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Polícia conclui que o pai do menino Bernardo foi o mentor do crime

Elder Ogliari - O Estado de S. Paulo

13 Maio 2014 | 20h 34

Médico teria fornecido receita para compra de medicamento que matou a criança; ele, a madrasta e uma amiga foram indiciados

Atualizada às 23h23   PORTO ALEGRE - A Polícia Civil indiciou o pai do menino Bernardo Boldrini, o médico Leandro Boldrini, de 38 anos, a madrasta, Graciele Ugulini, de 32, e a assistente social Edelvânia Wirganoviz, de 31, por homicídio qualificado e ocultação de cadáver no inquérito que investiga o assassinato da criança, encerrado e remetido à Justiça nesta terça-feira, 13. Para a polícia, Boldrini é apontado como o mentor do crime, pois teria emitido a receita do calmante que matou o menino e ainda agido para encobrir o crime.

O médico foi inocentado nos depoimentos da madrasta e da assistente social.  Na noite desta terça-feira,  o juiz Marcos Luís Agostini, da Comarca de Três Passos, decretou a prisão preventiva dos três indiciados, que estavam presos temporariamente desde 14 de abril e teriam de ser soltos à meia-noite. Na nova condição, eles seguirão encarcerados por tempo indeterminado.

Bernardo, que tinha 11 anos, desapareceu de casa, em Três Passos, no dia 4 de abril. O corpo foi encontrado dez dias depois, em Frederico Westphalen, a 80 quilômetros da residência da família. A investigação apurou que Graciele viajou com o menino, com a promessa de que compraria um aquário que ele queria. Câmeras de segurança de um posto de combustível mostraram madrasta e enteado descendo de uma caminhonete e embarcando em um carro, junto com Edelvânia. A enfermeira e a assistente social voltaram sozinhas depois.

Com base nas imagens, os policiais chegaram ao corpo e a outras provas, como uma pá e uma cavadeira usadas na abertura da cova, em um matagal, comprovantes da compra dos utensílios e também do medicamento midazolam em uma farmácia, com receita emitida por Leandro Boldrini para Edelvânia.

Segundo o inquérito, o crime foi cometido por motivo fútil - o incômodo do casal com a presença do menino -; por meio insidioso, o convencimento à ingestão de medicamentos; com uso de dissimulação que impossibilitou a defesa da vítima, o convite para uma viagem ao município vizinho para comprar um aquário; e, ainda, mediante pagamento e recebimento de dinheiro - a assistente social admitiu que recebeu R$ 6 mil para participar do plano.

Em depoimento, Graciele admitiu que o garoto morreu em suas mãos, por ingestão "acidental" de excesso de calmantes, Edelvânia admitiu ter ajudado a ocultar o cadáver, e Boldrini afirmou que é inocente. A polícia entendeu que pai e madrasta foram "mentores" e executores do plano para se livrar da criança, ocultar o cadáver e sustentar a história do desaparecimento, enquanto Edelvânia concordou com a trama e participou de todas as etapas posteriores à elaboração.

O Ministério Público tem cinco dias para analisar o inquérito e oferecer denúncia contra parte ou todos os acusados, pedir novas diligências ou arquivar o caso - opção improvável.

Descaso. A delegada Simone Bamberg Machado relatou, em entrevista coletiva, passagens de descaso do pai em relação ao filho, contradições entre seus depoimentos e documentos obtidos pela polícia, confirmou a emissão de receita de midazolam para Edelvânia e relatou suposto acordo entre advogados para inocentar o médico.

No domingo, 6 de abril, dois dias depois do desaparecimento, quando foi procurar o filho nas casas dos vizinhos, Boldrini teria dito que não tinha como achar o menino porque ele não havia levado o telefone. "No depoimento, ele disse que havia ligado na sexta, no sábado e no domingo", destacou a delegada. "Por que fez as ligações se não para montar a história dele?", questionou.

A polícia também acredita que os advogados dos três indiciados montaram uma estratégia de defesa em conjunto para tentar inocentar o médico. "Há conversas entre familiares de Boldrini e Graciele afirmando que os advogados estavam arquitetando estratégia de defesa para que a madrasta e a amiga assumissem o crime, inocentando Boldrini. Dessa forma, ele iria bancá-las financeiramente", revelou a delegada, referindo-se a escutas feitas com autorização da Justiça.

O advogado de Boldrini, Jáder Marques, considerou a argumentação da polícia "frágil" e sem comprovação de participação do cliente no crime. Os advogados de Graciele e de Edelvânia não foram localizados pela reportagem.

Irmão. A delegada ainda revelou que a investigação da participação do motorista Evandro Wirganovicz, irmão de Edelvânia, no crime vai prosseguir à parte do inquérito remetido à Justiça nesta terça.

Ele foi preso temporariamente no sábado, como suspeito de ter ajudado a abrir a cova para enterrar a criança. "Temos de trabalhar ainda para identificar qual foi a participação efetiva dele", justificou a delegada.

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