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‘Se eu soubesse que era polícia, eu não tinha dado chance’

O Estado de S.Paulo

13 Abril 2014 | 03h 00

Depois de cumprir mais de 3 anos por roubo, J. saiu da prisão, cometeu assalto, atirou em policial e foi preso novamente

J., 28 anos

O que fez: atirou em policial aposentado. Acusado de matar outro policial

Idade ao cometer crime: 27 anos 

Aguardando julgamento

O que o fez ir para o crime: desejo de melhorar de vida

O que o teria evitado: não sabe

Eu tinha acabado de sair da penitenciária. Fiquei só 40 dias na rua. Saí sem apoio até mesmo de familiares. Minha família mora noutro Estado. Dificuldades que um ex-presidiário tem na sociedade. Tinha 3 anos e 4 meses que eu estava sem ver meu filho. Quando fui preso, ele estava com 8 meses. Então eu ficava pensando na minha mente ali, montando vários castelos de poder abraçar meu filho, dar um presente para ele no aniversário. Saí em maio e o aniversário dele é em junho. Eu não tinha condições nem para se locomover direito, muito menos para dar um presente para o meu filho e ajudar a mãe dele. Então, os parceiro: "Ó, tem um BO ali, dá pra arrumar um dinheiro. Não pensei duas vezes. Eu queria até mesmo pra mim, alugar uma casa pra morar, porque estava na casa de parente. Não é legal ficar ouvindo: "Você não arrumou emprego, precisa ajudar". Desde os meus 16 anos, que vim de Minas para morar em São Paulo, nunca dependi de ninguém. Sempre dei o meu trampo, depois comecei a me envolver no crime, e quero ser independente. Infelizmente, fui num assalto. Passei uma vez, dei uma olhada, fui praticamente no escuro. Então cheguei lá, era uma loja de aparelhos de aeromodelismo. Já tinha levantado compradores, tava tudo certo, dava pra colocar uma quantia razoável que ia me estabilizar ate arrumar algo melhor. Fazer alguma coisa. Era um pontapé inicial. Quando enquadrei a vítima, não sabia quem era, se era polícia, se não era. Só tinha levantado que tinha um segurança na rua. Então, quando dei voz de assalto, a vítima levantou as mão, normal, e veio caminhando pro meu lado. Falo: "Não, já era, tranquilo". Dei a voz de assalto, falou: "Calma, calma". Só que eu tô calmo. Nisso a vítima saiu de trás do balcão e tinha porte físico bem maior que o meu. Eu tô com a arma aqui e a vítima pulou na arma e segurou, tentando tomar. Aí eu, tentando em luta corporal com a vítima. Quando o parceiro falou em revistar a vítima foi que ela reagiu e já grudou, segurou na arma. Aí o parceiro desarmou a vítima, revistou. Eu não sabia que a vítima era PM aposentado. Então saímos em luta corporal e eu tentando atirar pra cima porque se eu soubesse que era polícia, eu não tinha dado chance nem de ele ter caminhado para cima de mim. Mas como eu não sabia, não queria matar a vítima. Nunca foi preciso eu dar tiro em ninguém. Foi a primeira vez. Dei um tiro para o alto, não acertou a vítima e mesmo assim o parceiro correu para o lado da porta e a vítima continuou seguro na minha arma. Não soltou. E eu e ele tentando tomar. Porque, se ele toma, tinha me matado. O porte físico dele era bem mais forte que eu. Consegui puxar ele pra trás. Ainda bati as costas na prateleira. Empurrei ele com os pés. Quando ele veio pra cima de novo eu dei um tiro, que acertou. A vítima saiu correndo. Meu telefone estava no bolso, caiu. Só preocupei em pegar o aparelho. Nisso, já eram umas 10 horas da manhã, e já tinha bastante gente na rua desde a hora que eu dei o primeiro tiro. Saí fora.

Sete dias depois, tava indo de carro pra minha casa. Aí a polícia falaram que já tinha denúncia anônima, que tinha umas fotos das filmagens, e me abordaram na frente da minha casa. Me perguntaram se eu tinha passagem. Falei: "Olha, senhor, estou de 40 dias de condicional, na rua". Aí eles já veio falando desse BO, que eu tinha matado um polícia". Falei: "Não matei ninguém". Eles: "Não, foi você mesmo. A gente já sabe que foi você". Aí foi na viatura, já pegou um bloco de folhas de sulfite com as filmagens e já demonstrou. Não tinha nem como falar que não era eu. "Realmente, foi eu mesmo".

Aí já invadiram a minha casa, não perguntaram para minha família se podiam entrar ou não, procurando a arma, tanto do polícia quanto a minha. Não acharam nada. Me levaram para a delegacia mais próxima de casa, ali eles desviaram o caminho, já sabiam.

Foi na época que tinha iniciado os ataque (do PCC). Aí, eles já falando que eu tava envolvido na morte de um polícia que teve na quebrada também, e se eu fazia parte do crime organizado. Eu falando que não tinha nada a ver. Me levaram para uma rua deserta, onde só tinha uma casa, só vi uma luzinha distante da outra. Só duas viatura e outros com meu carro. Pegaram um alicate, colocaram na minha boca, (disseram) que iam arrancar os meus dente. Pegaram o cassetete, falaram que iam colocar na minha bunda. Então, querendo me zoar mesmo, falando que iam me matar.

Só não morri porque não era o dia. Graças a Deus apareceu um Passatinho velho. A rua estava em obras, tinha uma tela, e comecei a gritar. Acho que as pessoas do Passat viu e ficaram parado, olhando. Acho que eles viram que não tinha como me matar ali e me levaram pra delegacia e de lá pro DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à

Pessoa). Pararam no caminho, chamaram a imprensa, colocou que eu tinha matado um polícia, que eu estava envolvido nos atentado.

Aí a vítima foi lá. Aí que fiquei sabendo que era um policial aposentado, que ele tinha levado um tiro no pescoço, a bala ficou alojada na nuca. Me reconheceu no DHPP.

Tem um outro rapaz que não conheço, que foi preso no dia do BO. Colocaram no BO como se ele estivesse junto, só que não conheço esse rapaz. Tô no aguardo. Sou réu confesso. Fui eu mesmo que cometi o BO. A advogada passou pra mim que a vítima falou que dei três tiros nela, que só não morreu porque foi socorrida com urgência. Dei apenas dois tiros, um para o alto e o outro que nem sabia onde tinha acertado.

Vim para São Paulo com 16 anos porque tinha uns parente meio distante da minha mãe que moravam aqui e me convidou pra morar com eles. Estudei até a 6ª série. Parei de estudar quando vim pra São Paulo, com 16 anos. Minha mãe concordou com a minha vinda. Teve que ir lá no Fórum assinar autorização pra eu viajar.

Vim, morei um ano com eles, tava trabalhando, só que comecei a me envolver com pessoas do crime. Não aceitaram. Mandaram eu de volta pra lá. Fiquei uns meses, voltei e já comecei a morar sozinho. Já com 17 anos. Aí já vim mais ligado ao pessoal do crime. Fazia roubos.

A gente nunca sabe o que pode acontecer. Eu gostava mais de roubar sozinho porque eu nunca matei, nunca tive necessidade de matar ninguém. Mas no caso, quando eu sei que é segurança, a polícia tá armada, eu não vou tomar tiro com arma na mão.

Trabalhei de ajudante geral em obra. Mas não dava pra manter - pagar aluguel. O dinheiro era pouco. No Grajaú, uns vizinhos se aproximaram e comecei a me envolver, ir junto. Mais pra frente, comprei minha arma e comecei, na maioria das vezes, sozinho.

Já comprei um carro, dei uma melhorada de vida, mas é aquilo, né? O que vem fácil, vai fácil.

Não passei pela Febem. A primeira cadeia minha foi em 2008, com 23 para 24 anos. Fui pro CDP (Centro de Detenção Provisória) mesmo, num roubo a residência, um assalto. Peguei 4 anos no semiaberto. Fiquei 7 meses no CDP, de regime fechado, depois 4 meses na colônia e fui embora pra rua, de regime aberto. Saiu a condenação no semiaberto.

Meu filho nasceu, eu estava preso. Fiquei um mês e 20 dias na rua. Fui preso em outro assalto e fiquei 3 anos e 4 meses preso.

Quando tinha 16 pra 17 anos, nunca pensei na diferença entre cadeia e Febem.

A penitenciária e a colônia não me mudaram em nada. Com certeza, conheci gente nova.

Dessa última vez, na penitenciária, passei por psicóloga. Eles faziam várias palestras lá, eu frequentava a escola, trabalhava na faxina. Mostrava que dava pra aprender, aproveitar bastante. Mas não que aquilo ali vai te tirar. Alguns consegue, através daquelas palestra, encontrar uma nova vida, mas pra mim mesmo eu não tinha esse objetivo, porque eu sabia que seria dificultoso até mesmo pra mim recomeçar tudo de novo. Então, na vida que eu tô levando, no crime, pra eu sair hoje, amanhã, que seja, ficar um mês, pra começar tudo de novo tem que ser dessa forma, porque trabalho mesmo praticamente não tira. Por causa daquele velho preconceito: um ex-presidiário. E eu mesmo nunca procurei também.

Já não estou mais com a mãe do meu filho. Eu sempre morava só, eu na minha casa e ela na dela, independente que nós tinha um filho. Na época em que fui preso da segunda vez, já não estava mais com ela. Só comunicava através de cartas. Fiquei os 3 anos e 4 meses sem visita. Aí saí pra rua, já comecei a me envolver com outras mulheres na quebrada.

No mês que vem faz um ano que estou aqui, e não vejo meu filho. Tenho visita, mas de outra mulher. Para meu filho vir, é a maior burocracia. Tem que passar na guarda, para minha mãe ou algum parente. Minha mãe mora em Minas. Veio aqui uma vez. Foi a primeira visita que recebi, logo que cheguei a esse CDP.

O contato com minha mãe era mais por carta e, quando estava na rua, por telefone. Toda mãe fica triste, não quer isso. Também fiquei triste por ter minha família distante

Meu pai separou da minha mãe quando eu tinha 6 anos de idade. Quando eu tinha 12 anos, eu mesmo decidi procurá-lo, com um endereço velho. Eu tinha vontade de conhecê-lo. Eu ficava uma semana lá, aí dava saudade da minha mãe, dos meus irmãos, aí eu queria voltar pra outra cidade. Fui umas duas vezes. Aí ele falou que ou eu ficava lá ou com a minha mãe. Eu não quis ficar com ele. Ele não quis me dar o dinheiro para eu voltar para onde minha mãe morava. Eu fugi e nunca mais vi ele.

Roubaram a casa dele. Eu tive a notícia e nós foi pra lá. Entraram pra roubar e mataram ele asfixiado.

Fui criado mais pela minha avó, meu avô. Tenho dois irmãos e uma irmã, de pais diferentes.

Com certeza, fui por esse caminho em busca de uma vida melhor.

Quando a gente sai de casa, já sabe o que pode acontecer. Pode dar um desacerto, ir preso, morrer ou matar.

Não sei responder se mudariam minhas escolhas se as penas de prisão fossem maiores.

A gente perde muito na prisão, até mesmo meu filho, minha família, minha mãe, que não vejo. O que mais me deixou triste nesses 3 anos e 4 meses foi que no primeiro dia que fui ver meu filho, no dia que saí, que eu tinha isso em mente, sair, quero ver meu filho, dar um abraço nele, eu chamava ele, e ele não me reconhecia. Ele tinha 4 anos. Esse mês agora fez 5. (João chora)

Não sei como será o futuro.

Eu acho que a vinda de Minas pra cá mudou muito. Tanto minha família, meus irmãos, quanto outros que continuam lá, continuam vivendo da mesma forma. Em São Paulo, consegui tudo que lá eu não conseguiria. Em uma baladinha eu gasto o que meus irmãos que trabalham, lá, ganham em um ano ou dois.

Curti bastante.

Infelizmente, é dolorido, mas estou pagando pelos momentos bons que eu tive no passado.

De certa forma, valeu a pena. Conheci várias pessoas, que muitos não teve o privilégio que tive. Então infelizmente hoje é consequência.