ONU critica falta de diversidade étnica na cúpula da Igreja

Relatório do Comitê contra o Racismo nas Nações Unidas aponta para a necessidade de que cúpula do Vaticano se abra ao mundo

Jamil Chade, Correspondente/Genebra

11 Dezembro 2015 | 12h48

GENEBRA - Em uma rara declaração contra o racismo na Santa Sé, a Organização das Nações Unidas (ONU) criticou a falta de diversidade étnica dentro da Igreja. Nesta sexta-feira, 11, um exame publicado pelo Comitê contra o Racismo nas Nações Unidas apontou para a necessidade de que a cúpula da Igreja se abra ao mundo. 

O argentino Jorge Bergóglio foi o primeiro latino-americano escolhido para liderar a Igreja Católica na história e, ao ser eleito, apontou que o conclave havia ido buscar um papa "do fim do mundo". Mas dos 115 cardeais que votaram pelo papa Francisco em 2013, por exemplo, 28 eram italianos e outros 32 do restante da Europa. O bloco europeu, portanto, conta com 60 cardeais, mais da metade da cúpula da Igreja e suficiente para tomar as decisões mais importante na Santa Sé. 

No último conclave, apenas 11 africanos e 13 sul-americanos tiveram o poder de voto na Santa Sé. A Ásia, o continente com a maior população do planeta, não representa nem 10% dos cardeais da Igreja. 

"Ainda estamos preocupados com a quantidade não europeus na cúpula da Igreja no que se refere aos cardeais ", disse o membro do Comitê, Carlos Vazquez. "Na administração da Igreja, também vemos uma concentração em lideranças europeias ", insistiu. 

Segundo a ONU, o papa Francisco tem feito "esforços para promover a diversidade entre os cardeais". Mas, ainda assim, a entidade se diz "preocupada com a sub-representação contínua de minorias étnicas em posições de liderança". O grupo das Nações Unidas pede agora ao Vaticano para que "intensifique seus esforços para garantir a diversidade étnica em toda sua estrutura de governo e nos órgãos de tomadas de decisões". 

A ONU lembra que, no ano 2000, fez uma solicitação oficial para que a Santa Sé revelasse qual o porcentual de cada étnica nos cargos de comando do Vaticano. Até hoje, a lista não foi produzida.

A entidade também reconhece os passos dados por Francisco em relação aos povos indígenas e o pedido de desculpas que formulou em julho de 2015 na Bolívia por conta do papel da Igreja na Colonização. Ainda assim, a ONU insiste que "toma nota das preocupações expressadas por povos indígenas sobre o legado e efeito da Doutrina do Descobrimento, endossada desde 1493 e suas bulas papais". 

A ONU pede que o papa "se engaje em um diálogo com os povos indígenas para lidar com suas preocupações". 

Ruanda. No exame realizado pelas Nações Unidas, a entidade também volta a abrir uma velha ferida da Santa Sé: o envolvimento de padres no genocídio em Ruanda. Vários religiosos implicados no massacre já foram julgados em cortes nacionais e internacionais. 

Mas a ONU alerta que alguns continuam atuando de forma impune. Um deles seria o padre Wenceslas Munyeshyaka, que comandou uma paróquia de Kigali e que, em 1995, fugiu para a França. 

"O comitê recomenda que a Santa Sé intensifique seus esforços para descobrir responsabilidades criminais pelo genocídio em Ruanda, dando todas as informações relevantes para autoridades nacionais e usando medidas que possam garantir Justiça, até mesmo por meio dos códigos canônicos", completou.

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