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Só durmo à base de remédios, diz pai que quebrou perna do filho ao salvá-lo

Auxiliar de supermercado sofre com problemas um ano após a tragédia em Teresópolis, na serra do Rio

Rafael Spuldar, BBC

13 Janeiro 2012 | 14h48

TERESÓPOLIS - Um ano depois de ter sua casa destruída por um deslizamento de terra, e de ter quebrado a perna de seu filho ao retirá-lo dos escombros, um morador de Teresópolis diz que somente o uso de medicamentos faz com que consiga trabalhar e dormir normalmente.

O auxiliar de supermercado Magno de Jesus Andrade, de 44 anos, mora com a mulher e outros três filhos em uma casa que aluga no centro de Teresópolis. Devido à perda de sua residência pela forte chuva do ano passado, ele recebe um auxílio-moradia do governo do Estado do Rio de Janeiro.

 

"Mas dá só para pagar água, luz e gás. Isso, mais o meu salário, só serve pra me manter", disse Magno à BBC Brasil.

Seu filho, Pedro Marlon de Andrade, de 16 anos, se recuperou bem depois de ter a perna fraturada nos esforços para ser resgatado dos escombros de sua casa.

Durante as chuvas do ano passado, Pedro tentava sair pela varanda de casa quando um deslizamento o deixou preso entre uma parede e um pedaço do telhado que caíra. "Ele se virava todo, mas não conseguia se soltar", disse o pai à BBC Brasil no ano passado. Chutando e pisoteando com força os pedaços de madeira que prendiam a perna esquerda do jovem, ele acabou quebrando a tíbia do garoto.

Um ano depois da tragédia em Teresópolis, Pedro está na cidade de Além-Paraíba, onde foi passar as férias com familiares. Lá, o jovem acabou atingido por outra enchente, que interrompeu as rotas para deixar a cidade e cortou o serviço de telefonia. Apesar disso, segundo Magno, não há motivo para preocupação.

Problemas na escola. Apesar da recuperação, o morador diz que seu filho não conseguiu passar de ano na escola, e vai acabar repetindo a primeira série do ensino médio. Magno acredita que o mau resultado seja fruto do que o jovem passou em 2011. "Às vezes ele me diz que gostaria de voltar para casa, mas infelizmente não dá", diz o pai. "Quando se fala no assunto, ele diz: 'pai, esquece isso', ele não gosta."

Além disso, segundo o auxiliar de supermercado, Pedro, que chegou a ser observado por "olheiros" que buscam jovens jogadores com talento, ainda não teve confiança para voltar a jogar futebol. "Acho que ele tem receio de entrar em uma dividida e se machucar de novo", diz o pai do menino. "Ele está totalmente recuperado fisicamente, mas falta confiança".

Magno diz que seu filho chegou a participar de um evento beneficente em Petrópolis, onde foi convidado a jogar futebol junto de ex-jogadores do Flamengo, como Bebeto e Zinho, mas não teve coragem de entrar em campo.

Remédios. Magno conta que, após o incidente, passou a tomar remédios diariamente. "Eu não conseguia dormir nem trabalhar, ficava distraído. Então comecei a tomar bromazepam (calmante) e zoxipan (antidepressivo)."

O auxiliar de supermercado disse que conseguiu os remédios com uma médica clínica geral, e não está fazendo acompanhamento psicológico.

"Quero fazer um check-up nas minhas próximas férias, porque não dá para ficar tomando remédio toda hora", diz Magno. "O bromazepam me deixa zonzo. Há pouco, passei dois dias sem tomar os remédios e fiquei maluco."

 

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