Paulo Vitor/AE
Paulo Vitor/AE

'Pode ser político, mas não é eleitoral'

Gabrielli justifica suas manifestações na campanha dizendo que a Petrobrás 'tem de se posicionar'

Irany Tereza, Nicola Pamplona, Kelly Lima / RIO, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2010 | 00h00

ENTREVISTA

José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás

Após cumprir um período de silêncio de mais de 90 dias - imposição de órgãos fiscalizadores do mercado de capitais a executivos envolvidos em operações financeiras -, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, entrou em fase loquaz. O encerramento da capitalização foi antecipado em quase mês e marcou também, em 1.º de outubro, o fim do "quiet period".

Nas duas semanas seguintes, Gabrielli despontou como mais um personagem do segundo turno da campanha presidencial. Sentou na primeira fila em debate dos candidatos na TV e depois, de bate-pronto, fez críticas ao ex-diretor geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP) David Zylbersztajn, que havia rebatido declarações de Dilma Rousseff (PT). A candidata falara sobre uma suposta intenção tucana de privatizar a estatal.

O executivo considera natural sua entrada no jogo, que classifica como "político, não eleitoral".

Na quarta-feira, Gabrielli recebeu a equipe do Estado em seu gabinete, na sede da Petrobrás. No dia seguinte, receberia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para mais uma cerimônia da estatal, no Rio Grande do Sul. Na semana que vem, Lula prestigia outra solenidade, desta vez na plataforma Cidade de Angra dos Reis, na Bacia de Santos, no início da produção-piloto da área de Tupi.

Ainda não será a transformação da área em campo petrolífero, o que ocorrerá em dezembro. Ele desvincula de motivação eleitoral o fato de o acionamento da plataforma acontecer a dois ou três dias da votação presidencial. "Anunciamos um ano atrás, antes da eleição, que iniciaríamos o piloto de Tupi entre outubro e novembro."

O sr. não acha que teria sido mais prudente marcar a inauguração do piloto de Tupi para depois da eleição?

O FPSO (navio plataforma) está na locação desde 22 de setembro. Ele nos custa US$ 370 mil por dia. No momento em que começar a produzir, começa a se pagar. Quanto mais atrasar, mais custo nós temos. Estão sugerindo que eu altere o cronograma por razões eleitorais? Está sugerindo uma decisão eleitoral? Nós anunciamos um ano atrás, antes da eleição, que iniciaríamos o piloto de Tupi entre outubro e novembro. Nos cobram cumprimento de prazo, nos cobram produção. E agora, quando conseguimos cumprir prazo e vamos aumentar a produção, vocês nos cobram que isso é uma atitude eleitoreira?

O sr. acha natural que a Petrobrás acabe sendo instrumento de campanha?

Para o País, para a discussão do futuro do País - e a eleição é uma discussão sobre o futuro do País - não há como não se posicionar sobre a Petrobrás e sobre petróleo. O Brasil tem o maior volume de petróleo descoberto nos últimos tempos e a maior perspectiva de acrescentar nova produção nos próximos anos. Tem um projeto de lei em discussão no Congresso que envolve uma decisão do marco regulatório para fazer isso. Tem a possibilidade de capturar para o País, e não para as empresas, parte significativa da renda futura com o petróleo. Tem a possibilidade alocar isso para fazer mudanças estruturais a longo prazo. Como é que o processo eleitoral passa ao largo desta discussão? Não pode.

Mas isso é papel dos candidatos e não da empresa.

Como é que a empresa não vai se posicionar? Ela tem que se posicionar. E não é eleitoral isso. Pode ser político, mas não é eleitoral. Como é que esta empresa, que vai ser operadora única do pré-sal, pode ser enfraquecida, pode ser esquartejada? Esta empresa tem que ser fortalecida, porque senão ela não cumpre a função que o Estado está delegando pra ela. Isso não é eleitoral. Quem chamou de eleitoreiro foram os editores de jornais. Não tenho culpa se eles pensam assim e acho legítimo que eles pensem assim. Ao contrário, ao invés de responder ao ex-presidente FHC, que disse que não sabia quem eu era, e não tem nem que saber porque não acompanha o petróleo, ele disse depois que era uma discussão eleitoreira. Eu queria que ele discutisse o mérito das minhas afirmações. Queria saber se ele discorda ou se ele desmente o que eu disse. Não é só uma questão de acusar ou não acusar se é ou não eleitoreiro.

Dependendo do resultado da eleição, o sistema de partilha de royalties pode ser abandonado?

Depende do Congresso. Não posso falar em nome do Congresso. Nosso plano estratégico é baseado no que nós temos no nosso portfólio. O que temos no portfólio são as áreas de concessão e a cessão onerosa. Estamos terminando a análise da cessão onerosa para incorporá-la ao nosso plano estratégico. A partilha, se sair, estaremos preparados para trabalhar.

O sr. continua na Petrobrás em caso da vitória de Dilma?

Isso não depende de mim, depende do Conselho da Petrobrás. Se for convidado, ficarei. Não tem problema.

É sua vontade?

Eu sou demissível "ad nutum". Não sei o que o novo presidente, ou a nova presidente vai fazer... Queria lembrar que o Estadão foi o autor da ideia de que a Petrobrás entrou na campanha eleitoral.

Na verdade, o autor foi o sr., quando divulgou nota comentando a polêmica em torno da privatização.

Eu comentei o David (Zylbersztajn), não as eleições... Não falei das eleições. Uma empresa que é hoje a âncora de uma cadeia que representa mais de 10% do PIB, uma empresa que representa mais de 7% das exportações brasileiras, que representa 12% da arrecadação federal, e mais de 20% da arrecadação de alguns Estados. Por que e como esta empresa estar fora deste processo eleitoral? E tem mais: ser atacada e não se defender? Cassius Clay tinha uma técnica muito interessante. Ele era um lutador de boxe peso pesado, mas ele era levíssimo, saltitava no ringue. Ele apanhava muito na maior parte dos rounds, se defendia muito apanhando. Até que ele reagia, dava um ataque e derrubava o adversário. A Petrobrás não pode ser tão forte assim, ela apanha, mas tem que reagir. Ela não tem a leveza de Cassius Clay, ela é mais Maguila que Cassius Clay.

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