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Reintegração de posse no Rio tem confronto entre PMs e ocupantes

Marcelo Gomes, Sergio Torres, Thaise Constancio e Wilson Tosta - O Estado de S. Paulo

11 Abril 2014 | 07h 19

Invasores de terreno abandonado pela telefônica Oi atiraram pedras; policiais revidaram com bombas de gás

Atualizada às 15h19

RIO - Confrontos entre policiais militares e moradores de prédios da operadora telefônica Oi, que passou por reintegração de posse na manhã desta sexta-feira, 11, deixaram pelo menos 12 pessoas feridas, veículos e prédios incendiados, e 26 detidos. Quarenta oficiais de Justiça e pelo menos 1650 policiais militares participaram da desocupação dos edifícios invadido desde a madrugada de 31 de março por cerca de 5 mil pessoas, no Engenho Novo, zona norte do Rio.

A operação começou por volta das 5h e foi marcada por confronto entre os PMs e parte dos moradores, que resistiram atirando pedras nos policiais.Com 80 homens de 17 quartéis, o Corpo de Bombeiros debelou as labaredas. Alguns moradores reclamaram que foram acordados com gás de pimenta e impedidos de pegarem seus pertences.

Quatro ônibus, um carro da PM, dois caminhões e quatro prédios foram incendiados.  Uma grávida de 7 meses precisou ser resgatada pelo telhado depois que as chamas atingiram sua casa.  Algumas pessoas tentaram se aproveitar da situação para roubar peças de carros e tentar invadir supermercados. Apesar dos confrontos, a PM disse que a reintegração de posse foi tranquila.

Pelo menos três agências bancárias e um supermercado foram depredados. Na Rua Lino Teixeira, duas agências do Itaú tiveram as vidraças destruídas. O vigia de uma delas contou que os invasores levaram computadores e uma televisão. Segundo ele, as pessoas teriam tentado abrir o cofre da agência, mas não conseguiram. Mesas e cadeiras estão totalmente reviradas. Às 14h, o alarme da agência continuava soando. A terceira agência bancária depredada é do Bradesco, e fica na Rua Dois de Maio, a cerca de 300 metros do prédio da Oi que havia sido invadido.

 

Detidos. Vinte e seis pessoas foram detidas na desocupação da Favela da Telerj e levadas para a 25ª Delegacia de Polícia (Engenho Novo). Quatro adultos foram detidos em flagrantes e 21 pessoas foram levadas a um ônibus do Batalhão de Choque, pelo menos seis são menores. Aqueles que não tiverem mandado de prisão, serão ouvidos e liberados em seguida.

Dois homens foram presos em flagrante por furto. Eles levavam dois carrinhos do supermercado Campeão, com caixas de bombom, bebidas alcoólicas e energéticos. Um homem foi detido por ter jogado pedra em um ônibus e atingido o motorista. Ele foi indiciado por dano ao patrimônio e lesão corporal. Há ainda um homem acusado de ter jogado pedra em um PM. Outro já tinha mandado de prisão expedido por furto. Os 21 levados ao ônibus foram detidos dentro do supermercado, mas não tinham mercadorias. "Todos disseram que não têm nada a ver (com o furto). Dizem que estavam apenas se abrigando no mercado".

A mãe de um adolescente de 14 anos estava revoltada com a detenção do garoto. Ela contou que o filho se escondeu no mercado ao ver a confusão. "Era tiro e bomba, tinha inclusive um ônibus pegando fogo. Alguns correram para o mercado, outros foram empurrados", contou a camareira Carla Carolina de Souza Figueiredo, de 33 anos. "Eu não criei bandido, eu não criei animal. É assim que aparecem Amarildos e Cláudias. Meu filho estuda", disse a camareira. Carla não mora na ocupação, mas no Jacarezinho, favela próxima.

Feridos. Três crianças de 13 e 9 anos e 6 meses, além de quatro adultos, foram atendidos pelos bombeiros no local. Três adultos precisaram ser levados para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Engenho Novo, que fica a poucos metros do local onde foi instalada a chamada Favela da Telerj. Cinco policiais militares também ficaram feridos durante confronto com invasores.  Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde outras vítimas do confronto chegam à unidade com sintomas de inalação de fumaça. Um dos moradores dos prédios desocupados ficou cego de um olho.

O repórter Bruno Amorim, do jornal O Globo, foi detido por policiais militares enquanto cobria a desocupação do prédio da companhia telefônica Oi, na Rua Dois de Maio, no bairro do Engenho Novo, zona norte do Rio. "Era cerca de 8h30 e eu estava no meio da confusão quando vi um policial e um manifestante de camisa vermelha trocando socos. Puxei o celular da empresa para tirar fotos. Foi quando um outro policial me deteve, alegando que eu estava tacando pedras. Me deu uma chave de braço e me feriu. Jogou meu celular no chão. Como eu poderia jogar pedra se em uma mão eu segurava o celular e na outra o bloco de anotações? Eu estava apenas cumprindo meu dever de reportar o que estava acontecendo. Fui detido de forma arbitrária", disse o jornalista, que trazia crachá da empresa jornalística.

Decisão. A ação policial cumpriu decisão da juíza da 6ª Vara Cível da Comarca Regional do Méier, Maria Aparecida Silveira de Abreu, que deferiu liminar para reintegração de posse do imóvel. No início da manhã, uma retroescavadeira iniciou a derrubada dos casebres de madeira e papelão erguidos às pressas pelos invasores. Há dois dias, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) definiu a ocupação do terreno como "uma invasão profissional".

"Não conheço favela nenhuma da Telerj e, sim, uma invasão com todas as características que uma invasão profissional pode ter. É um movimento organizado, com pessoas que estão ali loteando, demarcando. Pobre que é pobre, que precisa de casa, não fica demarcando, não aparece com madeirites marcando número", afirmou Paes.