Ed Ferreira/AE
Ed Ferreira/AE

Obama usará País como exemplo para mundo árabe

Presidente vai citar transição para democracia no Brasil e no Chile para convencer líderes a acolher as demandas populares

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

17 Março 2011 | 00h00

Brasil e Chile serão apresentados pelo presidente dos EUA, Barack Obama, ao mundo árabe como exemplos de sucesso na transição democrática. Tanto em Brasília como em Santiago, entre os dias 19 e 21, Obama deverá insistir no tema como meio de convencer as lideranças do Oriente Médio e do Norte da África a acolher as demandas populares por um ambiente de democracia e respeito aos direitos civis.

"A presidente Dilma Rousseff representa, por si mesma, o sucesso da transição democrática brasileira", afirmou ontem Daniel Restrepo, conselheiro adjunto de Segurança Nacional da Casa Branca para Assuntos Hemisféricos, referindo-se a seu passado na guerrilha e sua prisão e tortura pelo regime militar brasileiro (1964-1985).

O tema entrará também na agenda de Obama com a presidente Dilma Rousseff, no dia 19, e com o chileno Sebastián Piñera. Mecanismos de cooperação com o mundo árabe nessa área deverão ser explorados especialmente pelo Itamaraty. O próprio chanceler Antônio Patriota adiantou o interesse brasileiro de cooperar no processo de transição democrática dos países árabes, em seu encontro de fevereiro com Hillary Clinton.

Ao contrário de outras duas visitas presidenciais americanas à América Latina, em 2005 e em 2009, a Casa Branca acredita ser a região, agora, mais impermeável a líderes que viveram do discurso "antiamericano", com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Da mesma forma, Restrepo salientou ter-se aberto uma "oportunidade para os EUA se engajarem de forma construtiva" com o Brasil, sem recair em um "debate ideológico", a partir da eleição de Dilma Rousseff.

Herança. A relação estreita do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Hugo Chávez, e suas reiteradas defesas à "democracia venezuelana" foram devidamente registradas por Washington. Da mesma forma, foram anotados seu relacionamento próximo aos líderes cubanos, Raúl e Fidel Castro, e sua comparação dos presos políticos aos criminosos comuns.

O governo americano, a rigor, ainda espera uma mudança na política exterior de Dilma também nessa questão. Para os americanos, Dilma já deu mostras de sua preocupação com a violação de direitos humanos no Irã. Mas ainda não se posicionou sobre agressões similares na região. "Chávez e outros (líderes latino-americanos) foram capazes de alimentar e de capitalizar os sentimentos antiamericanos para avançar em suas agendas. Já não há mais tanto espaço para eles continuarem com isso", afirmou Restrepo. "O presidente Obama é um líder muito popular na região."

A apenas dois dias do embarque a Brasília, a Casa Branca reiterou ontem apenas "encorajar o esforço do Brasil" para conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Porém, não deixou escapar nem um átimo do apoio à ascensão do Brasil nesse fórum de decisões políticas e de segurança internacional. O suporte explícito do governo americano se restringe ao maior papel do País nas instituições de Bretton Woods, o FMI e o Banco Mundial, e no G-20, o grupo das maiores economias do mundo.

Em um sinal a ser considerado positivo pelo governo brasileiro, a Casa Branca afirmou seu interesse em "trabalhar junto com o Brasil" sobre a reforma do Conselho de Segurança. A frase indica alguma boa vontade do governo americano em tratar do tema, antes um tabu para Washington. Porém, essa nova postura foi apresentada com o cuidado de não resvalar no apoio ao acesso do Brasil neste momento. A confiança do governo americano no País continua deteriorada pelo voto brasileiro contrário às sanções ao Irã no Conselho de Segurança, em maio passado.

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