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PCC tentou 'intermediar a paz' entre facções do Rio para 'fortalecer crime'

Denúncia do MP de São Paulo contra 175 integrantes da facção paulista mostra tentativa de conversa com grupos cariocas antes de rompimento

Fabio Serapião, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2017 | 17h18

Uma denúncia do Ministério Público de São Paulo, de 2012, revela as tratativas entre integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) para tentar "intermediar a paz, a fim de fortalecer o crime" entre as facções cariocas Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA). A tentativa foi entre os anos de 2010 e 2011. 

Atualmente, a facção paulista se aliou à ADA e está em disputa com o CV. A guerra entre as facções é apontada como um dos principais motivos para a morte dos 56 detentos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, o Compaj, em Manaus. A Família do Norte, do Amazonas, é aliada ao CV.

Durante a apuração do MP paulista, os investigadores interceptaram uma conversa entre duas lideranças do PCC - Roberto Soriano e Abel Pacheco Andrade. Na conversa, Soriano pergunta se o traficante conversou com "os caras do CV". Pacheco diz que não, mas que mandou outro integrante da facção falar com as lideranças da facção carioca. 

Segundo Soriano, o recado a ser dado é que o PCC não teria "inimizades com vocês(CV), nem com o Terceiro (Comando), nem com o ADA. É guerra de vocês, se vocês quiserem intermediar uma paz estamos aí, porque o crime fortalece o crime, mas estamos com as cadeias de portas abertas pra vocês, a situação de negócios".

Em outra conversa, Soriano fala com Daniel Vinicius Canônico, outra liderança do PCC, sobre a relação entre os criminosos paulistas e cariocas. Segundo o traficante, o PCC nunca foi inimigo da ADA e "tinham uma ligação com o Vermelho (Comando Vermelho)", mas que foi quebrada "em cima da arrogância dos caras". Entretanto, Soriano sugere na conversa que "o intuito de tudo é estarem se unindo, se fortalecendo e um ajudar o outro". 

"Nós também temos 65 favelas aqui (São Paulo), se precisarem passar uma temporada, vai ser bem recebido e a gente está aí não pra dividir o crime e sim para tentar unir e se fortalecer cada vez mais, porque imagina eles (ADA) com um braço em São Paulo, eles (PCC) com um braço no Rio".

Parceria PCC e ADA

Desde 2012, a relação entre o PCC e CV piorou e a facção paulista se aliou à ADA no comando do tráfico na favela da Rocinha. Nas conversas interceptadas na investigação do MP-SP, os promotores já haviam flagrado um diálogo entre as lideranças do PCC e Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, principal liderança da ADA.

No dia 24 de setembro de 2010, em uma conferência por telefone, pelo PCC falam Soriano e Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, com Nem da Rocinha. Após ser chamado por um interlocutor, o traficante carioca entra na conversa: "pode falar, que é eu que estou falando". Soriano conta que até 2005, o PCC manteve uma aliança com o Comando Vermelho e "por causa de uma divergência de ideias aí entres os integrantes daí com os daqui e tiveram que quebrar a corrente."

Por sua vez, Gegê do Mangue pergunta a Nem como está a situação com o CV. Nem fala que não tem problema nenhum com eles e que "de vez em quando fala com eles".  Por fim, os traficante paulistas informam a Nem que irão mandar um "irmão" de confiança para ir até o Rio "trocar umas ideias". Para os investigadores, esse foi o início da relação entre o PCC e ADA que resultou na divisão do comando do tráfico de drogas na favela da Rocinha. 

 

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