1. Usuário
Assine o Estadão
assine

‘Quando você vai, não fica pensando no que vai acontecer’

O Estado de S.Paulo

13 Abril 2014 | 03h 00

R., que cometeu um único roubo que resultou em morte, diz que nunca pensou nas penas de prisão

R., 22 anos

O que fez: participou de assalto que resultou na morte de um homem

Idade ao cometer latrocínio: 20 anos

Pena total: 25 anos

O que o fez ir para o crime: o desejo de melhorar de vida

O que o teria evitado: ficar longe da maconha e das más companhias

Sempre trabalhei, desde cedo. Minha mãe tinha uma lojinha. Eu ajudava ela desde molequinho - 9, 10 anos. Quando tinha 13, 14 anos, já estava ajudando ela a administrar a lojinha dela, vendendo, era nós dois junto. Meu pai trabalhava de motoboy. Passou um certo tempo, eu quis já um outro emprego. Trabalhei com produção, e com 17 anos me tornei promotor de venda, que foi meu irmão que conseguiu pra mim. Promotor de venda só trabalha de maior, mas como ele era supervisor, conseguiu abrir esse espaço pra mim, conversando com os superiores dele. Tive várias profissão. Só que, querer muito, né? Me fez fazer...

Tudo que minha filha me pedisse ou que eu visse que era de utilidade pra ela eu queria dar: roupa, ter boa alimentação, lazer. É tudo que alguém normal queria ter trabalhando. Antes eu queria ter trabalhando também, mas o desejo maior acabou me fazendo cometer esse crime.

Eu estava trabalhando. Era promotor de vendas. Quem ganha salário mínimo vai me xingar, mas eu ganhava 1.500. Não era muito, mas é bem melhor que um salário mínimo. Eram 900 reais mais uns 600 de ajuda de custo. Comprei carro com ajuda da minha esposa. Ela trabalha.

Mas queria algo que não estava nas minhas mãos. Estava planejando um futuro que estava indo contra minha consciência, mas a consciência não tava apitando mais que nem antes. Eu queria fazer algo contra os preceitos tanto das leis quanto para Deus. Eu queria algo além do meu alcance e queria prejudicar, não prejudicar, queria buscar em outros uma melhora material pra mim, algo totalmente errado.

Eu tava num momento de várias turbulências psicológicas. Não era nem material. Porque materialmente nunca chegou a faltar alimento nem nada em casa. Mas através de brigas familiares, a família que eu montei, no caso eu e minha esposa. Mas através de coisas vindas de dentro de mim, porque dela mesma, nunca tive nada pra falar. Meu casamento estava ótimo. Quem formava a crise muitas vezes era eu.

Eu gostava muito de fumar maconha. Hoje em dia já não gosto de mais nada. Comecei a fumar maconha com uns 14 anos. Talvez por curiosidade. Foi fácil encontrar. Já tinha uns amigos um pouco mais velhos: 16, 17. Eles já tinham mais acesso. Gostei do efeito dela. Achava que ficava melhor fazendo uma coisa ou outra. Cheguei a viciar. Depois de um certo tempo vi que ela estava afetando minha mente. Falar que o psicológico fica 100% normal usando qualquer tipo de droga é mentira. Mas já estava viciado. Pensei: "Preciso parar".

Só que vim preso e nem aqui na prisão parei. Como aqui a gente não tem muitos meios para trabalhar a mente, vi que ela estava atrofiando minha mente. Ficava cansado para fazer uma atividade física. Não conseguia raciocinar direito para ler um livro. Foi aí que senti a necessidade de parar. "Já estou preso. Vou continuar com isso? Não, vou parar." Fui parando com o tempo. Há oito, nove meses, parei de fumar maconha, a única droga que já usei (está preso há dois anos).

Isso desencadeava muitas brigas. Aí eu me envolvi com dois personagens e a gente resolveu ir num local. Foi meu primeiro roubo. Primeiro e último.

Quando estava indo para lá, o quadro que fiz na minha mente foi perfeito. Quando você vai, não fica pensando no que vai acontecer. Ignorância, né? Pensei que ia ser tudo bem. E eu mesmo ferir alguém, no caso de uma reação, nem vinha na minha mente. Nesse dia, não fumei maconha.

Fui com revólver. Chegando lá, foi acontecendo. A gente foi rendendo as pessoas. Eram oito salas, como se fosse um condomínio comercial. A gente, sempre com muita calma - porque eu nunca fui de ser agressivo -, foi colocando as pessoas pra dentro.

Só que restou uma última sala, onde estavam os produtores de vídeo. A gente abriu a sala. Um deles estava escondendo algumas coisas no bolso. Fez alguns gestos e um cara que tava comigo jogou ele pra outra sala. Eu fui pra essa mesma sala e comecei a pegar o que tinha, o que estava à minha vista ali. Foi quando eu ouvi dois disparos na outra sala. Peguei os negócios e fui correndo pra lá. Cheguei lá, era muita pólvora no ar. Só vi um rapaz bem lá no canto, não cheguei a ver direito, se eu me lembro bem, já faz uns dois anos, só vi uns pedacinhos dos pés dele. Perguntei: "O que aconteceu?" E ele: "Não, vamo embora." Fomos.

A gente se encontrou num certo local e perguntei o que tinha acontecido. "Não, mano, acabei disparando num cara." Perguntei: "Pô, mas você matou o cara por quê?" Ele: "Foi sem querer". Falei: "Vou acreditar em você, legal".

Se eu tivesse saído de lá sem ferir ninguém acredito que a policia não teria me pegado. Mas depois que aconteceu essa tragédia. Era um rapaz novo, de 22 anos (mesma idade atual de R.), que veio a morrer. Depois que fui embora, fiquei com muito medo, porque não foi um simples roubo. Teve vítima fatal.

Eu estava com meu carro e alguém perto da cena pegou a placa. Fui identificado no local onde eu moro. Foram os policiais na minha casa, só que eu não estava. Aí veio muito medo. A mente ficou turbulenta. Passaram-se dois dias e eu pedi para um advogado ir no DP. Ele disse que meu carro estava sendo acusado de estar em um latrocínio. "Você pode se apresentar ou... Você é que sabe o que faz da sua vida". Foram 48 horas muito longas, pra refletir e tomar uma decisão. Falei: "Eu vou lá". Chegando lá, assinei alguns papéis, algumas vítimas me reconheceram. Não confessei. Falei que não estava, que meu carro tinha sido roubado.

É a primeira vez que estou falando a verdade sobre esse BO. Falei algumas mentiras e fui embora. O advogado me disse que eu ia responder na rua a esse processo.

Desde pequeno, sempre fui muito achegado a Deus, devido a minha família ter plantado uma semente no coração. Mas nesse tempo eu tava meio que desviado. Comecei a agradecer a Deus por me livrar desse problema. Continuei em casa. Passou uma semana e os policiais invadiram minha casa e fui preso. Estou até hoje. Não vou falar pra você que estou preso injustamente. É justo eu estar preso. Só não acho que está justa a minha pena (25 anos), porque participei de um roubo. Não fui eu que matei o indivíduo que estava lá dentro.

Estou aqui há dois anos. Para mim é um tempo grande. Conforme a gente administra nossa dor é que ela faz valer a pena. Se você não administra ela, ela não vai adiantar nada. Sendo bem analisada, você vê que foi uma causa justa a disciplina que está sendo imposta sobre você. Não sei mais quanto tempo ela vai estar sendo imposta. Vou ocupando meu tempo.

Aqui (penitenciária) é um lugar tenso. Você tem os dois lados: pode manter a sua mente em atividade pro lado bom ou pro lado ruim. Tento preencher o tempo da melhor forma: fazendo atividade física, lendo muito, estudando, tanto que na escola, na rua, fiz até a 8a série. Comecei no 1.° e parei. Cheguei aqui na prisão, já concluí o 1.° e fui pro 2.° agora. Nesse tempo, venho tentando me achegar com Deus. Ele se achega com a gente quando a gente quer. Vou colocar um texto bíblico que nunca vou esquecer, que é Hebreus 12:11, que é no mesmo sentido que estou dizendo pra você, que a disciplina, quando imposta sobre a gente, é motivo de tristeza, mas depois, sendo treinado pela justiça, dá bons frutos. É isso. A personalidade foi moldada.

A conduta da minha esposa também me ajudou muito. Eu tando bom ou ruim, tando totalmente fora do normal, ela estava sempre me ajudando para melhorar. Ela não desistiu de mim, graças a Deus. Ela me visita. Temos uma filha de 4 anos.

Antes de casar, eu morava com meus pais. Conheci minha esposa. No comecinho da gestação, decidimos se juntar, viver juntos.

Meus pais são sem explicação. Minha mãe é guerreira. A pessoa que disser que não se dá bem com ela, pode ter certeza de que não é da parte dela. Meu pai é outro também que, quando fala de qualquer problema com a gente, o emocional dele vai lá no alto, só que a razão dele não se deixa abalar. A razão dele tá sempre muito em alta, pra ajudar a gente a resolver qualquer questão. Ele ajuda muito também, tanto psicologicamente e numa ajuda concreta. Te dá um caminho. E hoje em dia ajuda demais, também.

Eu falo com sinceridade pra muitos que moram aqui comigo na prisão. Muitos falam que é loucura eu falar isso, mas, se fosse pra mim não aprender na rua o que eu aprendi nesse tempo que estou aqui, eu preferia ter vindo. Aqui aprendi muita coisa porque eu quis. Aqui só oferecem coisas ruins. Eu quis buscar esse valor bom, essa melhoria.

Os outros foram presos também um mês depois, com condenações mais altas. A minha foi menor por causa da minha idade, 20 anos. Não eram amigos, colegas. Conhecia dos bares na comunidade. Tomava um negócio aqui, voltava, parava para comer um salgado. Minha vida era de casa para o trabalho. Eu não sabia a fama deles. Acho que não foi a primeira vez deles, pela habilidade.

Nunca pensei sobre as penas, porque não era uma coisa do cotidiano. Foi algo de momento que eu fui e aconteceu essa fatalidade. Com certeza a pena não influi na decisão de cometer crime. Sendo grande ou pequena, vai de como a pessoa usa o tempo dela aqui dentro. Independente da pena ou não, a pessoa vai pensar se quer isso pra vida dela ou não. Ficando um ou dois anos, o cara já sabe o que quer. Já outros podem ficar muito mais tempo e não muda a mente.

Estou estudando porque não quero que esse tempo seja perdido e pra ocupar a mente. Na escola às vezes a gente se sente como se estivesse na rua, porque os professores vêm de lá, e dá pra conversar sobre outras coisas.

Ouvi dizer que aqui (na penitenciária) vai ter universidade. Se eu estiver aqui, e peço a Deus que sim, quero estar nessa universidade. Tudo o que for de bom, quero estar dentro. De primeira, gostaria de estudar uma administração. Depois, não sei se teria recurso para entrar na cadeia, seria psicologia. Depois disso, uma sociologia. E vai indo. Pra dar uma refrescada, uma filosofia.

Minha vocação acho que é vendas, lidar com as pessoas, aprender com as qualidades delas. Minha filha está pequena, e quero que a personalidade dela seja forte e boa. Quem forma a personalidade dos filhos são os pais. Espero ser um bom reflexo para ela.

Estou recorrendo da sentença. É crime hediondo, latrocínio. Então de 25 anos, tenho que tirar dois quintos. São dez anos. Tem uns que acha loucura dez anos só porque roubou. Tem gente que fala que tem que ficar 30 só porque cê roubou, outro: "Deixa ele lá pra sempre". Mas talvez porque não sabe o que se passa aqui dentro e como pode mudar a mente de alguém. Quem quer muda, com certeza. Tenho plena convicção de que estou preparado para a sociedade.

O que me incomoda mais é estar distante da minha família. Minha filha está em desenvolvimento. Não estou acompanhando ela na escola, o crescimento, a personalidade dela se formando. O carinho próximo da esposa. E também, por incrível que pareça, trabalhar para comer, que é o simples. Quem não trabalha não come. Vim parar aqui porque estava comendo, tinha uma vida simples mas boa, mas quis luxo. É através dos desejos que a gente começa a maquinar muita coisa na mente.

Quando tinha 14 anos e comecei a fumar maconha, talvez estivesse tudo bem, mas queria algo a mais, uma brisa, uma viagem. Foi isso que acho que me levou a experimentar.

Na escola, não vou falar que era aluno exemplar. Dava trabalho. As professoras ficavam de cabelo em pé comigo. Mas nunca fui de encrenca, sempre de dialogar, me enturmar. Mas não tirava nota boa. Muitas vezes o pai era chamado na escola. Acho que fui bem normal.

Parei na 8ª série. Repeti alguns anos e cheguei no 1.º ano pelo supletivo.

Casei - não que isso seja uma barreira. Foi falta de vontade, mesmo. Querer trabalhar. Nunca tive preguiça de trabalhar. Sempre trabalhei bastante pra ter o que eu queria. Só que mesmo trabalhando muito não consegui ter o que desejava. Esse desejo foi me maquinando pra fazer o que eu fiz, pra estar aqui. Desejava ter uma casa própria para minha esposa e minha filha. Se acontecesse alguma coisa, alguma coisa que eu deixei. Ter um carro, dinheiro pra tirar um lazer, ter um luxo ali na hora que você desejou e não consegue ter.

Nunca comentei com minha esposa que ia participar do roubo. Se comentasse, talvez ela me largasse na hora. Conheci ela com 17 e casei com 17 pra 18 anos. Foi aí que saí da escola, mas mesmo assim ela pedia pra eu continuar. Tanto que ela já estava fazendo faculdade. Mas a cabeça dura não me deixou terminar.

Estou otimista de que quando sair daqui vou poder trabalhar. Não é uma coisa que vai me impedir de estar envolvido com a sociedade e até mesmo trabalho. Claro que alguns vão ter preconceito e vão fechar um espaço. Mas acredito que vou conseguir.

Meu irmão pode me ajudar de novo. Tanto que ele já veio me visitar umas vezes. Ele é espetacular. Na penúltima vez ele disse: "Quando você sair daqui, eu saio do meu trampo e ponho você". Falei: "Não esquenta a cabeça. Quando eu sair daqui a gente vai se virar".

Tem dois fatos que não deixam você voltar pro crime. O primeiro é que não quero nunca mais voltar pra um lugar como esse. O segundo é deixar a consciência limpa. Pesa mais do que voltar pra cá. Porque se você tem uma consciência limpa, sua vida anda pra frente.

Tem pessoa que se dá bem fazendo o que é errado. Eu tentei fazer o errado e não me dei bem. Sempre que eu fazia o que era certo minha vida andava bem, mesmo que devagarzinho. Foi para esse devagar que eu não tive a paciência. Mas esse tempo (na prisão) foi uma reflexão. Deus me deu a paciência. Querendo ou não, tenho que ter ela. Estou preso.

Estou condenado a 25 anos. Tenho muita fé que essa pena vá cair e eu vá pra rua, porque sei que estou pronto pra sociedade. Só que mesmo assim tenho os pés no chão que é algum tempo que tenho que ficar.

Às vezes alguém com muito menos tempo de cadeia vem reclamar. Pergunto se vai parar com o crime. "Não sei". Não se achou ainda na vida. Digo: "Você não sabe e está reclamando? Sendo que depois você pode voltar pra esse mesmo lugar?"

Meus pais são testemunhas de Jeová. Frequentei desde bem pequeno, até os 12, 13 anos. Só que aí eu me afastei, devido a amizades, chamando muito pra sair, baladinha, menininha, me desviei. Aí vim preso. Sempre acreditei muito nele (Deus) mas estava afastado dele. Quando cheguei aqui comecei a me achegar mais porque, através do sofrimento, é da natureza do ser humano ele ter uma sede espiritual, de ter alguém para ajudar ele.

Não que eu esteja convertido. Não cheguei no batismo ainda. Para fazer isso, você tem que estar extremamente convicto e ter um bom conhecimento, deixar todas as coisas pra trás e Deus te perdoar.

De primeira, foi muito difícil para os meus pais. Quando meu pai entrou a primeira vez para me visitar, ele estava acabado psicologicamente, destruído. Só que conforme fomos conversando, algumas visitas, ele foi vendo algumas melhoras, uma certa mudança. Hoje em dia ele diz que já viu uma grande mudança. É isso que alegra ele. Tanto que nos achegamos muito mais - eu a Deus e ele a mim.