André Dusek/ Estadão
André Dusek/ Estadão

Parte de viaduto cai na região central de Brasília

Incidente aconteceu seis anos após Tribunal de Contas do DF destacar, em relatório, necessidade de reparo e manutenção urgente do local

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 12h19
Atualizado 06 Fevereiro 2018 | 23h24

Parte de um viaduto do Eixo Rodoviário de Brasília, o chamado Eixão, principal via que corta os 14 quilômetros de extensão do Plano Piloto, desabou às 11h45 desta terça-feira, 6, horário de grande movimento de tráfego, sem deixar vítimas. Quatro carros estacionados embaixo da pista foram esmagados. A queda do vão ainda danificou um restaurante que funcionava entre os pilares da estrutura. O refeitório abriria as portas ao meio-dia.

O incidente ocorreu seis anos após o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) destacar, em relatório, necessidade de reparo e manutenção "urgente" do local, sete anos depois de o Conselho Regional de Engenharia (CREA-DF) pedir vistorias imediatas e passados seis meses da publicação de um estudo do Sindicato de Engenharia e Arquitetura (Sinaenco) exigir atenção do governo de Brasília para as rachaduras.

Em 2014, o governador Agnelo Queiroz (PT) apresentou o documento Matriz de Responsabilidades, chancelado pela Fifa, que considerava o sistema viário da área central da cidade, em perfeitas condições de estrutura. Sem esconder a tensão, o atual governador, Rodrigo Rollemberg (PSB), admitiu que já tinha informações sobre problemas do viaduto. Em entrevista após o desabamento, prometeu a liberação de R$ 1,4 milhão para tirar o entulho e reconstruir a estrutura. 

“Felizmente não houve vítima, isso é o mais importante. São viadutos antigos. Desde o inicio do nosso governo fizemos manutenção em oito viadutos, seis tiveram reforço da estrutura, infelizmente esse não recebeu manutenção. Brasília é uma cidade que está envelhecendo”, disse.

Oficiais do Corpo de Bombeiros ouvidos pelo Estado afirmaram que há riscos de novos desabamentos em todo o complexo de pistas, de marquises e da grande plataforma localizada no centro da cidade, onde está a rodoviária, que começou a ser construído no final dos anos 1950. Setores do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil pediram ao governo uma vistoria ampla de todo o sistema viário, que apresenta fendas, concreto e ferros expostos e infiltrações. A princípio, as autoridades determinaram o fechamento da área até o dia 19. A reconstrução do viaduto levará pelo menos seis meses.

O Eixão cruza o Eixo Monumental - via onde está a Catedral e os prédios da Esplanada dos Ministérios, formando o "sinal da cruz", na definição do urbanista Lúcio Costa, autor do Plano Piloto. O viaduto é um trecho do Eixão próximo ao Buraco do Tatu, passagem subterrânea, no marco zero da cidade, que liga as duas asas de quadras residenciais. Embaixo do viaduto funciona a Galeria dos Estados, um centro comercial planejado pelo urbanista Lúcio Costa para ser a Times Square brasiliense. O lugar hoje abriga apenas alguns restaurantes populares e bares que atendem trabalhadores dos setores bancário e de autarquias sul, áreas da cidade onde estão os prédios do Banco Central, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, da Polícia Federal e de tribunais de Justiça.

 

Em meio à aglomeração de pessoas, o Corpo de Bombeiros isolou o local em volta do bloco retangular de 30 metros que desabou. Três cães farejadores foram usados nas buscas de sinais de pessoas que pudessem estar entre as ferragens e o concreto. Os alarmes dos carros atingidos dispararam durante toda a tarde. Um canal de óleo dos carros esmagados, sendo dois totalmente achatados, se formou. 

Enquanto os bombeiros trabalhavam, o pessoal do governo e os especialistas divergiam. O diretor do Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal, Henrique Luduvice, disse que os técnicos do órgão analisavam a possibilidade de instalar reforços na parte do viaduto que permaneceu de pé. 

A presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Distrito Federal (Crea-DF), Fátima Có, afirmou que o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) não deveria “nem pensar” em “escoras” e tratar logo da demolição total da estrutura. "Nós avisamos ao governo em 2011 desse problema", afirmou. Ela ressaltou que prédios comerciais e residenciais da cidade também não passam por fiscalizações. No último domingo, o estacionamento de um bloco residencial na Asa Norte desabou. O incidente também não deixou vítimas.

Ao mesmo tempo que tem pistas, pontes e viadutos condenados por órgãos de engenharia, o Distrito Federal possui um dos Detrans mais ricos do País. No ano passado, o órgão distrital de trânsito registrou uma arrecadação recorde de R$ 433 milhões em multas, taxas e serviços. Pelo Código Brasileiro de Trânsito, esses recursos só podem ser aplicados em folha de pessoal do Detran ou para educação, prevenção e engenharia de trânsito. Uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Conatran), que ainda não virou lei, determina que o dinheiro das multas também pode ser usado em obras de infraestrutura.

Mais conteúdo sobre:
desabamento viaduto Brasília [DF]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.