Serra refaz pontes com líderes do DEM

Ida de Bornhausen para núcleo político da campanha foi vista por integrantes da sigla como sinal positivo de tucano para segundo turno

Malu Delgado e Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2010 | 00h00

Com intuito de atenuar os ruídos políticos que prejudicaram o desempenho eleitoral no primeiro turno, o presidenciável José Serra (PSDB) busca reconstruir pontes com a direção do DEM e aliados dos quais se distanciou ao longo da campanha.

O resultado das urnas para o DEM não foi tão devastador quanto se imaginava e o engajamento integral do partido no segundo turno é visto por tucanos como fundamental para reduzir a diferença eleitoral entre Serra e Dilma Rousseff (PT), especialmente no Nordeste e no Sul.

Ao colocar o ex-senador Jorge Bornhausen (SC) no núcleo político que tomará as decisões sobre a campanha, Serra, segundo integrantes do DEM, deu sinal de que precisa do partido.

O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), já se reuniu ontem em São Paulo com o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), e com Bornhausen para definir as coordenações estaduais da campanha de Serra. No dia anterior, os principais líderes dos Democratas tinham sido chamados para ter uma participação mais efetiva ao lado de Serra no segundo turno.

"A questão agora é a de intensificar os compromissos de campanha nos Estados, até porque o segundo turno é muito curto. Não podemos perder tempo, nem esse momento positivo provocado pela confirmação do segundo turno", afirma Maia.

Desde o início da campanha, os dirigentes nacionais do DEM estavam desconfortáveis com a falta de espaço na coordenação. As articulações se restringiam praticamente a conversas entre Maia e Guerra. Com o candidato havia, no máximo, uma troca de e-mails com sugestões e observações sobre pesquisas.

Essa dificuldade de aproximação foi provocada por uma insatisfação mútua. O DEM preferia que o ex-governador mineiro Aécio Neves tivesse sido escolhido como candidato pelos tucanos, avaliando que ele teria maior potencial para atrair aliados de outros partidos e poderia bater a petista Dilma Rousseff. A preferência por Aécio fez com que Serra diminuísse seu contato com integrantes do DEM.

O processo de escolha do candidato a vice, quando Serra se inclinou a escolher um tucano para o posto antes de bater o martelo em torno do deputado Índio da Costa (DEM-RJ), aumentou o desgaste. Poucos dias depois, Maia e Serra romperam relações, com o tucano ficando insatisfeito com as seguidas queixas do dirigente do DEM e mandando que ele fosse apoiar Lula.

Mensagem. A reaproximação começou na última semana do primeiro turno. Maia mandou uma mensagem para Serra, sugerindo uma agenda em Niterói para que o candidato cumprisse. Serra aceitou o convite e retribuiu o gesto elogiando o presidente do DEM publicamente no evento. "Ele é o nosso candidato e representa o melhor projeto para o País. Por isso, o Democratas está totalmente mobilizado para trabalhar por sua vitória", disse Maia.

A aposta dos tucanos e do comando do DEM é que, no segundo turno, líderes regionais que se sentiram ameaçados em confrontar a popularidade de Lula agora, já eleitos ou derrotados, possam abraçar com mais entusiasmo a campanha.

"Como não houve ruptura, não foi necessário haver recomposição. Mas agora estamos todos tendo mais tempo para nos dedicarmos ao Serra. Ele agora é nosso filho único", afirmou o deputado José Carlos Aleluia (BA), derrotado na campanha por uma vaga no Senado pela Bahia.

No início da campanha, Aleluia chegou a fazer parte do grupo de trabalho que discutiu o programa de governo e vinha constantemente a São Paulo. Depois de desavenças, distanciou-se.

"Eu e o senador Arthur Virgílio (PSDB) vamos intensificar os pedidos de votos para Serra no segundo turno", avisa o deputado federal eleito Pauderney Avelino (DEM). O Amazonas é um dos Estados onde o presidente Lula tem maior popularidade.

Segundo o senador José Agripino Maia (RN), reeleito, "o DEM nunca esteve afastado de Serra". Para o parlamentar, a aproximação maior neste momento se explica pelo fato de os aliados, sobretudo no Nordeste, poderem enfrentar com mais liberdade o embate político.

Nas entrelinhas, o senador deixa implícito dificuldades que aliados de Serra tiveram para assumir a campanha do tucano e confrontá-la com a extrema popularidade de Lula no Nordeste. "O afastamento pode ter sido uma conveniência política, uma estratégia. A política tem certas conveniências", disse Agripino.

Projeto. Otimista, o deputado ACM Neto (DEM-BA) acha possível reduzir a diferença favorável a Dilma no Nordeste. "Com o fim das campanhas para deputado e senador, todos têm liberdade de se envolverem num só projeto, com objetivo único."

O DEM elegeu dois governadores - Raimundo Colombo, em Santa Catarina, e Rosalba Ciarlini, no Rio Grande do Norte. Em Santa Catarina, Serra teve 45,77% dos votos e Dilma, 38,71%. O resultado do Rio Grande do Norte reflete a vantagem de Dilma no Nordeste: 51,76%, ante 28,14% do tucano. O DEM elegeu 43 deputados e seis senadores.

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