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Polícia e Exército montam cerco no Morro do Alemão

O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2010 | 10h 07

Ao lado do governador Sérgio Cabral e de Nelson Jobim, general afirmou que 800 atuam na operação; ontem, ocupação na Vila Cruzeiro mobilizou 510 policiais militares e civis

 

RIO - Durante entrevista coletiva nesta sexta-feira, 26, o General Fernando Sardenberg, da Brigada de Infantaria Paraquedista, afirmou que o Exército posicionou cerca de 800 homens para cercar o Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, no Rio. Também participaram da coletiva o governador do Estado, Sérgio Cabral e o ministro da Defesa, Nelson Jobim.

 

"O deslocamento começou por volta das 13h, e um trecho já foi ocupado. A tropa vai controlar o acesso e saída do local", explicou o responsável pelo Comando Militar do Leste (CML), general Adriano Pereira Junior, ressaltando que o trabalho do Exército é diferente das forças de segurança do Estado. "Nossa missão é de fazer a segurança de perímetro".

 

No início desta tarde, o subsecretário de planejamento e integração operacional do Rio, Roberto Sá, afirmou que o foco da ação ainda é a Vila Cruzeiro, mas não está descartada uma entrada no Alemão, caso a inteligência das forças policiais detectarem informações que indiquem a necessidade de agir antes.

 

Sá já tinha adiantado que os 800 homens do Exército atuariam no cerco ao Complexo com o apoio das polícias militar e civil, a fim de evitar que os criminosos fujam. "É apenas uma questão de estratégia entrar no Alemão", disse. "Não há lugar em que nossa polícia não entre, desde que tenhamos recursos logísticos para ultrapassar alguns obstáculos que os nossos recursos até então não permitiam", acrescentou.

 

Segundo Sá, nove suspeitos presos recentemente serão transferidos para presídios de outros Estados. Ele afirmou que a transferência foi acertada entre o sistema penitenciário federal e a justiça estadual. O subsecretário não especificou para quais unidades da federação os presos serão levados. "Nossa prioridade nesse momento é fazer com que saiam do Rio de Janeiro", afirmou.

 

Tiroteio. Um policial militar do 16º batalhão (Olaria) ficou ferido na cabeça durante uma troca de tiros entre agentes federais, PMs e traficantes na entrada da favela da Grota, no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. Os criminosos se encontram se encontram em uma casamata na entrada da favela, a menos de 100 metros de onde estão posicionados os policiais.

 

Penha. A Polícia Civil também troca tiros com traficantes no Complexo da Penha, na zona norte. Dois helicópteros sobrevoam o complexo e dão rajadas de metralhadora. Os tiros aparentemente partem da favela da Chatuba, onde hoje pela manhã estiveram diversas equipes da Polícia Civil, em carros.

 

Vila Cruzeiro. Dez policiais do Bope junto com outros dez policiais militares fizeram na manhã de hoje uma varredura na parte baixa da região, onde as marcas da operação de ontem ainda são visíveis. A polícia está fazendo buscas em residências e também revista transeuntes. Na estrada José Lucas estão as carcaças de três caminhões incendiados.

 

Em consequência dos ataques, fios de energia elétrica foram queimados, deixando sem luz toda a região e prejudicando os comerciantes que ainda assim resolveram abrir suas portas.

 

Na Rua Jaques Maritaim, antiga Rua 14, há pelo menos 30 motos abandonadas, que foram apreendidas pela polícia. Na Rua 13, onde os traficantes se abrigavam em seu bunker, há restos de comida, abandonados provavelmente no momento do tiroteio. A polícia encontrou ainda no local "jacarés", que são canos com pedaços pontiagudos de ferro, usados para impedir a aproximação de carros.

 

"O que acontece é que há uma rota de fuga difícil de alcançar", explicou o subchefe operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, referindo-se às imagens do helicóptero da TV Globo que mostraram ao vivo a fuga em massa da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão pela Serra da Misericórdia. As imagens repercutiram na internet e motivaram críticas no Twitter - usado pelo governo para rebater boatos.

 

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Exército. Depois de cinco dias de confrontos no Rio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou 800 homens do Exército para a cidade, além de mobilizar Aeronáutica e Polícia Federal. Ontem, em operação policial sem precedentes, já com apoio de blindados da Marinha, a polícia ocupou a Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha (zona norte do Rio), após 40 horas de intenso tiroteio.

 

"Não é humanamente possível que 99% das pessoas sejam molestadas por gente que está na marginalidade. Portanto, o Rio pode ficar 100% tranquilo que o governo dará ajuda", disse Lula em Georgetown, capital da Guiana. Segundo ele, um pedido formal de auxílio para uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi feito anteontem pelo governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

 

O Exército vai garantir a proteção dos perímetros das áreas ocupadas por policiais. Já a Aeronáutica vai enviar dois helicópteros. Ainda serão mandados mais dez blindados das Forças Armadas, além de equipamentos de comunicação e óculos de visão noturna. Pela primeira vez na história, homens da Polícia Federal, pelo menos 300, atuarão no Estado já a partir de hoje.

 

Pelo menos 35 pessoas já morreram no Rio desde domingo. O número não inclui os mortos de ontem na Vila Cruzeiro, quartel-general do Comando Vermelho - o total não foi revelado pelo governo. Ontem, os ataques continuaram e se espalharam pela cidade, atingindo até o Túnel Rebouças, que liga as zonas norte e sul. Nos cinco dias, pelo menos 61 veículos já foram incendiados.

 

Queixas. O apoio do Exército veio após queixas durante do secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Ele agradeceu à Marinha por ceder os equipamentos, mas fez uma crítica velada ao Exército. "Não ofereceram nada." Horas depois, os Ministérios da Defesa e da Justiça anunciaram o reforço de Exército e Polícia Federal.

 

(Marcelo Auler, Pedro Dantas, Márcia Vieira, Gabriela Moreira, Bruno Boghossian, Talita Figueiredo, Roberta Pennafort, Glauber Gonçalves, Alfredo Junqueira e Clarissa Thomé)

 

Texto atualizado às 15h38.

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