André Dusek/AE-14/6/2011
André Dusek/AE-14/6/2011

Solto no futebol, mudo no trabalho

Tiririca cria projetos, mas passa longe da tribuna

Andrea Jubé Vianna e Eduardo Bresciani / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2011 | 00h00

Você sabe o que faz um deputado federal? A pergunta foi o mote da campanha que elegeu Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, o deputado mais votado do País. Após receber mais de 1,3 milhão de votos dos paulistanos, sua principal atividade depois da posse tem sido tirar fotos com turistas e fãs.

Tiririca é um deputado que não fala em público. Só distribui sorrisos e acenos pelos corredores da Câmara. Um colega de bancada atribui o excesso de discrição à orientação da cúpula do PR para manter Tiririca longe de polêmicas. A preocupação com a imagem do puxador de votos é tanta que até seu figurino, no início, passou pelo crivo das lideranças. O secretário-geral do PR, Valdemar Costa Neto (SP), mandou comprar os ternos e gravatas de Tiririca. Mas a discrição como deputado não o poupou de polêmicas.

Sem leitura. Logo no segundo mês de mandato, ele virou notícia ao repetir vícios condenados no Parlamento. Uma reportagem do Estado revelou que Tiririca contratou dois humoristas para auxiliá-lo em São Paulo, onde nem sequer mantém escritório político. O Estado mostrou ainda que Tiririca usou dinheiro público para se hospedar num resort em Fortaleza (CE). O deputado devolveu o dinheiro da hospedagem, mas manteve os funcionários em seu gabinete.

Outra polêmica veio com sua indicação para compor a Comissão de Educação e Cultura, já que o deputado teve de se submeter a um teste para provar que não era analfabeto. Assíduo, esteve em todas as sessões do plenário e só faltou duas vezes a reuniões da comissão. Em junho, com a ajuda de assessores, apresentou seus primeiros projetos.

Propaganda incômoda. Causa espécie, no entanto, que o parlamentar mais votado do País não abra a boca em plenário. Quase seis meses depois da posse, o deputado e artista não subiu à tribuna para o primeiro discurso. O líder do PR, Lincoln Portela (MG), minimiza o mutismo do colega lembrando que há outros deputados na mesma situação. Na hora de elogiá-lo, Portela não consegue fugir da faceta de artista. "Ele é muito respeitoso, discreto e elegante com todos. Tira foto com todo mundo, não esnoba nem discrimina ninguém."

Apesar dos elogios do líder, parlamentares do PR ficaram incomodados quando o partido decidiu usar Tiririca na propaganda da sigla, em rede nacional de televisão. No comercial, vestido de palhaço, ele afirma ter aprendido no Congresso que não pode contratar parentes e diz: "Pai, continue catando latinha; mãe, continue lavando para fora". Um dos integrantes da cúpula do PR reclamou que Tiririca passou a ideia de que abandonou os pais na miséria depois de eleito. Em outro trecho, em que Tiririca diz que em "Brasília a coisa é séria", sentiu um tom de deboche com a classe política.

Futebol. Reservado no Congresso, Tiririca tira a fantasia de parlamentar nas partidas de futebol promovidas por deputados em clubes da capital. "No jogo ele se solta. Quando faz gol, ele canta Florentina", diz o deputado Izalci (PR-DF). Florentina é a música que lançou o humorista ao estrelato em 1996. Se perde um gol, os colegas do time devolvem: "Abestado!"

A expectativa de colegas é de que Tiririca mantenha o desempenho no Congresso no próximo semestre. Os primeiros sinais vieram nas últimas semanas, quando ele adotou um visual descontraído: camisa para fora do terno, calça jeans e sapato esportivo. Do visual montado por Costa Neto, restaram só as gravatas, obrigatórias no Congresso.

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