Programas parecem ter sido produzidos pelo mesmo canal

Cenários, figurinos, perfil do elenco e figurantes escalados para estampar os novos programas de Dilma e Serra no horário eleitoral são tão similares, que ambos parecem ter sido produzidos pelo mesmo canal. Lá estão os vencedores do primeiro turno, a dar seu recado, um a um, ao candidato apoiado. Lá estão os populares, vistos em programas sociais, caso de Dilma, ou durante a votação, caso de Serra, prontos para endossar suas escolhas diante das câmeras. Lá estão os videoclipes milimetricamente coreografados, com todo mundo a sorrir, tão feliz, que na edição dedicada a Serra tem até cantoria na sala de cirurgia.

Análise: Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2010 | 00h00

Mazela, nenhuma. É preciso exaltar o tom positivo que norteia o "vote em mim".

Olho no olho da câmera, tailleur vermelho de um lado e camisa azul com gravata vermelha de outro, o figurino dos protagonistas em estúdio valoriza a identidade criada por eles até aqui, um acerto. Não é hora de trocar de roupa. É hora de ler os mandamentos do teleprompter. Dilma, com iluminação mais sutil ao fundo, e Serra aparecem ali como se estivessem na sala de estar de casa. A mobília, até para destacar o protagonista de cada cena, surge ligeiramente desfocada, mas cumpre-se o propósito de exibir intimidade com o eleitor e convidá-lo a entrar.

A campanha de Dilma não arreda pé da ideia de contar com atores capazes de endossar seu recado. Tem a mocinha negra para uma frase e a branca, de olhos azuis, para completar o jogral. A edição da candidata recorre, com efeito didático, a animações gráficas, seja para enumerar os aliados eleitos no Congresso e no Senado, seja para ilustrar suas promessas.

No enunciado de Serra, a presença de terceiros anônimos se fez notar de modo ainda mais anônimo, e prevaleceu aquela locução em off, sem cara, de voz já associada à imagem do candidato. Grávidas vestidas de branco acariciavam a barriga, em videoclipe ali inserido quase de modo envergonhado, quer dizer, fora do contexto da edição: só quem estava a par da discussão em torno do aborto captou a legenda oculta. Mas como a imagem de gestante é sempre bem-vinda ao universo da propaganda, os desavisados nada perderam. Bonequinhos de Matrioska encerraram a cena tucana - o dele com miolo recheado, o dela, oco.

É EDITORA DO SUPLEMENTO "TV" DE "O ESTADO DE S. PAULO"

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