''Os dois agora têm de mostrar os programas''

Marco Antonio Teixeira, Cientista político e professor da escola de administração da FGV

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2010 | 00h00

O segundo turno, felizmente, vem preencher uma enorme lacuna na nossa vida política. Nem tanto pela razão habitual - a de que é preciso eleger um presidente com forte apoio eleitoral - mas porque o primeiro turno foi praticamente inútil para a discussão dos grandes temas nacionais. "Ninguém sabe direito, quais os programas, as prioridades, a direção, o projeto nacional dos dois presidenciáveis", alerta o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV.

"Agora os dois não têm como fugir de uma conversa séria com o eleitorado", diz o professor. Nesta entrevista, porém, Teixeira se diz preocupado com outra questão: o debate religioso. "Ele já está extrapolando e pode desembocar em animosidades e disputas que nada esclarecem e nada têm a ver com a política".

O que o sr. espera do segundo turno da disputa presidencial?

É o momento de confronto de programas, está mais que na hora. Isso não ocorreu no primeiro turno porque havia muita gente na corrida, os debates eram engessados e os candidatos não se empenharam em revelar muita coisa. Agora eles não têm como fugir disso.

Mas o clima político e eleitoral lembra mais uma guerra religiosa. No que isso vai dar?

Já vimos ontem que um grupo evangélico do Espírito Santo se movimenta em escala maior. E também que Edir Macedo, da Igreja Universal, entrou em defesa da candidata Dilma Rousseff. Meu receio é que isso desemboque em algo que acabará anulando o debate político. A finalidade desse segundo turno é esclarecer o eleitor sobre um projeto de Brasil. A escolha de um presidente para um País grande e complexo como este não é hora nem lugar para debate religioso nenhum. Somos um País que elegeu a liberdade de crenças, temos um Estado laico - ao menos juridicamente - e isso tem de ser preservado. Diferença religiosa não é assunto nem para a Constituição. A busca de votos não pode passar por isso.

Como os dois aproveitariam melhor esse tempo?

Oferecendo ao eleitor um confronto de seus programas. Temos uma infraestrutura que exige medidas urgentes, um desafio na produção de energia, a busca de uma estratégia para desenvolver o País.

E a sombra de Marina Silva nisso tudo?

Ela deu voz e tamanho a uma crucial questão ambiental, que precisa ser articulada com todos aqueles temas. O segundo turno resgata a chance, perdida antes, de um debate sério sobre essa articulação. José Serra vai ter, também, de dar as caras, dizer que é oposição, aceitar a comparação de oito anos de governo do PSDB com oito do PT. Se não o fizer, o eleitor não vai entender de novo.

Já temos um Congresso eleito, definido, com clara maioria de aliados do presidente Lula, na Câmara e no Senado. Se Serra for eleito, ele ficará isolado?

Ele já sinalizou o que faria, ao dizer na terça-feira: "Eu governo com o PMDB." A maioria se constrói com coalizão. A grande certeza política que temos, hoje, é que, ganhe Dilma ou ganhe Serra, o PMDB estará no governo.

E a discussão sobre reforma política, reforma tributária, mexidas na Previdência, vai para o fundo do baú?

São metas difíceis, não é à toa que nunca saem do papel. Vão depender da coragem de um presidente de pagar o preço político, de tentar romper resistências no Congresso.

Se eleita, Dilma não enfrentaria tantas resistências assim.

O mundo político nos ensina que essas coisas não são tão automáticas assim. Conseguir os 3/5 de apoio, em número de filiados a um bloco partidário, não garante tudo. Os eleitos têm suas opiniões, às vezes muito profundas. As bases podem convencê-los a não votar nisto ou naquilo. Veja só um exemplo, o senador Paulo Paim é do PT e entra na cota do Planalto. Mas imagino que o presidente Lula talvez preferisse que ele não tivesse sido eleito. Vai fazer barulho na certa pelos aposentados, etc.

Serra teria mais dificuldades?

Ele tem experiência para negociar maiorias. Mas admito que me surpreendeu, no primeiro turno, a maneira como ele saiu falando em 13º salário para o Bolsa-Família, em mínimo a R$ 600. Em um partido como o PSDB, que criou e tanto defendeu ela Lei de Responsabilidade Fiscal, soa estranho.

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