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Brasileiro acha mais grave blasfêmia do que 'pequenas' fraudes

Pesquisa que ouviu 400 homens e mulheres do País mostra que brasileiros aceitam mais facilmente atos de corrupção no cotidiano

Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2015 | 19h18

Mesmo que, em tempos politicamente conturbados, o discurso anticorrupção seja pauta diária, brasileiros não avaliam como graves pequenas fraudes do cotidiano, segundo um estudo da empresa Flyfrog, especializada em pesquisa de mercado. Subornar um guarda para evitar uma multa, fazer "gato" de luz ou estacionar em vagas reservadas a deficientes são comportamentos mais aceitáveis do que reclamar de Deus, por exemplo. 

Intitulado Moral e Ética: Quais os Valores que Norteiam os Brasileiros, o levantamento mostrou que o aborto foi considerado dez vezes mais grave do que pagar comissão ilegal por um negócio ou votar em um político corrupto; que blasfêmia é pior do que comprar mercadoria sabidamente roubada; que divorciar-se é mais sério do que furar fila. 

Foram consultados, na segunda quinzena de outubro, pela internet, 400 homens e mulheres de todas as regiões do País, de classes A, B e C e idade superior a 18 anos - variáveis ponderadas por dados do censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Queríamos tentar entender se as atitudes dos brasileiros no dia a dia condizem com essa briga generalizada que se vê contra a corrupção e crimes de colarinho branco. Em outras palavras, se as pessoas de fato praticam aquilo que cobram das autoridades", justifica o líder da pesquisa, o sociólogo Rodrigo Toni, ex-CEO da Ipsos no Brasil e na Ásia.

Percebeu-se que, possivelmente em função de campanhas de conscientização, agredir mulheres e dirigir alcoolizado são ações julgadas graves por aqueles que responderam a pesquisa. "É interessante notar que algumas bandeiras, chanceladas por legislação e, portanto, socialmente rejeitadas, já foram inseridas nas consciências das pessoas, mas outras, relacionadas à cidadania, ainda não", diz Toni.

Aborto, violência doméstica e omissão de socorro em caso de acidente lideram a lista das ações mais condenadas pelos brasileiros, com índices 8,31, 3,80 e 3,18, respectivamente. Os números devem ser lidos da seguinte forma: 1,0 é o ponto de equilíbrio - quanto maior que 1, mais grave é considerado o comportamento; quanto menor, mais aceitável. 

Achar algo perdido e não devolver ao dono, por exemplo, corresponde ao índice de 0,23; transferir pontos da carteira de habilitação para outra pessoa, 0,19 - taxas que revelam a pouca importância dada pela população a esses fatos, ambos ilegais. "A consciência popular não aceita que certas contravenções ou infrações à lei devem ser reprovadas. Existe uma grande flexibilidade na cultura brasileira em relação ao que é certo e errado, o que anda de mãos dadas com a enorme criminalidade, corrupção e desrespeito aos direitos mais básicos dos cidadão por parte de todas as esferas do Estado", aponta o estudo.

Entre as 34 situações apresentadas aos participantes do levantamento, a corrupção apareceu, para os brasileiros do Norte, em 18º lugar no ranking de atitudes reprováveis - é a região que dá menos importância para a contravenção. No Nordeste, ocupa a 14ª posição; no Sudeste, a oitava, e no Sul, a sétima. Também há discrepâncias entre as avaliações de pessoas com diferentes níveis de escolaridade: quem tem diploma de graduação considera as atitudes corruptas 57% mais sérias do que aqueles que não possuem ensino superior.

Crimes indiscutíveis, como assassinato e roubo, não entraram na lista. A ideia era abordar assuntos polêmicos, infrações "menos graves" ou atitudes enquadradas como "espertezas". Foi utilizada uma técnica que permite produzir rankings de repulsa ou aceitação, com base em grandes conjuntos de itens que são apresentados em diferentes sequências a cada pessoa.

Em geral, Toni conclui que o Brasil se mostra mais pautado por questões morais do que éticas: quesitos que envolvem desrespeito ao cidadão estão no final da lista de prioridades. "Ainda precisamos caminhar bastante para sermos uma sociedade cidadã e legalista. Para acabar com os grandes crimes, é preciso tolerância zero também com as pequenas transgressões", diz. 

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