PCC pagou para testemunha depor

Presidente de ONG em Presidente Prudente foi ouvida por comissão de sindicância da Câmara dos Deputados

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

30 Agosto 2008 | 00h00

Uma testemunha ouvida por uma comissão de sindicância da Câmara dos Deputados em Brasília teve suas despesas de viagem custeadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Trata-se de Maria Aparecida Carbognin, presidente da Associação Filantrópica Rolando Carbognin, de Presidente Prudente, no interior de São Paulo. A organização não-governamental, conforme revelou ontem o Estado, é suspeita de fazer lobby no Congresso para tentar abrandar as regras do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) - o castigo imposto a presos que cometem infrações dentro do sistema prisional. Conhecida como Cida, o nome dela aparece tanto na contabilidade da facção - apreendida em fevereiro com Wagner Roberto Olzon, o Fusca, apontado como o tesoureiro da cúpula do PCC - quanto em manuscritos recolhidos com as advogadas Patrícia Galindo de Godoy e Alessandra Moller - presas no mês passado sob a acusação de chefiarem o "departamento jurídico" da organização. O PCC chegou a contribuir até com o pagamento do aluguel da ONG, conforme lançamento feito no livro-caixa da facção em 20 de janeiro. A decisão de convidar Cida para prestar depoimento em Brasília foi tomada pelo deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), relator da comissão de sindicância que apura um telefonema feito do gabinete do deputado Talmir Rodrigues (PV-SP) para um detento da Penitenciária de Valparaíso, no interior do Estado, em novembro de 2007. "Resolvemos chamá-la apenas porque foi a pessoa que organizou a passeata de parentes de presos em Brasília, em novembro do ano passado, durante os trabalhos da CPI do Sistema Carcerário", esclareceu Itagiba. A presidente da ONG foi ouvida em 23 de abril, às 13 horas, numa sala de reunião reservada aos integrantes da Mesa Diretora da Casa. Além de Itagiba, estavam presentes os deputados Inocêncio Oliveira (PR-PE), corregedor-geral da Câmara, e José Otávio Germano (PP-RS), membro da comissão. Segundo Itagiba, o depoimento dela pouco acrescentou às investigações. "Ela falou sobre a atividade da ONG e negou ter feito o telefonema do gabinete do deputado Talmir", disse. A assessoria da Corregedoria da Câmara informou que todas as pessoas convidadas a prestar esclarecimentos têm suas despesas custeadas pela Casa - tanto o transporte aéreo quanto o período de estada na capital federal. Entretanto, documentos apreendidos com as advogadas do PCC indicam que Cida recebeu um "adiantamento" da facção. Numa das anotações, consta: "Despesas com ONG Sra. Cida. R$ 3.000, pago em 22/04/2008." Abaixo, uma observação: "Débito de R$ 5.637,00 - 3.000, resta R$ 2.637, de despesa com telefone." ESCUTAS Em 20 de abril, interceptações telefônicas feitas por promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) registraram uma conversa entre Marlon José de Souza Rosa, o Melke, preso na Penitenciária de Valparaíso, e uma mulher identificada como Cida - ao que tudo indica, Maria Aparecida Carbognin. No diálogo, ela diz ter sido convidada para ir a Brasília. Ele se dispõe a custear a viagem. No dia seguinte, Melke telefonou para um dos chefes do PCC, o ladrão Orlando Motta Júnior, o Macarrão, preso na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. Os dois presos trataram do pagamento e concluíram que "ela defenderia teses simpáticas à organização". Os promotores também acharam uma planilha, na casa de Alessandra, na qual consta que a facção pagou R$ 2 mil a um "certo Doutor João, ligado a uma ONG, para que ele fosse a uma audiência em Brasília". O Gaeco ainda não obteve a identificação dele. Procurada nos últimos dois dias, Maria Aparecida não foi encontrada.

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