Polêmica só encobre fase difícil do MinC

Ana de Hollanda iniciou sua trajetória no Ministério da Cultura colecionando más notícias. A maior delas, esta semana, foi o anúncio de um corte orçamentário que chega a R$ 760 milhões (R$ 526 milhões no orçamento direto e R$ 237 milhões em emendas parlamentares). Gilberto Gil e Juca Ferreira, seus antecessores no cargo, enfrentaram problemas de dimensões parecidas, mas amortizaram seus efeitos em longas negociações pelos corredores palacianos. Ana de Hollanda, no então, encastelou-se no MinC. Sem o perfil político dos antecessores, não tem trânsito no Congresso nem nos ministérios que influem mais diretamente na liberação de recursos.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

03 Março 2011 | 00h00

A eclosão do caso Emir Sader encobre um problema maior e de mais difícil resolução: Ana enfrenta resistências dentro do PT e seus aliados na área cultural, o PC do B e o PV. Ao definir a questão da propriedade intelectual como uma discussão de fundo privado, desagradou de A a Z dentro do espectro da economia criativa. Dos moderados , como o antropólogo Hermano Vianna e o professor e músico José Miguel Wisnik, aos radicais, como o sociólogo Sergio Amadeu e o professor Ronaldo Lemos, da FGV, todos acham que falta estofo teórico ao MinC para conduzir a questão.

Ana ainda perde gradativamente os aliados da área cultural no Congresso. De Manuela D`Ávila (PC do B) a Angelo Vanhoni (PT), passando por gente da oposição, todos tem dado demonstração de ceticismo quanto às capacidades da ministra em contornar situações difíceis.

A ministra ainda não fez nenhuma reunião com a classe artística e se conduz dentro de uma rotina de gabinete, fugindo eventual para fazer "incertas" entre a população, como no recente caso das enchentes. Até agora, nem um artigo seu saiu em jornais, defendendo suas posições, e sua única entrevista foi vaga.

Mesmo seus colaboradores mais próximos não vêm a público fazer sua defesa. A ministra agarra-se a aliados cuja militância cultural é esporádica, como Caetano Veloso, ou cuja atuação parece próxima do lobbismo. Chegou a postar no site do MinC, na semana passada, trecho de artigo em que um articulista chamava o Creative Commons, com quem Ana duela na questão dos direitos autorais, de "organização laranja".

No episódio Sader, exigiu que ele se retratasse com Caetano, a quem o sociólogo acusou de conservador e egoísta. Sader negou, o que parece ter levado ao desligamento. Acabou sendo o diretor que não chegou a assumir.

Restrição

R$ 760 milhões

é o corte determinado pelo governo ao Ministério da Cultura

R$ 526 milhões

são recursos que sairiam do orçamento federal

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