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Portela pinta de azul a passarela faz desfile de candidata ao título de campeã

Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo

04 Março 2014 | 04h 26

Enredo da escola de Madureira foi a Avenida Rio Branco, via mais representativa do centro do Rio

RIO - Como no samba-exaltação de Paulinho da Viola, a Portela pintou de azul a Passarela do Samba. Encantou o público e fez um desfile de candidata ao título deste carnaval - foi saudada assim ao fim da apresentação por parte das arquibancadas. O enredo da escola de Madureira era a Avenida Rio Branco, a via mais representativa do centro do Rio, seu entorno e as transformações por que a região passou do século 16 ao 21.

A passagem da Azul-e-branca mexeu com a Sapucaí desde o comecinho, quando alçou voo um drone em forma de águia (símbolo da Portela) comandado por controle remoto. A tecnologia é da Marinha e vinha sendo testada havia três meses secretamente, segundo o carnavalesco Alexandre Louzada.

Outra novidade foi a escultura de 18 metros de altura que simbolizava o "gigante adormecido que acordou", uma alusão às manifestações de rua iniciadas em junho do ano passado. Ele ora se abaixava, tomando o formato de uma rocha, ora se levantava, uma referência ao levante popular em busca de melhores condições de vida. A Sapucaí ficou atônita e aplaudiu muito. Segundo Louzada, é a maior escultura que passou na avenida em 30 anos de Sambódromo.

De asas abertas, as 22 águias do abre-alas - simbolizando os 21 títulos conquistados em nove décadas de história, e a vitória almejada esse ano - chamaram atenção pela beleza plástica. A maior delas, de 14 metros de envergadura, grunhiu alto, convocando o público. As águias sobrevoavam um "mar" de 43 metros de extensão.

A partida do desfile era na região portuária, onde desembarcavam escravos africanos que serviam à colônia, e a chegada era a Glória, entrada da rica zona sul da cidade. Nas águas da Portela navegaram pobres, nobres, trabalhadores, poetas, intelectuais, foliões, artistas, escravos, índios e europeus, cuja marca ficou impressa em prédios como o Teatro Municipal, ícone da chamada Belle Époque tropical, e no Palácio Monroe, antiga sede do Legislativo, demolido em 1976.

O bota-abaixo do início do século 19, prefácio das reformas urbanísticas que deram a cara que a Rio Branco tem até hoje, os programas de auditório da Rádio Nacional, no comecinho da via, a boemia e os cinemas da Cinelândia, no seus metros finais, os carnavais, dos ranchos e cordões até os megablocos que alegram centenas de milhares de foliões foram retratados.

Sem patrocínio. Apesar de o prefeito do Rio, Eduardo Paes, declarar-se portelense, e de o tema ser carioca e atual (a Rio Branco passa no momento por mais transformações, a escola afirma que não teve patrocínio do município, segundo Louzada. "Invocamos (o compositor) Candeia e todas as raízes negras da Portela, como um pedido de axé para essa nova fase, que é de renascimento", explicou o carnavalesco.

O momento é de otimismo na escola, que vem de uma década afundada em dívidas (num total de quase R$ 7 milhões, com fornecedores e órgãos públicos e trabalhistas) e sob uma gestão tida como fraudulenta. O novo presidente, Sergio Procópio, é compositor e tem o apoio dos portelense históricos. "Estamos num recomeço. Quando a escola se volta para si mesma, constrói algo com mais verdade", disse Paulinho da Viola. "Antes não tinha amor (pela Portela), e sem amor nada vai pra frente. A Portela se encontrou", garantiu Monarco, um dos maiores ícones da escola.