Os campeões de voto

Candidatos que emergiram das urnas com votação maciça têm perfis variados. Do tocador de obras ao astro da TV, passando pelo político com discurso da moralidade, todos souberam cativar o eleitor

, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2010 | 00h00

EDUARDO CAMPOS

82%

GOVERNADOR DE PERNAMBUCO

Nome: Eduardo Henrique Accioly Campos

Idade: 45 anos

Profissão: Economista

Trajetória: Foi secretário de Governo e de Fazenda do avô, Miguel Arraes, deputado estadual e três vezes deputado federal (PSB), ministro da Ciência e Tecnologia (2003-2006) e governador de Pernambuco (2007-2010)

Angela Lacerda / RECIFE

Localizado a 522 quilômetros do Recife, com população de 7 mil habitantes, Granito, no sertão do Araripe, votou de forma maciça na reeleição do governador Eduardo Campos (PSB). Foram 3.395 votos (99,01%) contra 23 dados à oposição. Granito, assim como mais da metade dos municípios pernambucanos, registrou votação acima dos 90% no governador, transformado no campeão nacional de votos desta eleição.

Por que Eduardo Campos? Como outras 14 localidades, Granito não tinha acesso rodoviário antes de ele assumir. Seus habitantes enfrentavam muita poeira para chegar às cidades-polo de Araripina e Ouricuri. Em abril de 2008, Eduardo foi ao município ouvir a população. Dormiu lá, algo histórico - Granito nunca tinha hospedado um governador. Um ano e meio depois, inaugurou a estrada asfaltada.

Iniciado na política ainda muito jovem, pelo avô Miguel Arraes, Eduardo inovou na gestão, mas manteve ensinamentos de seu mentor, que sempre defendeu o contato com os eleitores. E é esse um dos pilares da aprovação do seu governo. A receita inclui, ainda, trabalho incansável e capacidade de aglutinar diferentes grupos.

Como todo líder precisa de ventos a favor, Pernambuco vive bom momento econômico e conta com o apoio de Lula, de quem Eduardo foi ministro. A União investiu em grandes empreendimentos no Estado - Ferrovia Transnordestina, refinaria Abreu e Lima, transposição do São Francisco. Eduardo aproveita a onda e faz a sua parte, dentro de um plano de governo regionalizado, que fez algum tipo de ação em cada um dos 184 municípios pernambucanos.

Casado com Renata, pai de quatro filhos, Eduardo tem 45 anos. Sua atuação política começou na faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco e se intensificou nas campanhas do avô, de quem foi chefe de gabinete e secretário. Está desde 1990 no PSB, pelo qual se elegeu deputado estadual, três vezes deputado federal e governador. O recorde não chega a ser surpresa: em 2006, Campos teve a maior votação até então registrada em Pernambuco. Recorde que ele mesmo superou.

_________________________

FLEXA RIBEIRO

67%

SENADOR PELO PARÁ

Nome: Fernando de Souza Flexa Ribeiro

Idade: 65 anos

Profissão: Engenheiro

Trajetória: Formou-se pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e foi professor universitário e de escolas públicas. Empresário, foi presidente da Fiepa. Em 1995, concorreu ao Senado. Em 2005, assumiu a vaga de Duciomar Costa (PTB)

Lucas de Abreu Maia

Enquanto tradicionais líderes tucanos - como Arthur Virgílio e Tasso Jereissati - perderam eleições consideradas garantidas para o Senado, um suplente do partido tornou-se o candidato à Casa proporcionalmente mais votado do País. Flexa Ribeiro (PSDB-PA) assumiu a cadeira de Duciomar Costa (PTB) em 2005, quando o petebista deixou o Senado para ocupar a prefeitura de Belém. No domingo, recebeu 67% dos votos válidos (ou 1,8 milhões de votos) - número ainda mais impressionante se comparado aos 39% conquistados pelo mineiro Aécio Neves (PSDB).

Na verdade, Flexa Ribeiro teve a votação inflada pela Lei da Ficha Limpa, que levou ao indeferimento da candidatura de Jader Barbalho (PMDB) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Jader recebeu 1,7 milhão de votos - considerados nulos pela Justiça Eleitoral. Caso fossem contabilizados, Flexa ficaria com 40,5% dos votos válidos - e o primeiro lugar para o Senado, proporcionalmente, caberia a Ricardo Ferraço (PMDB-ES, com 44,55%),

Flexa, ainda assim, evita criticar o adversário político. "Nunca usamos a Ficha Limpa na campanha. Queríamos ganhar no voto, independentemente da impugnação." Mesmo contabilizados os votos ao peemedebista, Flexa acabaria a disputa em primeiro lugar. E foi dupla a vitória do PSDB no Pará. Além de garantir a reeleição de Flexa Ribeiro, o partido também reafirmou o favoritismo do ex-governador Simão Jatene (PSDB) na corrida estadual. A atual governadora, Ana Júlia Carepa (PT), conseguiu empurrar a disputa para o segundo turno, mas teve apenas 36% dos votos válidos.

No Senado, o tucano integrará bancada reduzida. O PSDB perdeu ao menos cinco cadeiras. "É uma pena que o trabalho de grandes políticos como Tasso Jereissati e Arthur Virgílio não tenha sido reconhecido pela população. O Tasso fez uma revolução sem armas no Ceará." Mas empolga-se com o segundo turno. "Vamos levar o Serra à vitória! Aqui ele perdeu por coisa de 7% dos votos, mas vamos virar." E aproveita para alfinetar os colegas de partido: "Se todos fizerem o dever de casa - e vão fazer, porque agora o PSDB tem os governos de Minas, São Paulo e Paraná - dá para dar uma sustentação política à campanha do Serra."

_________________________

ANTÔNIO REGUFFE

18,9%

DEPUTADO PELO DISTRITO FEDERAL

Nome: José Antônio Reguffe

Idade: 38 anos

Profissão: Jornalista

Trajetória: Tentou, sem sucesso, uma vaga na Câmara Distrital em 1998 e 2002. Conseguiu vencer pela primeira vez em 2006, com 25 mil votos. Vai estrear como o deputado federal mais bem votado proporcionalmente em todo o País

Leandro Colon / BRASÍLIA

Um em cada cinco eleitores de Brasília votou em José Antônio Reguffe (PDT) para deputado federal, proporção recorde no País - com 1,3 milhão de votos, o palhaço Tiririca (PR) ficou com 6%, bem abaixo dos 19% do pedetista. Em 2006, quem conseguiu o feito de Reguffe foi Ciro Gomes (PSB), eleito deputado no Ceará, com 16%.

Celebridade nas ruas de Brasília, Reguffe deixa agora de ser uma figura da arranhada política local - é deputado distrital em primeiro mandato - para tentar ocupar a "bancada dos éticos" da Câmara dos Deputados. Com o discurso da moralidade em meio ao escândalo de corrupção no Distrito Federal, conseguiu 266 mil votos no domingo. Se estivesse em São Paulo, estaria entre os cinco mais votados do maior colégio eleitoral do País.

Ontem, em meio à euforia do resultado, já fez anúncio como deputado eleito: vai abrir mão da verba indenizatória mensal de R$ 15 mil, do auxílio moradia de R$ 3 mil e dos salários extras e promete reduzir o uso de assessores. "Esse foi o meu compromisso com os eleitores e vou cumpri-lo", disse. São atitudes semelhantes às tomadas como deputado distrital, que lhe renderam provocações dos adversários e acusações de ser demagogo.

Carioca de 38 anos e filho de um almirante da Marinha, Reguffe ficou conhecido no fim dos anos 90 por fazer campanha na porta de colégios, faculdades, bares e restaurantes de Brasília. Não obteve sucesso em 1998 e 2002, mas chegou à Câmara Distrital em 2006, com 25 mil votos.

Depois, comprou briga com os colegas, que o criticam por abrir mão das benesses da Casa. Diz ter economizado R$ 3 milhões aos cofres públicos. É uma figura isolada: mantém relação apenas cordial com os petistas. Embora seja do PDT, aliado do PT no plano nacional, não votou em Dilma Rousseff. "Votei na Marina Silva." Reguffe chega à Câmara com a segunda maior votação da história do DF para deputado federal. Só perde para o ex-governador José Roberto Arruda, eleito em 2002 com 324 mil votos (26%). Formado em Economia e Jornalismo, é solteiro e mora com a mãe numa casa no Lago Sul, seu comitê de campanha. Ele garante que gastou R$ 143 mil para se eleger. E avisa: quer brigar por uma reforma política na Câmara.

_________________________

WAGNER MONTES

6,4%

DEPUTADO ESTADUAL NO RIO

Nome: Wagner Montes dos Santos

Idade: 56 anos

Profissão: Apresentador de TV

Trajetória: Bacharel em Direito, começou a fazer sucesso na televisão em 1980. Estreou na política em 2006, pelo PDT, e recebeu 111.802 votos para deputado estadual. Foi o mais votado na capital fluminense e o terceiro no Estado

Marcelo Auler / RIO

O apresentador Wagner Montes (PDT-RJ) reelegeu-se deputado estadual com a maior votação absoluta no País: 528.628 votos, mais que o dobro dos 239 mil do tucano Bruno Covas, o mais votado de São Paulo. O sucesso tem relação com o programa policial Balanço Geral, que Montes apresenta na hora do almoço, de segunda a sexta-feira, na TV Record. A fórmula para chegar aos 6,38% dos votos - maior proporção em todas as 27 unidades da Federação - deve-se principalmente ao bordão "Escraaaacha!", usado tanto para elogiar ações policiais como para ameaçar exibir o rosto dos marginais na tela.

O deputado prefere creditar a votação maciça à maneira "séria" como exerceu seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa (Alerj). "Atribuo à conscientização do povo do Rio de que não entrei para a política para brincar. Em três anos e oito meses, nunca tive uma falta sequer e participei de todas as votações importantes, mesmo fazendo um programa ao vivo de duas horas. Saía da TV e ficava na Assembleia, das 15h às 20h30", explicou.

Montes, de 56 anos, trabalha desde os 20 em programas populares na televisão e nos rádios. Participou de fotonovelas e de filmes pornôs, como A Pantera Nua, ao lado da atriz de pornochanchadas Rossana Ghessa. Seu primeiro sucesso foi no programa O Povo na TV, em 1980, na TVS, hoje SBT, com o advogado recém formado Roberto Jefferson - o atendimento gratuito aos telespectadores ajudou o ex-deputado, cassado em 2005, a se eleger seis vezes seguidas desde 1983. Na época, Montes deixou de concorrer à Assembleia porque se adaptava às limitações da amputação da perna direita, consequência de um acidente com triciclo motorizado.

Montes diz querer reestruturar o PDT no Rio, promessa típica de quem pretende alçar voos mais altos. Há dois anos, ele cogitou disputar a prefeitura do Rio, mas abriu mão para não atrapalhar o senador Marcelo Crivella, pastor licenciado e sobrinho de Edir Macedo, da Igreja Universal, dona da TV Record. Com a votação recorde de ontem, não será surpresa se o "Escraaaacha!" voltar à campanha eleitoral de 2012.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.