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Para o papa, ‘juventude está em crise’ e corre o risco de ‘nunca trabalhar’

Francisco chega ao País em ‘momento oportuno’, mostra simpatia com protestos de rua, mas diz que veio para um ‘diálogo de amigos’

Jamil Chade / RIO,

22 Julho 2013 | 21h51

Em seu primeiro discurso no Brasil, diante da presidente Dilma Rousseff, de políticos e autoridades no Palácio Guanabara, no Rio, o papa Francisco cobrou educação e meios materiais para que os jovens possam se desenvolver, e deixou claro que sua viagem ganhará forte caráter político. Antes mesmo de desembarcar, ainda no avião que o levou ao Brasil, o papa fez um ataque direto às receitas dos governos para lidar com a crise internacional. E alertou para o risco de se criar uma geração perdida diante da incapacidade de os jovens encontrarem trabalho.

 

Francisco ainda cobrou os políticos. “A nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhes espaço: tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento, oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida, garantir-lhe segurança e educação, para que se torne aquilo que pode ser”, disse o pontífice.

 

Oficialmente, Francisco viajou ao Brasil para participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), mas aproveitará a semana que passará no Brasil para dar indicações do que pretende como papa, fará alertas aos políticos e se reunirá com cardeais para debater a situação latino-americana.

 

O alerta sobre o impacto da crise mundial foi primeiro dado ainda no avião. Aos jornalistas, revelou sua preocupação com a exclusão social, principalmente no caso dos jovens. “Essa primeira viagem é para encontrar os jovens. Não em isolamento, mas no contexto de suas sociedades”, disse. “Quando nós isolamos os jovens, fazemos uma injustiça. Eles pertencem a uma família, a uma cultura, a um país e a uma fé. Não podemos isolá-los da sociedade. Por isso é que quero encontrar os jovens em seu tecido social.” 

 

O pontífice continuou: “É verdade que a crise global não tem sido suave com os jovens. Li, na semana passada, quantos deles estão sem trabalho e acho que estamos correndo o risco de criar uma geração que nunca trabalhou”, alertou o papa.

 

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que, em alguns países, mais de 50% dos jovens estão sem emprego e, pior, sem perspectiva de trabalho. “A juventude está em crise”, alertou o pontífice. “Estamos acostumados com uma cultura descartável. Fazemos isso com frequência com os idosos e, com a crise, estamos fazendo o mesmo com o jovem. Precisamos de uma cultura de inclusão”, continuou Francisco. 

 

Para o papa, o problema da exclusão também afeta os mais idosos – e não só os jovens. “É verdade que os jovens são o futuro do povo, porque têm energia. Mas eles não são os únicos que representam o futuro. Os idosos também, porque têm a sabedoria da vida.” 

 

‘Momento oportuno’

 

Francisco afirmou que chega ao País em um “momento oportuno”, por causa dos protestos, e dá o primeiro sinal concreto de sua simpatia pelos movimentos sociais que ganharam as ruas – ontem, manifestantes tomaram a região central do Rio e houve novamente confrontos.

 

O argentino, porém, deixou claro que não chegou para desafiar e quer um “diálogo de amigos”. Não por acaso, teceu longos elogios ao Brasil e à sua população. “Nesta hora, os braços do papa se alargam para abraçar a nação inteira brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa”, declarou. “Desde a Amazônia até os Pampas, dos Sertões até o Pantanal, dos vilarejos até as metrópoles, ninguém se sinta excluído do afeto do papa.”

 

 

Em português e com leve sotaque, o papa brincou durante discurso no Palácio Guanabara, quando se dirigiu aos jovens e usou linguagem pouco habitual para um pontífice. “Cristo bota fé nos jovens”, disse, destacando uma das motivações da Jornada. Mas alertou: “Também os jovens botam fé em Cristo”. Abusando de expressões, o pontífice chegou a dizer que “os filhos no Brasil são a menina dos nossos olhos”. 

 

“Aprendi que, para ter acesso ao povo brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração. Por isso, permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta”, discursou. “Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo.”

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