País ''precisa de reformas para ser potência''

Para historiador dos EUA, Brasil tem 4 dilemas a serem superados para se tornar ''player'' global

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

19 Março 2011 | 00h00

O Brasil tem muitos méritos na sua caminhada rumo aos emergentes e saiu-se bem da crise financeira mundial, mas precisa fazer logo suas reformas estruturais se pretende, de fato, manter suas pretensões de ser um "player" global. "Se seus governantes não o conseguirem, alguém acabará perguntando o que eles tanto querem fazer nos assuntos externos, se não põem ordem nos internos."

A provocação é de um jovem professor da Duke University, Hal Brands, autor do livro Latin America"s Cold War (A Guerra Fria na América Latina) e de um recente ensaio, Dillemmas of Brazilian Grand Strategy (Dilemas da Grande Estratégia Brasileira). No momento em que o presidente Barack Obama chega ao Brasil, e este enfrenta um teste diplomático, Brands deixa um aviso: o Brasil "não vai ter a capacidade para competir, econômica ou militarmente, com as grandes potências durante décadas". O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "não foi capaz de resolver quatro dilemas centrais, que podem dificultar a ascensão geopolítica do País".

Desafios. O primeiro desses quatro dilemas, segundo Brands, é a ordem interna, que pede providências na infraestrutura, na segurança pública e nos altos impostos. Segundo, o ressentimento dos vizinhos, por causa de seus desejos de liderar a região. Terceiro, as incertezas das parcerias estratégicas na diplomacia - não há tanta coesão assim em alianças como os Brics ou o Ibas. E por fim, "crescente risco de conflitos sobre Irã, política comercial e o papel militar dos EUA no continente".

Brasil e Estados Unidos "têm um desejo comum de estabilidade na América Latina e defendem uma ordem mundial aberta, consensual". Mas interesses comuns "não se traduzem, necessariamente, em relações harmoniosas". O que duas grande nações precisam, diz Brands, é ter "um relacionamento bilateral maduro, em que ambos trabalhem para enfatizar a cooperação e compartimentalizar suas diferenças".

Muitos ou um só. Na contramão da ideia de um mundo hoje multipolar, Brands sustenta que "neste exato momento, o mundo continua unipolar no sentido militar, já que nenhum país, ou conjunto de países, pode desafiar o poder americano". Ao mesmo tempo o mundo é multipolar "no sentido político e econômico", pois aumenta rapidamente a influência de potências como China, Índia, União Europeia e, em menor escala, Brasil".

E o que isso significa? Para o historiador, "não está claro de que modo isso vai funcionar no futuro". "Tudo depende de como os futuros problemas serão resolvidos." A questão dos novos caças pode ser um exemplo: e se o Brasil escolher o modelo francês Rafal? "O principal impacto de o Brasil comprar o modelo francês seria mais uma oportunidade perdida para laços militares mais sólidos."

Para o Brasil se manter entre as potências médias, Brands vê algumas etapas. O País deve "encontrar recursos e vontade política para tornar mais convincente sua liderança regional". Deve ter "maior discernimento em suas parcerias e iniciativas". Trabalhar na busca de um modus vivendi sustentável com os Estados Unidos. "E, acima de tudo, articular seus recursos, criatividade e compromisso para atacar os graves problemas internos."

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