Perfil da igreja dificulta o dízimo

Catedral da Sé é só ponto de passagem, mas as confissões, missas do meio-dia e cripta movimentam o templo

O Estadao de S.Paulo

28 Outubro 2007 | 00h00

Os curas Pedro Fenech e Renato Cangianeli não gostam muito de contar todas as histórias da Catedral da Sé, mas o fato é que se trata de uma paróquia no mínimo atípica e é essa diferença que dificulta que os próprios membros da igreja assumam suas despesas com os dízimos. ''''É um local mais de passagem, as pessoas não desenvolvem uma relação próxima como no bairro'''', diz Fenech. ''''É a igreja-mãe, que acolhe todo mundo'''', filosofa Cangianeli. O cura-auxiliar tem motivos para ser mais suave em suas considerações: ordenado há um ano, ele foi batizado na Sé. Aos 41 anos, ele é um exemplo do que a Igreja chama de vocação madura. ''''A catedral é também um centro de referência de vida espiritual'''', diz. ''''Há grupos de oração, primeira comunhão de adultos'''', explica Fenech. Mas a verdade é que a Sé funciona de forma própria. O serviço mais procurado, contam, é a confissão. Chega a ter três confessionários funcionando simultaneamente. É preciso chamar outros padres vizinhos para ajudar. Isso ocorre porque, dependendo do pecado, alguns fiéis preferem confessar para quem não os conhece ou com quem não precisam ver todos os dias, como o padre de suas paróquias. Acontece também porque muitos têm o horário do almoço para pôr em dia as práticas religiosas. Por isso, na Sé, a missa de maior freqüência é a do meio-dia e não as da manhã. Após o restauro, a catedral ganhou seguranças particulares. No passado, além de escura, a igreja-mãe era um tanto madrasta nesse quesito. Fiéis eram assaltados até dentro do templo. Os curas acreditam que mais dois profissionais melhorariam a situação, que nem de longe se parece com a do passado. Apesar de toda a riqueza histórica guardada na Sé, nada é roubado. Somente energia. Para evitar que ladrões de celular e até fiéis colocassem seus aparelhos para carregar nas tomadas da igreja, todas foram providencialmente fechadas. MUSEU Como projeto a longo prazo, os curas querem patrocínio dos padrinhos para montar na Sé um pequeno museu com a história da própria catedral. Entre as peças, há paramentos antigos, de ex-bispos, um presépio e uma mesa do cabido que datam de 1700, fotografias, documentos, quadros. ''''Seria possível montar uma exposição nova a cada seis meses'''', conta Pedro Fenech. Atualmente, a catedral oferece visita monitorada. Segundo o cura, entre 150 a 200 pessoas visitam a igreja diariamente. A cripta de 619 metros quadrados, que fica embaixo do altar da igreja, é o local mais procurado. De mármore preto e branco e com um altar de mármore com ornamentos em bronze, a cripta tem 17 bispos enterrados, além do senador Feijó e do cacique Tibiriçá. A catedral neogótica que se conhece hoje foi construída entre 1912 e 1954, projetada pelo ex-professor da Escola Politécnica da USP Maximiliano Hehl, sobre a antiga igreja, datada de 1745. Narra a história que o local do templo foi escolhido pelo cacique Tibiriçá, e a primeira edificação foi erguida em 1555. A construção da Sé atual foi concluída somente após o restauro, de 1999 a 2002. Torres e torreões nunca haviam sido construídos até então. ''''A bem da verdade, igrejas desse tamanho e complexidade nunca são concluídas'''', diz o cura Fenech, explicando que cura é o pároco das catedrais, já que o pároco mesmo, nesse caso, é o arcebispo, d. Odilo Scherer.

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