Renan ativa máquina de voto de cabresto

Casa dos Calheiros em Murici é usada para treinar eleitores a votar em candidatos do clã

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2010 | 00h00

Uma linha de montagem de voto de cabresto foi criada na reta final da campanha eleitoral em Murici, Alagoas, na casa da família do senador Renan Calheiros (PMDB), que disputa a reeleição. Pertencente à matriarca da família, Ivanilda, a residência é usada como central de clientelismo explícito, sob o comando do prefeito, Remi Calheiros, irmão de Renan. A reportagem do Estado flagrou na quinta-feira um batalhão de mais de 100 pessoas em plena atividade de cabala de votos, divididas em brigadas, conforme a tarefa.

O objetivo do esquema era o treinamento de eleitores para votar nos candidatos da família, em troca de favores, ajuda material e promessas.

A maior das brigadas, com cerca de 30 pessoas, preenchia santinhos em profusão, sobre uma longa mesa de madeira na sala principal, com a cola a ser levada pelos eleitores à urna de votação. Em outra dependência, uma brigada menor, de umas dez pessoas mais instruídas, dava orientações aos eleitores sobre como votar na urna eletrônica.

Enquanto isso, na cozinha, uma equipe preparava comida em imensas panelas para o pessoal de apoio e dezenas de eleitores que se acotovelavam em todas as dependências da casa - salas, varandas, quartos, pátio e quintal - à espera do "acordo".

Outro pelotão encarregava-se de trazer eleitores para a casa, numa robusta frota integrada por kombis, caminhonetes e veículos menores. Eram todos pobres da periferia da cidade e da zona rural, entre eles mulheres com filhos de colo. Alguns eram flagelados que perderam tudo nas enchentes do Rio Mundaú que varreram a região em junho.

Os santinhos, preenchidos com o número dos candidatos com canetas esferográfica, trazem na frente a foto do chefe do clã, Renan, ladeado pela candidata presidencial Dilma Rousseff (PT) e o padrinho dos dois, o presidente Lula. O verso traz uma imitação de cédula de votação com seis campos, cada um com espaço para preencher, pela ordem, o voto no candidato a presidente, seguido pelo do governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual. A Justiça Eleitoral informou que uso de cola é permitido, mas corrupção de eleitor é crime.

Para o cientista político Alberto Saldanha, da Universidade Federal de Alagoas, o clientelismo e a troca de voto por favores e bagatelas ainda são uma realidade alimentada pela ignorância e a extrema pobreza de grande parte da população.

"Vim buscar ajuda porque tenho quatro filhos, sou desempregada e meu marido ganha salário mínimo", explicou Benedita da Silva, enquanto esperava, com um bebê de 6 meses no colo, sua vez de ser atendida e voltar para a zona rural. "É a hora de ganhar um troco e aliviar a situação lá em casa", disse outro eleitor, que pediu para não ser identificado.

Índices. Neste domingo, 2 milhões de eleitores alagoanos vão às urnas. Com 3,3 milhões de habitantes, o Estado ostenta os piores indicadores econômicos, sociais e educacionais do País. Segundo dados do IBGE, um em cada quatro alagoanos é analfabeto (24,6% da população). Mais de 1 milhão de alagoanos, ou 36,5%, são analfabetos funcionais - escrevem o nome, mas não têm capacidade de interpretar textos.

Os dados são mais de 40% piores do que a média nacional. A mortalidade infantil, de 46,4 por mil bebês nascidos vivos, é 50% maior que a média nacional. A taxa de homicídio também é recorde, de 59 por grupo de 100 mil habitantes, quase três vezes maior que a do Sul e Sudeste. As elites locais são acusadas de se nutrir da pobreza e ignorância para se perpetuar no poder.

O esquema de treinamento do voto foi montado há duas semanas, perto da eleição o suficiente para os eleitores não esquecerem a cola, nem se arrependerem do compromisso. Mas também com espaço curto para não elevar os custos da cabala. Ninguém admitiu que estivesse ali comprando ou vendendo voto, mas a todo instante aparecia alguém cochichando um pedido de favor, ou uns trocados para alguma emergência. Remi garantiu que era só "trabalho legal de propaganda política e elaboração de panfletos".

O presidente do TRE de Alagoas, desembargador Estácio Gama de Lima, afirmou que é difícil evitar a troca de voto por favores, às vésperas das eleições. Ele defende que o eleitor leve um cola com os números dos seus candidatos, para facilitar a digitação dos votos na urna eletrônica, mas discorda do chamado voto de cabresto. O problema, diz, é a impossibilidade de fiscalização. "O eleitor pobre e analfabeto em geral não tem uma consciência política. Combater todos os casos de compra de voto, só se a Justiça Eleitoral fosse onipresente."

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