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Por ‘rolezinhos’, Rio tem churrasco e funk na rua

Marcelo Gomes e Thaise Constancio, de O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2014 | 22h 17

Manifestantes protestaram contra shoppings que não abriram as portas para evitar aglomerações; não houve registro de confrontos

RIO - Manifestantes que protestavam contra as restrições aos "rolezinhos", passeios em massa de jovens da periferia em centros de compras em São Paulo, levaram o Shopping Leblon e o vizinho Rio Design Center, no Leblon, na zona sul do Rio, a não abrir suas portas no domingo.

Cerca de 50 ativistas, impedidos de entrar no local, promoveram um baile funk com churrasco na rua. A Polícia Militar reforçou o patrulhamento, mas não aconteceram confrontos nem prisões. O único incidente registrado envolveu um repórter da Globo News, hostilizado por ativistas. O profissional saiu escoltado.

O Shopping Leblon anunciou que não abriria domingo na noite de sábado, depois que a Justiça concedeu o direito de manifestação no local ao grupo de advogados Habeas Corpus. A decisão, na prática, anulava a liminar obtida anteriormente pelo centro de compras para impedir o protesto.

O shopping justificou o fechamento pela necessidade de "garantir a integridade de seus clientes, lojistas e colaboradores". Temendo transformar-se em novo alvo, o Rio Design também não abriu domingo. Uma das suas entradas foi coberta com tapumes. Um aviso na porta anunciava que as atividades serão retomadas hoje. "Acabou o último lugar onde a gente tinha sossego", disse uma mulher que não quis se identificar, após ler o aviso.

Ao som das músicas tocadas em alto volume, ativistas dançavam e gritavam palavras contra a realização da Copa do Mundo no Brasil e contra o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB). Alguns comiam linguiças assadas em uma churrasqueira improvisada na calçada. Às 20h20, o grupo encerrou a manifestação e foi para a praia. Uma parte acabou no show em homenagem a Cazuza na orla.

Mais de 9 mil pessoas haviam confirmado presença pelo Facebook no protesto. Sábado, aos gritos de "não vai ter Copa!", 50 pessoas promoveram um protesto "contra o racismo" no Shopping Plaza Niterói, em Niterói, cidade da Região Metropolitana do Rio. Lojistas baixaram as portas. Apesar de alguns momentos de tensão, não houve incidentes graves.

Participantes. A aposentada Sandra Carneiro aderiu ao movimento pelo Facebook e afirmou que uma das orientações era de que o grupo não entrasse no shopping se ele abrisse. "Ficaríamos do lado de fora, fazendo nossa festa. Queríamos chocar quem viesse ao shopping", contou.

Ela disse que trabalhou a vida inteira no comércio e reconheceu que os vendedores, cuja remuneração, em maior parte, vem de comissões sobre as vendas, foram os mais atingidos pelo fechamento do centro comercial. "Domingo é o dia de maior movimento e de maior faturamento. Os vendedores foram prejudicados", afirmou.

Integrante da Assembleia Nacional de Estudantes Livres (Anel), o estudante de Letras Gabriel de Mello, 23, aderiu ao à manifestação como uma forma de protesto contra o racismo e a falta de espaços de lazer na periferia carioca. De pele clara, ele morava em Vila Valqueire, zona norte, e se mudou com os pais para Copacabana há três anos, mas continua se sentindo "um cara do Valqueire". "Porque tenho amigos lá, mas não tem opção de lazer", diz. "Copacabana tem mais teatros do que os bairros ao redor de Valqueire juntos", afirmou.

"O Rio não tem ‘rolezinho’. Para mim, esse movimento é um apoio a São Paulo", opinou a advogada Berenice de Aguiar Silva, membro da Comissão Interracial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RJ). Moradora de Copacabana, ela aderiu ao movimento justamente porque o shopping resolveu fechar as portas.

A artesã Luena Mello, 47 anos, levou o filho Kalleb Mello, 11. Integrante do movimento negro, ela disse que o filho "é tão militante quanto eu". Moradores da Lapa, no centro, eles costumam frequentar shoppings da zona sul. "Já cheguei a ser seguida por seguranças. Lutamos contra as desigualdades que ainda existem nesse País."

Polícia. Dezenas de PMs e guardas municipais acompanhavam o protesto sem interferir, até o início da noite. A segurança também foi reforçada na Rua Aristides Espínola, onde fica a residência do governador Sérgio Cabral./ COLABOROU FELIPE WERNECK

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