Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Rio onde imagem foi encontrada ainda sofre com poluição

Cidade de Aparecida lança esgoto no Rio Paraíba, onde pescadores encontraram imagem de Nossa Senhora

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

O Porto de Itaguaçu é a principal atração de Aparecida, depois do Santuário Nacional, com suas duas basílicas. Foi ali, à margem direita do Rio Paraíba, que os três pescadores içaram das águas barrentas a pequena imagem de Nossa Senhora, em outubro de 1717 – primeiro o corpo, em seguida a cabeça. O trecho do rio é esse, embora não seja possível precisar o local exato da pescaria. A cerca de três quilômetros da portaria da basílica nova, que se pode ver no horizonte da cidade, o Porto de Itaguaçu é um parque de 129.337 metros quadrados, com vários atrativos.

Um barco de turismo, com 60 assentos, que sempre navega cheio nos feriados e fins de semana, faz um passeio de 20 minutos com romeiros e turistas, rio acima e rio abaixo, a partir do ancoradouro, onde se compram os bilhetes. Ao longo da viagem, um guia conta a história do encontro da imagem. Foi depois de horas sem nada pescar, porque os peixes eram escassos no mês de outubro, como acontece agora, quando o nível das águas está baixo.

“O rio só enche mais no fim do ano, nos meses de verão”, informa o pescador Sérgio de França Mota, de 41 anos, que lança sua rede no Paraíba desde rapazinho para pescar piaba, lambari, traíra e cascudo. Pesca para consumo, pois o camarão e os peixes mais nobres que ele serve em seu restaurante na marginal direita do rio vêm do mercado. Sérgio tem uma canoa atracada ao lado do barco de turismo e costuma embarcar com romeiros nos passeios pelo rio, quando convocado pelo pessoal da Santo Rio, empresa parceira dos padres redentoristas para exploração do porto.

“O passeio mais emocionante de sua vida”, anuncia uma placa na bilheteria da concessionária, com evidente exagero. Na área do porto, há esculturas dos três pescadores mostrando a cena do encontro da imagem e uma capela. A rua de acesso tem várias lojas de artigos religiosos, predominando as imagens de Nossa Senhora Aparecida.

O pescador e dono de restaurante nasceu e cresceu ali, bem ao lado do rio, que foi dragado e tem oito metros de profundidade naquele trecho, casas modestas na margem direita e mata ciliar na esquerda. Pesca com anzol quase o ano todo, pois rede só é permitida de novembro a fevereiro. A água parece limpa, mas de fato está poluída, com sujeira vinda das cidades vizinhas, apesar de estações de tratamento em São José dos Campos, Taubaté e Pindamonhangaba. Em tese, a água tratada não deveria ter poluição, mas há esgotos clandestinos que escapam à fiscalização.

Aparecida, que tem uma estação de tratamento de construção recente, mas ainda não ativada por causa de supostas irregularidades técnicas, segundo Osmair Toledo, assessor administrativo do Serviço de Água e Esgoto (SAE), lança o esgoto no Rio Paraíba, mas quilômetros abaixo do Porto de Itaguaçu. A empresa espera corrigir as falhas e inaugurar as estação de tratamento nos próximos meses.

É muita sujeira lançada no rio, pois a cidade, de 35 mil habitantes, multiplica a população nos fins de semana, quando recebe em média mais de 200 mil romeiros. “Temos cerca de 300 hotéis, pensões e pousadas em Aparecida, ou 425 somando 18 municípios vizinhos”, informa o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes, Francisco Viviani, proprietário de um hotel-fazenda em Cunha, perto de Guaratinguetá. São estabelecimentos modestos, cujo nível começou a melhorar após a inauguração do Hotel Rainha do Brasil, de quatro estrelas, construído pelo Santuário. O hotel, de 330 quartos, hospeda os bispos na assembleia anual da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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