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Reintegração de posse no Jardim Botânico termina com dois feridos

Felipe Werneck - O Estado de S. Paulo

05 Maio 2014 | 18h 38

Horas depois, moradores protestaram contra atuação da PM e interditaram rua por três horas

RIO - Pelo menos duas pessoas ficaram feridas durante a reintegração de posse de um clube construído há 50 anos na área do Jardim Botânico, zona sul do Rio, na manhã desta segunda, 5. No início da tarde, cerca de cem moradores da comunidade do Horto protestaram contra a ação da PM. Eles interditaram por três horas a Rua Jardim Botânico no sentido Gávea e seguiram em passeata até a 15.ª DP para registrar uma denúncia de violência policial durante a reintegração, que foi determinada pela Justiça Federal.

Por volta de 10h30, PMs arrombaram o portão do Clube Caxinguelê e lançaram bombas de efeito moral e spray de pimenta contra um grupo de manifestantes que protestava no local. Dois ficaram feridos em meio ao tumulto e outros dois passaram mal. Uma mulher foi socorrida em um carro da PM e um homem foi levado em uma ambulância.

De acordo com a presidente da Associação de Moradores do Horto, Emília Santos, os dois feridos foram atingidos por balas de borracha lançadas por policiais. Oficialmente, a PM negou o uso de balas de borracha na operação. "Removendo o clube, amanhã (terça-feira, 6) vão começar a remover os moradores da comunidade. O Caxinguelê foi fundado por nossos pais há 50 anos, com autorização do Jardim Botânico. Estão abrindo um precedente para retomar as remoções de moradores", afirmou Emília, que é irmã do deputado federal Édson Santos (PT-RJ).

Protesto. A passeata foi acompanhada pelo Batalhão de Choque da PM. Durante a caminhada, não houve registro de tumulto. Manifestantes criticavam remoções em favelas e gritavam: "Não vai ter Copa". Antes de seguir para a 15.ª DP, o grupo fez uma manifestação em frente ao portão de acesso ao Museu do Meio Ambiente, que fica dentro do Jardim Botânico. Por causa da manifestação, o parque ficou fechado nesta segunda.

Em nota, a presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio, Samyra Crespo, alegou que "as atividades de um clube, com eventos esportivos, festas e iluminação forte à noite não se coadunam com a natureza nem missão" do jardim. "Em maio do ano passado, portanto há um ano exatamente, foi tomada uma decisão considerada histórica por quem trabalha pela pesquisa botânica, pela conservação das áreas verdes e do patrimônio paisagístico no País: a reintegração do território pertencente ao Jardim Botânico e, hoje, ocupado por moradores que foram ali se instalando em diferentes décadas e contextos. Em abril, a União não só passou oficialmente as terras ao jardim, como encaminhou este reconhecimento para registro em cartório", escreveu Samyra, que foi criticada durante a manifestação.

Processo. A desocupação do Caxinguelê é parte da ação de reintegração e foi decidida após quase 20 anos de litígio. "O clube está dentro do arboreto (coleção de plantas) tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), próximo a um dos monumentos históricos mais importantes do jardim, o Aqueduto da Levada, construído em 1853, e que tinha por função trazer a abundante água que vinha do Maciço da Tijuca. Além de ser um sítio histórico de extrema relevância para a história do jardim e da cidade, lá também está localizada uma importante nascente que deve ser protegida e conservada", acrescentou a presidente.

Segundo ela, "em breve" será instalado no lugar do clube uma nova estufa de orquídeas, "expandindo nossa coleção científica hoje bastante acanhada por falta de espaço". "Num futuro próximo iniciaremos obras para recomposição paisagística e recuperação do monumento que ali se encontra", informa a nota, que não menciona a situação das cerca de 500 famílias que devem ser removidas, de acordo com o plano do governo federal.

A presidente da Associação de Moradores do Horto afirmou que há uma promessa do ministro Gilberto Carvalho, da secretaria-geral da Presidência, de rever a posição do governo sobre a retirada das famílias do local. "Se preservar é a intenção, removam o rico que está dentro da mansão", gritavam os manifestantes durante a passeata. Após sete horas, o protesto foi encerrado. Estava prevista para esta noite uma nova reunião de moradores.

Durante anúncio do Cadastro Ambiental Rural, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que os retirados do Jardim Botânico serão incluídos no Minha Casa Minha Vida. / COLABOROU MURILO RODRIGUES ALVES