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Brasil » Os homens que passam o HIV de propósito

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Edgar Maciel

22 Fevereiro 2015 | 03h00

Espalhados em sites e blogs pela internet e presentes em saunas e casas de sexo, grupos de homens soropositivos de diversas partes do Brasil têm usado táticas para infectar parceiros sexuais propositalmente. Adeptos da modalidade bareback, na qual gays fazem sexo sem camisinha, eles têm compartilhado dicas de como transmitir o HIV sem que o parceiro perceba. A prática é considerada crime e tem causado preocupação na área da saúde e também no meio LGBT.

Na web e nas baladas, os barebackers formam o “clube do carimbo”. Em blogs, compartilham diferentes técnicas para fazer sexo sem proteção ou furar a camisinha. Fotos e vídeos ilustram o “passo a passo”.

Há três semanas, uma dessas páginas chamou a atenção e foi compartilhada nas redes sociais. Nas postagens, um aviso de que as férias escolares e o carnaval são os melhores momentos para “carimbar” (ato de transmitir o vírus), principalmente os jovens. “Todo macho recém-convertido ao bare, lá no fundo, quer ser carimbado para ser convertido para o nosso lado, para o bare ‘vitaminado’”, escreveu o autor. O “vitaminado” é uma clara referência aos portadores do HIV.

Nos textos seguintes, os internautas encontravam dicas de como contaminar os parceiros soronegativos. Após inúmeras denúncias, o site foi retirado do ar.

Outro blog, que pertence a M.M.B., de 26 anos, além das dicas de transmissão proposital, adverte sobre a discrição na hora da transmissão e incentiva o ato. “Não fez ainda? Faça! Pois é bem provável que já tenham feito com você”, afirmou. Em entrevista ao Estado, o jovem nega que já tenha transmitido doença sexualmente transmissível (DST) propositalmente e alega que publicou as dicas porque seus seguidores gostam do assunto. “Não vou ser hipócrita e dizer que não curto (sexo sem camisinha). Curto, sim, assim como a maioria curte. Nunca faço sexo com camisinha e postei as dicas porque a galera gosta e sente fetiche.”

Orgias. Da internet, onde os encontros são marcados, o clube do carimbo parte para a ação em festas sigilosas. Apartamentos em bairros de classe média alta, saunas e boates de sexo gay são usados para a disseminação do vírus. As orgias são chamadas de “conversion parties” ou “roleta-russa”. No meio dos convidados, há os “bug chasers” (caçadores de vírus), o soronegativo que prefere sexo sem camisinha, e os “gift givers” (presenteadores do vírus), que são os soropositivos dispostos a contaminar propositalmente ou com consentimento.

R.H., de 36 anos, é empresário e soropositivo há cinco anos. Semanalmente, frequenta clubes de sexo e saunas. “É um prazer incontrolável. Sem a camisinha o meu prazer triplica. Eu odeio camisinha”, diz. Ele afirma que não é adepto da transmissão proposital. Só faz sexo sem camisinha quando “é consensual”, mas já viu colegas de bareback infectando sem consentimento. “É só você ir a qualquer suruba que vê casos de camisinha furada, pessoas estourando sem o outro saber. Considero um esporte do sexo. Eu não pratico, mas sei de muita gente que gosta.”

Marcello Sampaio, de 45 anos, é dono de uma casa de sexo há sete meses no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Por dia, são mais de cem homens. Logo na entrada, camisinhas estão disponíveis. Apesar dos avisos sobre os riscos, as transgressões acontecem. “Sempre alerto os meus clientes, mas eu não tenho controle e vejo muita gente transando sem camisinha”, afirma. “A minha parte eu faço. Seria muito duro colocar a cabeça no travesseiro sabendo que eu fui o responsável por infectar 20, 30 pessoas por noite.”

A preocupação de Sampaio é comprovada pelo Ministério da Saúde. O aumento da infecção é maior entre gays (veja infográfico). Para Áurea Abbade, advogada e presidente do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids, a geração mais jovem desconhece o perigo da doença. “A gente tenta conscientizar e como resposta recebe risadas. Sinto medo de uma nova epidemia.”

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Edgar Maciel

22 Fevereiro 2015 | 03h00

Formado em Economia, C.S., de 26 anos, entrou no ramo das festas de sexo aos 23. Semanalmente, promove encontros entre jovens em um clube no centro de São Paulo. Por lá, a camisinha é item obrigatório logo na entrada. No entanto, nos últimos anos, o evento tem enfrentado concorrência do “clube do carimbo” que, segundo ele, vem crescendo em quantidade e público na cidade. “Nos próximos anos, eles vão virar tendência no meio LGBT”, afirma. A justificativa para a transmissão proposital passa estritamente pelo prazer. “É uma mistura de fetiche e um ato libertário do vírus”, acredita.

Como funcionam as festas?

Nos últimos cinco, seis anos essas festas aumentaram bastante em São Paulo. No começo da minha adolescência, se ouvia falar pouco delas e hoje é muito comum no meio LGBT. Existe uma dualidade das pessoas que falam que não fazem, mas, na verdade, praticam diariamente. Isso acontece no boca a boca. Nada é exposto. Em São Paulo, as festas são capilarizadas. São pequenas, com no máximo 20 pessoas. Quando chega o dia, eles tiram a camisinha e começa a roleta-russa. É uma loteria misturada com adrenalina, segundo eles.

Você conhece o “clube do carimbo”, pessoas que transmitem o HIV propositalmente?

Tenho contato diário com as pessoas em grupos na internet e no WhatsApp. É um público diferente do meu, mas existe muito. Já vi escrito em grupos em que eu estava. Muitos falam: ‘Se a pessoa transou comigo sem perguntar, eu não tenho obrigação de informar. A culpa é dela’. São pessoas que eu tenho boa relação, mas compartilham dessa ideia. Acho que isso é pura sacanagem.

Por que eles fazem isso?

Existe a questão da falta de perspectiva. Para eles, tanto faz como tanto fez ser contaminado. E outro ponto que eles justificam é que, com o tratamento disponível, não há risco de morte, vivendo normalmente. E isso desencadeia um ato libertário da camisinha, porque, no momento em que você se contamina e tem remédios, eles consideram que o sexo fica mais livre.

É uma válvula de escape do soropositivo, que se vê com raiva de estar contaminado e quer repassá-lo?

Antigamente, talvez sim, mas hoje não mais. Acho que existe um sentimento libertário, mas para muitas pessoas é um fetiche. Acho que essa é a palavra que resume essa prática. Hoje, a gente vive o auge dessa prática de contaminação. Nos próximos dois, três anos em São Paulo isso vai ser uma tendência no meio LGBT. Eu mesmo, na festa que organizo, que prezo pela camisinha, já vi pessoas fazendo e precisei expulsar. É uma responsabilidade do organizador também. Se eu vejo e não retiro, sou um coautor da transmissão. 

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Transmitir propositalmente o HIV indica transtorno psiquiátrico

'Embora sejam casos raros, há pessoas que, por revolta por terem sido contaminadas, querem que outros também peguem o vírus', explica psiquiatra

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FABIANA CAMBRICOLI, Edgar Maciel

22 Fevereiro 2015 | 03h00

Transmitir propositalmente o HIV ao parceiro sexual ou se expor ao risco de contaminação de forma consciente são ações que caracterizam um transtorno psiquiátrico, explica Valéria Antakly de Mello, coordenadora da equipe de psiquiatria do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo. “Embora sejam casos raros, há pessoas que, por revolta por terem sido contaminadas, querem que outros também peguem o vírus. Ou então têm medo da reação do parceiro se ele souber da condição do outro e acabam passando a doença para que pareça que os dois descobriram juntos. Nesses casos, existe um traço perverso, de psicopatia.”

Quanto aos que participam de festas bareback, sabendo da possibilidade de se contaminar, há várias motivações vinculadas a problemas psiquiátricos. De acordo com a especialista, há os que têm uma espécie de compulsão e sentem prazer ao correr riscos. E aqueles que buscam, ao se infectar, pertencer a um grupo, conhecer pessoas e participar de ONGs do tema. Por fim, existem os que sentem que seu comportamento de risco vai acabar provocando a contaminação algum dia e preferem se infectar logo.

O infectologista Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, supervisor do ambulatório do Emílio Ribas, alerta ainda que, com o avanço no tratamento, muitas pessoas enxergam a aids como um simples problema crônico e não tomam o devido cuidado. Alguns até sabem da existência da profilaxia pós-exposição, medicamento que deve ser tomado até 72 horas após a relação de risco. “É para ser usada em situação de emergência, como quando estoura a camisinha.”

Pena. A pena para quem transmite o vírus sem o consentimento do parceiro é de até 4 anos de prisão, segundo o artigo 130 do Código Penal: “expor alguém, por meio de relações sexuais ou qualquer ato libidinoso, a contágio de moléstia venérea, de que sabe ou deve saber que está contaminado, se é intenção do agente transmitir a moléstia”. Para o consultor jurídico em HIV Marcelo Brito Guimarães, pode-se levantar uma questão jurídica mais grave. “É um crime doloso, pois se tem a intenção de infectar a pessoa. É como se você atropelasse uma pessoa por vingança, intencionalmente, um caso de homicídio”, disse.

Desde 2012, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem classificado ações de transmissão consciente do vírus HIV como lesão corporal grave.

 

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