Shoppings lotados e ruas esvaziadas

Para especialista, boom do setor reflete uma cidade impessoal

Rodrigo Brancatelli e Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

O novo boom dos shoppings em São Paulo, só comparável ao que ocorreu no começo dos anos 90, é visto por arquitetos e urbanistas não só como um fato natural, mas também como reflexo de uma cidade cada vez mais fechada, insegura e impessoal. É uma matemática das mais simples: quanto mais carros e menos vida nas ruas, mais shoppings sendo construídos. E quanto mais shoppings, claro, mais carros e menos gente andando a pé pelas ruas. "O shopping é condizente com o automóvel", diz Flávio Villaça, professor de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), que durante cerca de 15 anos ocupou vários cargos na Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo. "O sistema viário da capital é favorável para que mais empreendimentos desses sejam erguidos. O que, obviamente, só causa mais exclusão." Segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), de janeiro a julho são emplacados em média 635 carros e 235 motocicletas por dia. Isso significa que a frota cresce oito vezes mais do que a população. Não é por menos que o consumo, o serviço e até mesmo o lazer de São Paulo estejam dentro dos 73 centros de compras da cidade. De acordo com duas entidades do setor, a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) e a Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce), trata-se de um universo de quase 10 mil lojas, 200 salas de cinema e 100 mil vagas de estacionamento. "São Paulo é uma das melhores cidades para você construir um shopping", diz Flávio Villaça. "São empreendimentos de comércio empresarial, lojas de cadeia, em vez de individuais. E em São Paulo não temos um mercado local e tradicional como Buenos Aires. O boom dos shoppings é uma resposta a isso, à falta de vida nas ruas, ao excesso de carros e à violência. O lado negativo é que todos esses locais causam exclusão. Só a classe média, 20% da população, freqüenta. E os outros 80%?" ZONA LESTE A pergunta pode ganhar uma resposta nos próximos meses, com a inauguração de empreendimentos na zona leste da capital - área com 320 quilômetros quadrados, 5 milhões de habitantes e menos de meia dúzia de opções. Com uma área de 60 mil metros quadrados, o Metrô Boulevard Tatuapé teve um investimento de R$ 120 milhões e abriu as portas no primeiro semestre, contando com cerca de 150 lojas e 5 salas de cinemas. Já o Shopping Metrô Itaquera, que deve ser inaugurado até dezembro, terá 40 mil metros quadrados, 220 lojas e 9 salas de cinema. Assim como o Shopping Metrô Tatuapé, inaugurado em 1997, o Boulevard Tatuapé e o Metrô Itaquera são interligados ao transporte público urbano, por meio dos trens do Metrô e da CPTM e dos terminais de ônibus. "Esse modelo de shopping, que surge interligado com metrô ou com trem, é uma nova forma de criar centros de consumo para as classes mais baixas, que não vão de carro para lá", diz Villaça. "Mas, mesmo assim, é uma coisa limitada. É apenas um problema que se propaga."

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