Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Questões de São Paulo dominam confronto

No segundo debate entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), os presidenciáveis deixaram de lado temas como aborto e religião, mas tiveram que se explicar sobre as suas relações com Erenice Guerra e Paulo Preto, suspeitos de irregularidades

, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2010 | 00h00

No segundo debate entre os presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) desde o primeiro turno, os candidatos deixaram de lado temas como aborto e religião e colocaram São Paulo no centro das discussões.

A petista e o tucano debateram a educação no Estado, políticas para o tratamento de drogados e até iniciativas do governo paulista relacionadas à compra de uma distribuidora de gás pela Petrobrás.

Os dois também tiveram de dar explicações sobre pessoas próximas suspeitas de irregularidades - Erenice Guerra, no caso de Dilma, e Paulo Vieira de Souza, no caso de Serra.

A empresa que provocou controvérsia é a Gas Brasiliano, que distribui gás no interior de São Paulo. Dilma acusou o governo paulista de tentar impedir que a Petrobrás compre a distribuidora da multinacional italiana ENI.

Segundo a candidata do PT, que atribui ao adversário a intenção de privatizar a Petrobrás e o pré-sal, o governo de São Paulo tem feito gestões para impedir que o Cade, órgão regulador do Ministério da Justiça, dê aval ao acordo fechado em maio entre a estatal brasileira e a ENI. Isso, de acordo com Dilma, favoreceria uma empresa japonesa concorrente da Petrobrás.

"A campanha da Dilma mente o tempo todo sobre minha posição em relação à Petrobrás", disse Serra. "Nas vésperas da eleição sempre vem o PT e coloca a privatização no centro das questões por uma questão puramente eleitoral." O tucano afirmou que pretende "estatizar" empresas públicas que, hoje, estariam servindo a "fins privados, de um partido ou de uma turma".

Serra acusou o governo federal de ter promovido um loteamento político na Petrobrás e em empresas ligadas a ela. Insinuou que até o ex-presidente Fernando Collor teria influência na estatal. O tucano também citou os Correios como exemplo de empresa em que vigora a lógica do rateio político. "Os correios são constantemente degradados pelo fisiologismo pela roubalheira e pela corrupção."

O candidato do PSDB disse ainda que as ações da Petrobrás subiram por causa de sua boa colocação nas pesquisas eleitorais no segundo turno. Desde o primeiro turno, porém, as ações ordinárias e preferenciais da estatal caíram 4% e 6%, respectivamente.

São Paulo voltou ao centro do debate quando Dilma questionou Serra por supostos resultados fracos da rede pública estadual de ensino. O tucano afirmou que exames de avaliação feitos pelo próprio governo federal mostram que o Estado foi um dos que mais avançaram na educação pública. Na tréplica, a petista disse que as boas notas de São Paulo se deviam à metodologia do exame, que dá peso alto à aprovação dos alunos. "Aqui há aprovação automática", observou.

Ao falar sobre a questão das drogas, a candidata petista afirmou que, com as 300 vagas abertas pelo governo paulista para o tratamento de viciados, levaria "um século" para atender os 300 mil drogados no Estado.

Serra acusou a adversária de "falar mal de São Paulo", repetindo uma estratégia que, segundo ele, teria provocado seguidas derrotas do PT em disputas pelo governo contra o PSDB.

Em resposta, Dilma chamou o tucano de "pretensioso" por buscar equipar críticas ao governo estadual a ataques ao "povo paulista". Serra ironizou a insistência da adversária em abordar temas locais. "Parece até candidata ao governo de São Paulo."

Verde. Além do aborto - um dos principais motivos de confronto no debate anterior, realizado uma semana antes -, o tema ambiental esteve ausente nas discussões.

Marina Silva (PV), que ontem declarou neutralidade no segundo turno, acusou os dois candidatos de ignorar "o tema da sustentabilidade". "Ao fim, Serra nem tangenciou a questão ambiental. Dilma, ao menos, reafirmou o compromisso firmado pelo governo com as metas de Copenhague", disse ela, pelo Twitter, ao se referir ao combate ao aquecimento global.

Questionada sobre o fato de ter convivido com Erenice Guerra e alegar desconhecimento sobre irregularidades que ela teria cometido na Casa Civil, Dilma afirmou que sua ex-auxiliar "errou". "As pessoas erram e a Erenice errou. Quero deixar claro que considero a situação com muita indignação. "Não concordo com a contratação de parentes e amigos, combato o nepotismo e tráfico de influência."

Serra foi questionado sobre Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, que teria sido acusado por tucanos de desviar recursos de doações para a campanha do PSDB. Em um primeiro momento, o tucano negou conhecê-lo, mas depois saiu em sua defesa. "Não o conhecia como Paulo Preto, um apelido preconceituoso e racista. Nunca soube desse problema, nunca soube disso (do suposto desvio de recursos da campanha)", afirmou o candidato.

Confronto

DILMA ROUSSEFF

CANDIDATA DO PT

"As pessoas erram e Erenice errou. Tenho um compromisso em combater o nepotismo e todo o tráfico de influência"

"Considero que o grande desafio é a educação. Por que em 16 anos de governo em São Paulo vocês acumularam recordes negativos?"

"Nós recuperamos as estradas que recebemos sucateadas do governo FHC"

JOSÉ SERRA

CANDIDATO DO PSDB

"Eu não disse que o conhecia. Uma jornalista me perguntou se eu conhecia Paulo Preto e eu não o conhecia por esse nome"

"Eu não vou acabar com o Enem. O Enem morreu no seu governo. Em São Paulo, nós criamos nossos exames para provar a melhora na qualidade"

"Eu tenho o apoio de dois ex-presidentes. Ela tem o apoio de Collor e Sarney"

ALTOS

O debate foi menos agressivo que o do domingo anterior. Os candidatos evitaram ataques pessoais e buscaram explorar temas de campanha

Dilma estava mais segura e Serra, mais tranquilo

As perguntas de jornalistas expuseram pontos fracos de cada candidato, obrigando Dilma e Serra a apresentar explicações

E BAIXOS

Os dois candidatos recorreram às mesmas frases de efeito e expressões usadas no debate anterior, o que soou repetitivo e forçado

Dilma teve dificuldade de se expressar ao formular algumas perguntas

Serra evitou responder algumas questões espinhosas, usando o tempo para falar genericamente ou voltando a tema discutido no bloco anterior

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