NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Monica Manir, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2016 | 03h00

“Às vezes, tem um suicida na sua frente e você não vê.” Bilhetes derradeiros costumam marcar eternamente os familiares de quem se matou. Esse, de um motoboy de 41 anos que se jogou do alto do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa abraçado ao filho de 4, ecoou além. Envolvia uma criança; era o segundo suicídio, em cinco meses, nesse mesmo lugar de São Paulo; e antecipava em poucos dias o Setembro Amarelo, iniciativa que tenta iluminar a sociedade para o fato de que se está falando de uma epidemia - e o silêncio sobre o assunto pode ser letal. 

“O sexo, o câncer e a aids já romperam algumas barreiras; o suicídio, ainda não”, diz Robert Paris, presidente nacional do Centro de Valorização da Vida (CVV), uma das entidades que encabeçam o Setembro Amarelo no Brasil. Para esse empresário, que há 22 anos concilia sua profissão com a de voluntário do programa, a questão é cumulativa e procriativa. “O tabu do suicídio é filhote do tabu da morte.” Ele explica. Se antes muitas famílias velavam seus entes queridos em casa e isso era visto até pelas crianças, hoje a morte está restrita à assepsia e à impessoalidade dos hospitais. Ficou distante do dia a dia, algo que não se concebe trazer à mesa do jantar. “O problema é que o suicídio é morte, mas morte autoinfligida”, diz. 

Além disso, cerca de 90% das pessoas que tentam ou chegam a se suicidar apresentam algum tipo de transtorno, seja afetivo, de personalidade, de ansiedade, que talvez implicasse tratamento. “Se você vai ao médico e tem pneumonia, tem pneumonia e pronto, mas, se está se sentindo deprimido, tem escrúpulos em falar.”

Mais que falar, o CVV se presta a ouvir, o que faz há 54 anos. Hoje é uma franquia social com 72 unidades espalhadas pelo País e 2 mil voluntários. Os turnos normais são de quatro horas e poucas unidades atendem full time. “Bem verdade que desespero não tem hora”, diz Carlos Correia, voluntário há 22 anos, como Robert. Mas também é verdade que a maior parte das ligações se concentra no período noturno, daí o “CVV, boa noite!”, bordão do atendimento.

A marca nasceu sob o signo do telefone, ainda considerado essencial para a oferta do serviço. O número 141 é clássico, porém outro foi acoplado ao sistema há um ano, desta vez gratuitamente. Pelo 188, moradores do Rio Grande do Sul podem receber apoio emocional sem se preocupar com o tempo da ligação, que pode ser longo. Robert lembra que, no Corujão, plantão que se estende pela madrugada, chegou a passar seis horas conversando com uma pessoa. O pedido do 188 foi feito ao Ministério da Saúde pelo próprio CVV depois da tragédia em 2013 da Boate Kiss, em Santa Maria, e se estuda sua extensão para todo o território nacional. Assim como passa por detalhes burocráticos e operacionais a adoção do WhatsApp, que se juntaria ao chat, ao Skype (sem imagem) e ao e-mail, já adotados pelo Centro, sob a régua, todos eles, do sigilo e da privacidade.

A ideia de incorporar novas tecnologias ao sistema vem da necessidade de se aproximar dos jovens, que têm encorpado as estatísticas de suicídio. Embora idosos ainda estejam no topo do ranking, a taxa entre aqueles entre 15 e 19 anos aumentou 33,5%. “Eu me considerava muito independente, tomar a atitude de ligar para o CVV e alguém ouvir meu problema era, tipo, ‘ridículo’”, reconhece o Youtuber Hugo Nasck, de 22 anos, que tentou o suicídio algumas vezes. “Fora isso, acho que a gente muitas vezes consegue ser mais sincero digitando do que falando.”

Oferecer o 188 depois da morte de 242 pessoas na Kiss, a maioria estudantes, vem da certeza de que os enlutados também estão em perigo. O oficial de justiça Ivo Oliveira Farias percebeu isso depois da morte por enforcamento da filha de 18 anos, em 2014. Diante do instantâneo (no almoço, a filha parecia bem, disse que ia tirar a carta de motorista e, três horas depois, a irmã a encontrou morta), recorreu a grupos de apoio a sobreviventes do suicídio. Não só pelo instantâneo, mas pelo inexplicável. “Ela deixou um bilhete dizendo ‘Gente morta não decepciona ninguém’, e até hoje não sabemos o que isso significava”, afirma Ivo, lembrando que, algum tempo depois do falecimento da filha, saiu o resultado do vestibular. Ela havia passado em Direito, a mesma profissão do pai.

Para sempre. Ivo participa de dois grupos de apoio, um no CVV e outro no Vita Alere, instituto cuja proposta é promover a prevenção e a “pós-venção” do suicídio por meio de ações de divulgação, conscientização, educação, pesquisa e tratamento. A psicóloga Karen Scavacini, uma das fundadoras, tem uma explicação para ter aumentado o número de casos entre jovens: “Eles ignoram que a morte é para sempre.” Mas obviamente junta a isso possíveis outros fatores, como abusos físicos e sexuais, abandono, baixa autoestima, bullying, excesso de cobranças, acesso fácil a meios para pôr fim à própria vida. 

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Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2016 | 03h00

A cada hora, pelo menos uma pessoa se mata no Brasil. Foram 10.653 vítimas no País, em 2014. Essas mortes poderiam ser evitadas, afirma o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva. Segundo ele, falta rede pública de amparo a essas pessoas. A maioria delas procurou ajuda médica no mês anterior à tentativa de suicídio e metade tentou tirar a vida novamente nos três meses seguintes ao primeiro ato.

Para tentar reduzir as estatísticas, a ABP lançou uma série de iniciativas para marcar o Setembro Amarelo - da distribuição de cartilhas para médicos ao lançamento de material informativo para jornalistas. A entidade informou ainda que buscará parceria com conselhos de engenharia e arquitetura para a criação do “selo amarelo”, que identificará construções que ajudem na prevenção ao suicídio. Hoje, o Cristo Redentor será iluminado de amarelo, com o objetivo de chamar a atenção para o problema.

De acordo com Silva, que cita a revisão de 31 artigos científicos que analisaram 15.629 casos de suicídio no mundo, em 96,8% dos suicídios as pessoas tinham algum diagnóstico de transtorno mental quando se mataram - 35,8% sofriam de transtornos de humor (depressão e transtorno bipolar são os mais comuns); 22,4% tinham histórico de abuso de álcool e drogas; 10,6% sofriam de esquizofrenia. “Quando você detecta que alguém tem aids, faz-se uma notificação compulsória e o Estado vai atrás para tratar. Não temos isso em caso de suicídio. Onde no Brasil você consegue marcar consulta com psiquiatra em menos de três meses na rede pública?”

É preciso sensibilizar ainda os médicos para perceber os sinais emitidos pelo paciente. “Cerca de 70% das pessoas avisam de alguma forma que vão tentar se matar. Elas procuram alguma ajuda médica com queixas como dor de cabeça, na coluna, dor do estômago. É preciso treinar o médico para perguntar sobre o lado emocional”, afirmou o psiquiatra João Romildo Bueno, diretor da ABP. 

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O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2016 | 03h00

Autor de O Suicídio e Sua Prevenção, lançado em 2013 pela Editora Unesp, o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina de Botucatu, José Manoel Bertolote, remonta há 10 mil anos os primeiros registros de suicídio. E enfatiza que, entre as estratégias para preveni-lo, está a quebra do sigilo em tratar do tema. 

Qual é a população mais vulnerável? 

O suicídio é medido em taxas por 100 mil habitantes. Nesses termos, as taxas mais altas, na maioria dos países analisados, são observadas entre idosos do sexo masculino, embora haja exceções notáveis, como a Nova Zelândia, onde os números mais elevados são de homens de idade entre 20 a 30 anos, e no Japão, em homens entre 45 e 55 anos.

Em que medida convicções religiosas ajudam a prevenir ou levam ao suicídio? 

A maioria das religiões - cristianismo (católicos, protestantes e espiritualistas), islã, budismo, hinduísmo - desaprova e condena fortemente o suicídio. Nos seguidores dessas crenças, as taxas de suicídio são consideravelmente mais baixas do que entre os ateus. 

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O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2016 | 03h00

Sou uma pessoa trans-não-binária, a minha sexualidade não se prende a homem ou a mulher. Isso foi uma questão forte em mim desde pequeno. Mas também sempre foi motivo de bullying, e sofri muito na escola. Passei por muitos anos de depressão e por diversas tentativas de suicídio. Me cortava, me queimava... Era uma forma de trocar aquela dor sem controle, descomunal, por uma dor isolada, local. A tentativa mais grave foi aos 16 anos e, quando aconteceu, as pessoas ao redor tomaram a dimensão de que frases como “Ah, eu não queria existir” não eram brincadeira. Minha família, meus amigos e o psicólogo foram fundamentais na minha recuperação.

Percebo também que, por meio do meu canal, posso tocar nesses tópicos e ajudar pessoas marginalizadas por causa da sua orientação sexual. Porque jovens LGBTs têm 4 vezes mais risco de tentar o suicídio. Na verdade, não é suicídio, é assassinato.

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