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Povoado vizinho de Pedrinhas reflete pobreza e violência do Maranhão

Artur Rodrigues, Enviado especial/ São Luís - O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2014 | 02h 03

Localidade fundada por parentes de presos há 20 anos sofre com falta de saneamento básico e médicos e com a alta criminalidade

Há 20 anos, uma pequena vila surgiu no entorno do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, zona rural de São Luís, fundada por parentes de presos. O povoado cresceu e hoje, apesar da declaração da governadora Roseana Sarney (PMDB) de que o Maranhão está mais violento porque ficou mais rico, a realidade ali é só de pobreza e violência. A comunidade sintetiza indicadores sociais e econômicos que põem o Estado nas piores posições em relação ao País.

Com o tempo, a área passou a ser ocupada por desempregados, que não conseguiam morar em outro lugar. Com o clima tenso das rebeliões e da crise de segurança no Maranhão, aqueles que têm parentes detentos preferem não falar e quem fala relata a ausência do Estado.

"O governo não faz nada pela gente aqui", diz a dona de casa Lucicleide Meireles Trindade, de 31 anos, que da janela de casa vê as violentas rebeliões no complexo que ficou mundialmente conhecido pelo cotidiano sangrento. "Às vezes, o pessoal foge daí e vem parar aqui, com a polícia atrás dando tiro. Eu me escondo aqui dentro."

O medo de Lucicleide é justificado pelas estatísticas. Nos últimos 13 anos, os assassinatos cresceram 460% no Estado. Além da violência, a renda per capita média continua a pior do Brasil - R$ 360,43, diz o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

A dona de casa atualmente está desempregada, o que ajuda a derrubar os índices de renda. Sem conseguir o benefício do Bolsa Família, ela vive com três filhos do dinheiro enviado pelo marido, que trabalha como mecânico em Minas. Lucicleide conta que ao lado de casa há um posto de saúde quase sempre sem médicos e os filhos estudam em uma escola onde os professores faltam com frequência, sem repor as aulas.

O Maranhão tem o maior número de miseráveis em relação à população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 6,5 milhões de habitantes, 1,7 milhão está abaixo da linha da miséria - vive com até R$ 70 por mês.

A falta de saneamento também simboliza a pobreza do Estado e de Pedrinhas. A doméstica Neide Estelma, de 36 anos, conta que falta o básico. "Não bastam os presos que vivem fugindo, o esgoto da prisão vaza todo para cá", conta. Diante das dificuldades, o maranhense vive menos - o IBGE atesta que a expectativa de vida é a pior do País, com 68,7 anos em média.

"As políticas públicas do governo estadual são pífias. A corrupção se torna estrutural", afirma o historiador Wagner Cabral, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). "O Estado tem uma população fragilizada, que vai ser enganada e se transformar em trabalhador escravo ou precário", diz.

Poder. De acordo com Cabral, a família Sarney usa o governo federal como tábua de salvação em razão do Bolsa Família. Durante a crise da segurança, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, veio tentar apagar o fogo dos aliados. A sensação, porém, é de que a situação de crise poderia ter sido evitada.

Para o ex-secretário de Administração Penitenciária Sérgio Tamer, havia sinais de que "algo estava errado" em Pedrinhas. Segundo ele, houve uma "repentina elevação" na superlotação carcerária quando seu sucessor, Sebastião Uchôa, assumiu, o que acabou com a estabilidade do sistema.

O presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, Zema Ribeiro, afirma que a crise abalou fortemente Roseana. "O problema saiu dos muros da penitenciária. Agora tem incêndio de ônibus, criança morrendo queimada, atrocidades que estão deixando os muros", afirma. "Há uma comoção maior por parte da sociedade e isso tem colaborado com a onda de pânico." / COLABORARAM ERNESTO BATISTA, ESPECIAL PARA O ESTADO, e FABIO LEITE