Sudeste já não é sonho de migrantes e Nordeste desacelera evasão, diz IBGE

Segundo estudo, queda foi de 37,5% em nove anos, e Rio e São Paulo passaram de ''importadores'' a ''exportadores'' de habitantes

Luciana Nunes Leal / RIO, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2011 | 00h00

Metrópoles saturadas, desconcentração da oferta de emprego e cidades médias mais atraentes provocaram, na última década, forte redução da migração interna no País e o retorno dos migrantes a seus Estados de origem. Em vez do sonho de viver nas grandes cidades do Sudeste, marco das décadas de 1960 a 1980, a tendência é de deslocamentos entre municípios de um mesmo Estado e de queda acentuada das migrações entre regiões.

Na última década, Rio de Janeiro e São Paulo deixaram de ser "importadores" e passaram a "exportadores" de moradores, enquanto o Espírito Santo despontou como foco de atração de novos habitantes. O Nordeste continua a perder moradores, mas em intensidade bem menor.

A migração interna foi analisada em publicação divulgada ontem pelo IBGE, com base nos dados do Censo 2000 e nas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2004 e 2009. O Censo 2000 mostrou que havia 5,1 milhões de pessoas que migraram de um Estado para outro nos 5 anos anteriores. Em 2004, a Pnad indicou que o número de migrantes caíra para 4,63 milhões. Na Pnad de 2009, foram apurados 3,24 milhões. Houve, portanto, em nove anos, uma queda de 37,5% no número absoluto de pessoas que fixaram residência em outros Estados.

"A principal motivação para a migração é a busca por trabalho. Qualidade de vida e menos violência podem ser complementares. Dos anos 80 para cá, houve desconcentração da atividade econômica. O Nordeste passou a segurar população e atrair a migração de retorno. Pode-se dizer que o País hoje se desenvolve em quase todas as áreas. Com essa mudança no modelo de desenvolvimento, os migrantes tendem a diminuir", resume o pesquisador do IBGE Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira, um dos organizadores da publicação Reflexões sobre os deslocamentos populacionais no Brasil.

Inversão. Na mudança do perfil dos Estados, Rio e São Paulo viveram uma inversão. O Censo de 2000 mostrou que São Paulo tinha 340 mil imigrantes (moradores vindos de fora do Estado) a mais que emigrantes (paulistas ou antigos habitantes que passaram a viver fora de São Paulo). Para cada 100 pessoas que chegavam, 72 deixavam o Estado. A Pnad de 2004 apontou situação oposta, com 155 mil emigrantes mais que imigrantes.

Parte dos moradores que saíram de São Paulo na última década era de migrantes de volta à terra natal, especialmente Nordeste. Transferiram-se, principalmente, para Paraná, Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará e Rio. O Rio, embora já vivesse período de esvaziamento econômico entre 1995 e 2000, teve 45,5 mil imigrantes mais que emigrantes. O cenário se inverteu entre 2004 e 2009, quando deixaram o Estado 24 mil pessoas a mais do que chegaram.

Mais da metade dos Estados apresentaram, em 2009, equilíbrio entre o número de moradores imigrantes e emigrantes.

Informações sobre migração do Censo 2010 serão divulgados no início do ano que vem e deverão confirmar também o crescimento do chamado deslocamento pendular, em que moradores estudam ou trabalham em outros municípios, mas continuam a morar na cidade de origem.

O IBGE destaca a queda no deslocamento da população entre as regiões do País. Em 2000, 3,36 milhões de pessoas viviam em regiões diferentes daquela de origem. Em 2004, esse número caiu para 2,86 milhões e chegou a 2,05 milhões em 2009. "Essa migração em que a pessoa percorre muitos mil quilômetros movida pela oferta de trabalho deve continuar caindo", diz Tadeu.

Segundo o pesquisador, "as metrópoles mais degradadas, com alto custo de vida e violência, deixaram de ser atrativas e as cidades médias, com mais estrutura viária, escolas, facilidade de comunicação, incentivos fiscais, atraem moradores".

Industrialização. O Espírito Santo vai no sentido contrário ao de São Paulo. O fortalecimento da industrialização na área de minério e siderurgia nos anos 80 foi decisivo para a atração de população, depois do esvaziamento nos anos de 1950 e 1960. Foi o único Estado que, entre 2004 e 2009, não diminuiu o número de imigrantes. Além disso, reduziu à metade o número de emigrantes.

"Nos anos 70, a renda per capita do Espírito Santo só não era pior do que a do Maranhão e do Piauí. O Estado é retardatário no processo de industrialização do Sudeste. A industrialização se iniciou na década de 70, tomou corpo nos anos 80 e se intensificou nos 90. Na década passada, o Espírito Santo respondeu à demanda da China por produtos siderúrgicos e também mármore e granito. Agora, a exploração do petróleo deve consolidar a migração e atrair mão de obra de maior qualificação", diz o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo Arlindo Vilaschi.

Segundo o IBGE, o Espírito Santo atrai principalmente população da Bahia, Minas e Rio. Outros Estados com altos índices de atração de migrantes, segundo a Pnad 2009, foram Goiás, Amazonas, Amapá e Santa Catarina. Entre os Estados classificados como "expulsadores" de população, estão Bahia e Alagoas.

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