

É uma lição a que Obama e seus compatriotas deveriam se obrigar. Dois anos depois da sua abertura, Guantánamo continua aberta e não há sinais de que serão ajuizadas ações por violações de direitos humanos durante o governo de George W. Bush, tampouco alguma indicação de que se pedirá perdão às vítimas. Uma comissão americana adotando como modelo aquela que foi formada em Santiago poderia ser o primeiro passo no sentido de um ajuste de contas que, como bem sabem os chilenos, não deve se prolongar indefinidamente.

Allende. Por mais importante que seja essa experiência para Obama, há uma outra ainda mais significativa. Na segunda-feira, ele deve participar de um jantar no palácio presidencial onde, há muitos anos, morreu Salvador Allende, defendendo o direito do seu povo de escolher seu próprio destino. Allende está enterrado num cemitério não muito distante de onde a elite do país estará brindando a amizade eterna entre Chile e Estados Unidos. Em 1965, durante uma viagem importante ao Chile, Bobby Kennedy quebrou o escrupuloso protocolo que foi estabelecido para ele e se reuniu com mineiros explorados e estudantes universitários hostis; mergulhou nos problemas do país para conhecê-los, para se perguntar como chegar a uma solução.

E se Obama seguisse o exemplo de Kennedy - seu ídolo, Bobby Kennedy - e saísse do roteiro para fazer algo sem precedentes, como uma visita à tumba de Allende? Se, simplesmente, parasse ali e se colocasse de pé diante dos restos de quem, como ele, foi um presidente eleito pelo povo, e lhe dedicasse alguns minutos solitários? Não seria imprescindível pedir perdão ou expressar remorsos pela intervenção dos Estados Unidos nos assuntos internos do Chile, nem pelo seu país ter apoiado Pinochet por tanto tempo. Bastaria esse simples gesto. Essa homenagem a um presidente que entregou sua vida lutando pela democracia e pela justiça social enviaria uma mensagem à América Latina e, na verdade, a todo o planeta, mais eloquente do que 50 discursos. Seria um sinal de que talvez seja possível, de fato, uma nova era nas relações entre os Estados Unidos e seus vizinhos ao sul do Rio Bravo, e de que o passado tão amargo e injusto não voltará nunca mais, nunca mais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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