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Pontífice é frisson entre os compatriotas argentinos

Ariel Palacios - Correspondente

12 Março 2014 | 20h 54

Papa, que era eleito há um ano, causou uma reviravolta em diversos âmbitos da sociedade

BUENOS AIRES - Na capital argentina, os portenhos falam com orgulho sobre Jorge Bergoglio, o austero cardeal da cidade que há um ano transformou-se em papa: "Francisco é argentino como o doce de leite!". O pontífice, que completa um ano de sua eleição, gerou uma reviravolta em diversos âmbitos em sua terra natal, a Argentina. "Com todo o respeito que sua investidura merece, poderíamos dizer que Bergoglio passou de 'tocar no metrô' a ser estrela do melhor teatro do planeta", afirma um de seus biógrafos, o publicitário filósofo Omar Bello, autor de O verdadeiro Francisco, em alusão à presença constante do então cardeal no metrô portenho, seu meio de transporte preferido.

Antes da entronização de Francisco, a Igreja Católica argentina estava no momento mais baixo de sua História no país, com os templos quase vazios. Mas, desde março do ano passado, vive um renascimento, com aumento do fluxo de fiéis que haviam afastado-se nos anos prévios. Além deles, até os formadores de opinião ateus - críticos de pontífices anteriores - admitem seu fascínio pelo papa que está reformando a Igreja. Dessa forma, em vários círculos intelectuais tornou-se comum a frase "não sou católico...mas sou bergoglista".

A colunista política Ana Gerschenson sustenta que "tal como Lionel Messi, Maradona ou o Che Guevara, o papa Francisco transformou-se em uma marca argentina em todo o planeta". No âmbito político, a entronização de Bergoglio implicou em uma guinada no governo da presidente Cristina Kirchner, cujos integrantes o haviam definido em anos anteriores como "líder da oposição" por suas críticas ao casal Kirchner. O governo e seus aliados, que também haviam acusado Bergoglio de ter sido cúmplice da ditadura militar (1976-83), agora o definem como "um papa progressista". Os peronistas até afirmam que Francisco é "peronista".

Sindicalistas, deputados e empresários argentinos viajam a Roma com frequência para ver o papa. Aparecer - ou não - ao lado do pontífice tornou-se um termômetro para verificar a importância política dos personagens do poder no país. A eleição de Francisco também levou setores do kirchnerismo a engavetar o projeto de lei para descriminalizar o aborto. "Por enquanto será impossível", admitiu o senador Aníbal Fernández.

Casamento gay. A comunidade homossexual argentina, que considerava Bergoglio um inimigo desde que havia se oposto à aprovação de lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010, agora está dividida sobre o pontífice. Algumas organizações consideram que o papa está abrindo uma "brecha" para a comunidade, enquanto que outras afirmam que o pontífice continua sendo um "conservador".

O jornalista e psicólogo Diego Sehinkman sustenta que a frase pronunciada pelo papa ao partir do Brasil em julho passado, "quem sou eu para julgar os gays?", foi "o ato de psicoprofilaxia mais transcendental da História. Se bem o papa não disse que apoiava o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ele estava dizendo que a Igreja deixava de condenar essa condição".