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ENTREVISTA: Andrea Tornielli

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‘Os pobres, repete o papa, são a carne de Cristo’

Autor de entrevista com Francisco que virou livro destaca perfil de pontífice e a importância do tema da misericórdia

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Roberto Lameirinhas

16 Janeiro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Andrea Tornielli, vaticanista que escreve para o jornal italiano La Stampa e para o site Vatican Insider, transformou em livro uma conversa de cinco horas com o papa Francisco. Lançado na semana passada na Europa, O Nome de Deus é Misericórdia, de 112 páginas, editado no Brasil pela Planeta, já pode ser encontrado no País em fase de pré-venda. Em entrevista concedida por e-mail ao Estado, Tornielli explica como tem repercutido nos meios pastorais e eclesiásticos o estilo informal do papa argentino.

Durante a entrevista, qual foi a impressão que o senhor teve a respeito do papa? Como ele impressiona as pessoas comuns, tanto do ponto de vista pastoral quanto em relação às posições do homem Jorge Bergoglio?

Chamou muito a atenção estar na frente de um homem que nos informa sempre da característica de proximidade e de ternura de Deus. Um Deus que busca cada possibilidade, cada pequeno espaço para que nos beneficiemos de seu perdão. E me encantou sua capacidade de acolher, de ter verdadeiramente presente a pessoa que está diante dele. Um exemplo: era julho, um dia de muito calor (na Europa), e o papa me pediu: “por favor, tire seu paletó”.

Em relação aos outros papas que conheceu, em que Francisco mais lhe parece diferente?

Cada pontífice tem suas características, cada um nos apresenta e aprofunda no tempo presente a mensagem de Jesus Cristo. A característica principal de Francisco é o seu testemunho pessoal de proximidade com o povo, a insistência sobre o tema da misericórdia, que é central no Jubileu (ano santo durante o qual a Igreja concede graças espirituais). O cuidado em nos explicar que os pobres não são uma categoria “sociológica”, que a atenção aos pobres não é uma mera consequência da fé, mas algo que “pertence ao coração dessa mesma fé”, pois, como explica Jesus no Capítulo 25 do Evangelho de Mateus, cada vez que ajudamos um pobre, um encarcerado, um doente, significa ajudar ao próprio Jesus. Os pobres, repete o papa, são “a carne de Cristo”.

O papa tem adotado posições consideradas avançadas, sobretudo no debate de temas de costumes considerados mais delicados na Igreja. Até que ponto o senhor crê que essas posições poderiam ser incorporadas efetivamente à instituição?

Até agora não percebi posições tão avançadas assim. Teremos de esperar pela exortação apostólica sobre a família. Mas o papa explicou no avião depois das jornadas no Rio (em julho de 2013) que ele é um “filho da Igreja”. Ou seja, que é o guardião da tradição da Igreja. O que me parece que ele nos ajuda a compreender melhor é que a Igreja deve condenar o pecado, mas tem de abraçar o pecador, com uma atitude que seja inclusiva, acolhedora.

De que parte da Cúria romana saem as principais forças de oposição às posições do pontífice?

Antes de tudo, deve-se levar em conta que resistências no interior da Cúria ou da Igreja não são uma novidade: todos os papas dos últimos 60 anos tiveram de enfrentá-las. O papa pede a todos uma “conversão pastoral”, uma atitude mais missionária, uma atenção mais acolhedora. É preciso um tempo para “sintonizar-se”. O problema é que há pessoas que não seguem o papa, mas estão aí para julgá-lo a cada dia.

Como se vê em Roma a atitude de pouca formalidade do papa, que telefona a pessoas para resolver problemas como a dificuldade de batizar filhos de mães solteiras, por exemplo, ou sair da Santa Sé sem as insígnias papais para encontrar-se com fiéis?

Há resistências, mas acredito que as mudanças, graças à personalidade “callejera” de Francisco e sua proximidade com os pobres, são coisas belíssimas. Então, o importante é que a maioria das pessoas possa compreender isso e me parece que elas compreendem.

Como o senhor vê a política externa do papa, como sua proximidade com o presidente americano, Barack Obama, o papel em temas como a aproximação entre Estados Unidos e Cuba?

Parece-me que o papa está propondo sua geopolítica do Evangelho, falando muito claramente sobre as causas das guerras, o modelo de desenvolvimento de uma “economia que mata”, a necessidade de favorecer sempre soluções diplomáticas, o diálogo entre as religiões e a forte condenação de quem instrumentaliza o nome de Deus como justificativa para a violência, o ódio e o terrorismo.

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