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Para especialista, protesto arrefeceu no Rio por falta de pauta precisa

Clarissa Thomé e Felipe Werneck - O Estado de S. Paulo

16 Maio 2014 | 20h 06

Enquanto São Paulo reuniu 15,7 mil em três atos durante toda a quinta-feira, a capital fluminense atraiu 1,5 mil na manifestação contra a Copa

RIO - A mobilização nas ruas arrefeceu no Rio. Enquanto São Paulo reuniu 15,7 mil em três atos durante toda a quinta-feira, 15, a capital fluminense atraiu 1,5 mil na manifestação contra a Copa. Pesquisadores ouvidos pelo Estado divergem dos motivos para o esvaziamento nos protestos. Para o historiador Daniel Aarão Reis, os paulistas ainda têm uma pauta precisa, a luta por moradia pelos sem-teto; enquanto o Rio tem pauta difusa. Já o professor de Direito Constitucional Adriano Pilatti acredita que a violência policial e a morte do cinegrafista Santiago Andrade estão entre os motivos responsáveis por afastar o público das ruas.

Aarão Reis, professor da Universidade Federal Fluminense, avalia que "quebra-quebras e pancadarias" afugentaram "pessoas comuns" das manifestações. Mas identifica também "um certo desencanto em relação à efetividade" dos atos. "Há muita indignação com obras faraônicas, gastos feitos em nome dos grandes eventos, mas protestar por protestar soa meio vago. E a violência, seja da polícia ou dos black blocs, faz as pessoas tenderem a ficar em casa. Em São Paulo, o protesto teve uma coluna vertebral, que foi a questão dos sem-teto".

Já Pilatti, professor da PUC-Rio, ressalta que desde as primeiras manifestações houve muitas pautas. "Os protestos de rua colocaram na ordem do dia temas incontornáveis e dramáticos como a violência policial, a concentração dos meios de comunicação, deficiências da representação política, modelo de transporte, remoções de famílias pobres. É nesse sentido que eu leio o 'não vai ter copa'. O que se questiona não é o acontecimento esportivo, mas o modo como a decisão dos megaeventos foi tomada e a execução, que expõe promiscuidade entre público e privado que ninguém mais aguenta", afirma. "A repressão, a postura com que a grande imprensa tratou os manifestantes, e o terrível acidente que vitimou o cinegrafista da Band provocaram um clima que fez com que as manifestações refluíssem".

Os dois estudiosos ressaltam, no entanto, que os movimentos de junho não se extinguiram. Ambos destacam o fato de as mobilizações terem reverberado em favelas. "As comunidades mais pobres não aceitam, como aceitavam, a violência policial, a ação agressiva. A arbitrariedade tem gerado revoltas", diz Aarão Reis.

Pilatti fala em "pedagogia da revolta". "Isso ocorre principalmente entre os excluídos, que começaram a construir sua forma de expressar a demanda por direitos. A sociedade e o jovem, sempre tão acusados de alienados, e sobretudo os pobres, desenvolveram uma consciência política nesses meses, que parecem anos. É um processo rico. E está apenas começando."

Embora manifestações gerais estejam mais esvaziadas, as greves setoriais voltaram a levar gente para as ruas, no Rio, como já ocorrera com os professores em outubro. Primeiro foi a dos garis, em março, que resultou em um reajuste de 37%. A manifestação de quinta-feira contra a Copa foi engrossada principalmente por professores, que iniciaram uma nova greve em 12 de maio. Já os motoristas e cobradores responsáveis pela paralisação de terça e quarta se dividiram: a maioria se recusou a caminhar até a Central do Brasil para o ato contra a Copa, com o argumento de que adeptos da tática Black Bloc promoveriam depredações, o que não ocorreu.

Além das categorias profissionais, a mobilização hoje é feita por comitês populares organizados nas cidades-sede da Copa. As pautas são discutidas e votadas em assembleias regulares. Integrantes de movimentos sociais avaliam que é difícil manter um ano de mobilização e que a participação espontânea ocorre em picos.

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